Empreendedorismo português é “por necessidade” e não contribui para o crescimento da economia

Investigador concluiu que maioria do empreendedorismo feito em Portugal não contribui para o crescimento da economia. A aposta "não tem dado resultado"

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Um dos traços preocupantes do empreendedorismo em Portugal é este ser alimentado pelo Governo Nuno Alexandre Mendes

Uma tese de doutoramento da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra concluiu que a maioria do empreendedorismo em Portugal é de necessidade, gera turbulência no tecido empresarial e contribui para o crescimento "anémico" da economia.

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Uma tese de doutoramento da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra concluiu que a maioria do empreendedorismo em Portugal é de necessidade, gera turbulência no tecido empresarial e contribui para o crescimento "anémico" da economia.

A tese de doutoramento, iniciada em 2012, constata que a maioria do empreendedorismo português surge alavancado pelo desemprego, o que leva a que esteja associado a um empreendedorismo "por necessidade", ao invés de "por oportunidade", indiciando que não contribui para o crescimento da economia, disse à agência Lusa o autor da tese, Gonçalo Brás.

Segundo o investigador, um dos "traços preocupantes do empreendedorismo em Portugal" é este ser alimentado pelo Governo, "em programas como o 'Empreende Já'", em que o desemprego "é condição 'sine qua non' [obrigatória] para haver apoio". O desemprego como alavanca para o empreendedorismo leva a que as pessoas "sejam empurradas para o mercado, muitas vezes impreparadas, o que pode resultar no seu endividamento", sublinhou.

A consequência de um empreendedorismo assente na necessidade e no "auto-emprego" (Portugal tem uma taxa de auto-emprego de 18,4%) leva a "uma turbulência de empresas que se regista em Portugal, com um carrossel de entra e sai de empresas, sem que venha nada de bom para o crescimento económico português", referiu o autor da tese.

Falta empreendedorismo "por oportunidade"

A aposta nesse tipo de empreendedorismo através de políticas estatais "não tem dado resultado", sendo que a diminuição no investimento em inovação e desenvolvimento (I&D) e em educação acaba por ser "preocupante", indiciando uma "não aposta no empreendedorismo por oportunidade" — assente na inovação e na criação de produtos de valor acrescentado.

O investigador, que analisa também 350 empresas exportadoras e, dentro dessas, 170 de base tecnológica, salienta que nessas empresas o empreendedorismo por oportunidade (feito via inovação) está presente e ajuda-as a internacionalizarem-se e a obterem "uma melhor performance global".

No entanto, caso Portugal queira fazer uma viragem do empreendedorismo por necessidade "para o empreendedorismo por oportunidade, tem de apostar num modelo de crescimento endógeno, com o capital humano e a tecnologia como alicerces". "O país tem de passar de uma óptica de obsessão de liderança pelo custo, em que não é possível competir num mundo global e num país sem política monetária", para um modelo assente na diferenciação, defendeu Gonçalo Brás.

Parte da tese será abordada em Sevilha, Espanha, entre 5 e 6 de Novembro, num evento da Rede Internacional de Investigação Económica.