Pensar Portugal, antes de pensar Londres ou Japão

Para quem conhece a realidade do râguebi português, é fácil encontrar a razão pela qual a nossa selecção não está presente no Mundial 2015

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ENRIC VIVES-RUBIO

Começa a notar-se agora que há muitas pessoas que estão admiradas e até revoltadas por a Selecção Portuguesa de râguebi não estar apurada para o Mundial de 2015 em Londres. Para quem não percebe muito de râguebi, pode até parecer estranho. Estão fora da realidade da modalidade em Portugal e do que se passa lá fora. Mas para quem está a par da forma como o râguebi é gerido em Portugal, a razão pela qual a nossa selecção não está presente no Mundial de XV chega a ser óbvia.

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Começa a notar-se agora que há muitas pessoas que estão admiradas e até revoltadas por a Selecção Portuguesa de râguebi não estar apurada para o Mundial de 2015 em Londres. Para quem não percebe muito de râguebi, pode até parecer estranho. Estão fora da realidade da modalidade em Portugal e do que se passa lá fora. Mas para quem está a par da forma como o râguebi é gerido em Portugal, a razão pela qual a nossa selecção não está presente no Mundial de XV chega a ser óbvia.

Ainda me lembro de, em 21 de Outubro de 2011, um órgão de comunicação social ter levantado ao actual presidente da Federação Portuguesa de Rugby a questão: “E se os Lobos não se conseguirem qualificar para o Mundial de 2015?” E jamais me esquecerei da resposta escrita: “Nem concebo tal ideia. Não podemos falhar. Não admito esse cenário. Temos todas condições para assegurar participação. Rectificámos a estrutura a pensar nisso. É certo que falamos dum jogo onde tudo pode acontecer. Mas se não formos ao Mundial de 2015 bato a porta. Demito-me. Será um falhanço total.”

O que mais me espanta é que, para além do próprio presidente, houve gente que acreditou nisto. As mesmas pessoas que não pensaram bem e que, confirma-se agora, percebem muito pouco de râguebi. Os mesmos que apoiaram uma campanha eleitoral e todo um mandato suportado no apuramento de Portugal para o Mundial de 2015, depois de já terem feito o mesmo, sem sucesso, para o Mundial da Nova Zelândia 2011, onde houve eleições “à pressa” a meio do apuramento. As mesmas pessoas que agora se sentem desapontadas, traídas e dispostas a dizer mal de tudo e de todos: presidente, treinadores e até jogadores, imagine-se.

Tarde demais para pôr tudo em causa e apurar responsabilidades. Agora não vale a pena bater no ceguinho, até porque é fácil e gratuito. Agora, não vale a pena chamar nomes a este ou aquele. Todos - adeptos, clubes, dirigentes, etc... - tiveram oportunidade de falar na altura certa!

Durante todo este tempo, fui levantando questões, fui sendo incómodo e acusado de ser do contra. Por dizer o que pensava fui personificado como sendo “o opositor oficial da actual direcção da FPR”. Mas se calhar, o facto de ser tão a favor do râguebi, fez-me ser do contra em quase tudo.

E agora pergunto:

Será que acreditavam mesmo que íamos ao Mundial de 2015 quando o râguebi interno estava como estava? E continua no estado que está. Será que valia a pena tentar profissionalizar um desporto que não pode, nem nunca poderá ser profissional em Portugal? Porque, como era esperado, a tentativa deu em dívidas aos árbitros, aos jogadores, fornecedores, etc… E falta medir o resto do descalabro financeiro.

Será que era de pôr os jogadores a treinar só na Selecção que iríamos lá? Como sabem, são os clubes que fazem com que a Selecção exista, e não o contrário. Será que era possível ir a Londres quando, em Portugal, os regulamentos que foram feitos a meio de uma época voltaram aos do ano anterior por não serem legais? Será que era a mudar o Campeonato todos os anos? Primeiro a acabar em Janeiro, depois em Junho, depois alterando modelos competitivos em três dias como a FPR propôs ainda em Janeiro de 2014?

Ou mais grave ainda: Será que acreditaram que, por entrarmos na Amlin Cup, íamos ao Mundial? Será que é preciso lembrar para que serve uma Amlin Cup para um râguebi como o nosso? Não serve de certeza para os clubes contratarem jogadores estrangeiros a meias com a FPR, como foi proposto. E muito menos para “lançar” jogadores com mais de 30 anos, como foi feito.

Como é que se pode acreditar numa federação que vai contra todos os valores do râguebi e que despede o seu treinador por carta pública? O que se passou no episódio Errol Brain, ao dia de hoje, ainda não dá para acreditar.

Para se conseguir bons resultados desportivos tem que existir uma estratégia desportiva e financeira. Temos que ter objectivos reais e saber como os alcançar. Temos de saber o que estamos a fazer, e o por quê de o estarmos fazer. E não acredito que nestes últimos tempos ainda alguém acreditasse que iríamos a Londres. Depois do que foi feito e desfeito, tenho a certeza que ninguém realmente acreditava. Uma coisa é querermos, outra é acreditarmos.

Todos sabemos que as coisas não acontecem por milagre, e nada nos cai do céu. Nestes últimos tempos, apenas os jogadores tinham direito de acreditar que ir ao Mundial era possível. Se assim não fosse, que motivação os levaria para dentro do campo? E temos de lhes estar gratos por terem acreditado até à última. Eles são os únicos que não culpados.

Por isso, é necessário que se pense no râguebi em Portugal. Mais do que pensar em ganhar eleições, em cumprir mandatos ou pensar no próprio clube. E isso, para quem tem paixão por este desporto, não é difícil. Até porque não há muito por onde inventar.

1. O râguebi em Portugal (e em todo o mundo) tem por base os clubes. São eles que trabalham para que haja uma selecção, e não o contrário.

2. Há que estabelecer prioridades. Falta-nos ainda quantidade e qualidade para ir a tudo: Mundial de XV, ser “core-team” nos IRB Sevens, ir à Amlin, ir aos Jogos Olímpicos, etc… Não podemos ir a todas, muito menos sem pensar onde realmente queremos ir!

3. Tem de haver estratégia, começando pelo râguebi interno para que este se torne mais competitivo cá dentro e consequentemente lá fora.

4. Tem de se por o râguebi à frente do ego. E temos em Portugal várias pessoas que são bons condutores de homens e altruístas o suficiente para darem mais ao râguebi do que recebem. Se começarmos por aqui, vamos certamente chegar muito mais longe. Quem sabe até ao Japão, em 2019. Apesar de a ida a esse Mundial ser sempre uma consequência de um bom trabalho, nunca uma condição. Por favor, não vamos cair outra vez em promessas de coisas que não podem ser garantidas. Para o Mundial de Londres já não há nada a fazer, a não ser aprender com os erros. Haja humildade para isso.

Para terminar este ciclo e a época internacional de XV com alguma dignidade, já que terminámos com menos de metade dos pontos da Rússia (dizia-se que este era o nosso mais directo adversário), vamos ao menos deixar de dizer mal dos nossos jogadores em blogs, nas redes sociais, nas bancadas, etc...

Vamos agradecer-lhes o que têm feito pela nossa selecção nos últimos anos. Sejam eles quem forem, gostando mais de uns ou de outros. Não são eles que escolhem se são convocados ou não, se jogam ou não, e em que posição jogam... Eles só fazem o que de mais puro há no râguebi: entrar para dentro de campo e dar o máximo que conseguem! E isso nunca poderá ser criticado, nunca!

Por isso vamos todos pensar em Portugal, e não em Londres, ou no Japão. Era o que já devíamos ter feito antes.