Uma app para esquecer o amor?

Habituámo-nos a tratar o amor como os "gadgets": quando se estraga ou surge um modelo com mais funções trocamo-lo

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David Mellis/FLICKR

A verdade é que os amores são cada vez mais superficiais e vazios. Deixámos de escrever cartas. Já não passamos horas ao telefone. Perdeu-se o "desliga tu, não tu, então ao mesmo tempo", enquanto enrolávamos o cabelo na ponta dos dedos como quem faz uma carícia do outro lado da linha. Habituámo-nos a tratar o amor como os "gadgets": quando se estraga ou surge um modelo com mais funções trocamo-lo. Com a facilidade com que se esquecem luvas num banco de jardim postam-se mensagens copiadas de uma qualquer página do Facebook, dessas que anestesiam o trabalho da inteligência e têm a citação pronta a servir. Ou enviam-se "stickers" com corações e rosas virtuais.

A verdade faz-nos mais fortes

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A verdade é que os amores são cada vez mais superficiais e vazios. Deixámos de escrever cartas. Já não passamos horas ao telefone. Perdeu-se o "desliga tu, não tu, então ao mesmo tempo", enquanto enrolávamos o cabelo na ponta dos dedos como quem faz uma carícia do outro lado da linha. Habituámo-nos a tratar o amor como os "gadgets": quando se estraga ou surge um modelo com mais funções trocamo-lo. Com a facilidade com que se esquecem luvas num banco de jardim postam-se mensagens copiadas de uma qualquer página do Facebook, dessas que anestesiam o trabalho da inteligência e têm a citação pronta a servir. Ou enviam-se "stickers" com corações e rosas virtuais.

Há amantes que não conhecem o desenho da letra da pessoa deitada ao seu lado, quanto mais a experiência dos abismos, o atravessar noites em claro, a debruçar-nos sobre o coração e a pensar em quem nos faz falta.

Qualquer esforço de comunhão se afigura supérfluo. Deixámos de sentir o encosto dos lábios, o enlaçar dos dedos, o olhar íntimo da noite. Os que se demoram para lá dos prazos previstos - rápido, mais rápido, rapidíssimo - tornam-se incómodos, românticos incuráveis que, como às crianças, nunca se sabe lá muito bem o que dizer.

Não escutamos o pulsar do sangue, o fascínio das promessas. Vivemos com expectativas enormes. Cépticos, entregamo-nos cada vez menos. A oferta é grande, já não se tem paciência para conhecer o outro. Basta-nos a superfície. Quando nos cansamos as alternativas estão ao alcance de uma mensagem no Whatsapp, de um "match" no Tinder, de um toque no Facebook.

Pensamos cada vez mais: e se este ainda não for o amor que nos muda a vida? Não suportamos a decepção do real. Corremos de ilusão em ilusão em vez de vivermos. Compenetrados nas rotações do nosso mundo um dia percebemos, demasiado tarde, que aquele amor (ou aquele amigo) nos faz falta, nos completa. Temos medo de sofrer, impacientes desistimos de lutar à primeira contrariedade. O mantra dos amores a alta velocidade é implacável: "Deixar partir", "desapegar-nos", quando queremos que ele fique. Virar rapidinho a página, perdão, deslizar os dedos sobre o écran. Hoje ninguém pergunta "quanto tempo esperaria pela pessoa amada", o esperar é entendido como uma redundância ingénua, como uma disquete na era do USB. Para o "encontro" já se inventou tudo, falta agora uma app para esquecer o amor.

Não é à toa que o espelho me anuncia mais uma ruga. Eu ainda sou do tempo da palavra e de do não ter medo de ficar preso no olhar do outro. A minha app particular para o amor e as suas dores? A insurreição da poesia. "Analfabeta de ti, demorei a ler-te. Tinhas o tempo que era o das frases cadenciadas com vírgulas de pele transpirada. Percorri-te as páginas na desordem do sangue, num doce engano de sermos dois. De lava os beijos solidificaram, perderam a vertigem. Sinto fome de ti, substantivo sem adjetivo possível".