Cabeceiras de Basto quer convencer a Unesco que o seu mosteiro é um bem universal

Candidatura do edifício do século XVII a Património Mundial será formalizada no próximo Verão.

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A igreja de estilo barroco e rococó tem numa das alas um núcleo museológico de arte sacra Bárbara Raquel Moreira

Além da principal igreja do concelho, no antigo mosteiro beneditino estão localizados os serviços da Câmara de Cabeceiras de Bastos e o externato de S. Miguel de Refojos, que é propriedade da Arquidiocese de Braga. Este é, por isso, um edifício que se mantém vivo, apesar de a sua história ser quase tão antiga como a do próprio país. Se a estrutura actual do mosteiro data do século XVII, os registos mais antigos remontam ao século XII e entre eles conta-se a encomenda feita em 1152 por D. Gueda Mendes de um cálice em ouro, que é considerado uma das jóias da ourivesaria medieval no Norte do país.

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Além da principal igreja do concelho, no antigo mosteiro beneditino estão localizados os serviços da Câmara de Cabeceiras de Bastos e o externato de S. Miguel de Refojos, que é propriedade da Arquidiocese de Braga. Este é, por isso, um edifício que se mantém vivo, apesar de a sua história ser quase tão antiga como a do próprio país. Se a estrutura actual do mosteiro data do século XVII, os registos mais antigos remontam ao século XII e entre eles conta-se a encomenda feita em 1152 por D. Gueda Mendes de um cálice em ouro, que é considerado uma das jóias da ourivesaria medieval no Norte do país.

O cálice encontra-se hoje no Museu Machado de Castro, em Coimbra, para onde terá sido levado no século XVII por frei Diogo de Murça, que foi reitor da mais antiga universidade nacional depois de ter dirigido o convento de S. Miguel de Refojos. Essa é uma das mais-valias da candidatura à Unesco, juntamente com a primeira Botica de um edifício religioso no Norte do país, no século XVIII.

As outras forças da candidatura são arquitectónicas. A estrutura da igreja é do século XVII, em estilo barroco e os altares laterais em estilo rococó, com cores berrantes como o azul e o grená, que contrastam com o dourado do altar-mor. O templo é o único da congregação beneditina a ter uma cúpula no interior, datada do século XVIII e também o único onde existe um arco de volta torcida, na ala onde hoje está instalado o núcleo museológico de arte sacra. Ali podem também ser vistas várias telas maneiristas de Francisco Correia, um artista português que pintava sobretudo para Espanha.

“Torna-o diferente de todos os outros mosteiros beneditinos. É aí que vamos incidir e valorizar os aspectos únicos deste mosteiro”, sublinha Fátima Oliveira, técnica da Câmara de Cabeceiras de Basto que coordena os trabalhos da candidatura. E isso será suficiente para distinguir o caso de Refojos do de Santo Tirso – que também é candidato a Património Mundial, ou de S. Martinho de Tibães, em Braga, a casa-mãe da congregação beneditina em Portugal, acreditam os responsáveis.

A intenção de candidatura do mosteiro de Refojos a Património Mundial foi anunciada pelo novo presidente da autarquia, Serafim China Pereira, no dia da sua tomada de posse. “Tendo aqui um edifício com um valor universal, não faz sentido que esteja apenas confinado à população de Cabeceiras de Basto e era necessário dar-lhe visibilidade”, sublinha o autarca.

A candidatura está actualmente a ser preparada, decorrendo trabalhos de investigação nos domínios da história, da arquitectura e da arqueologia, que deverão estar terminados até ao Verão. A intenção da Câmara é formalizar a candidatura à Unesco até 30 de Agosto e fazer deste processo um dos pontos altos das comemorações dos 500 anos do foral de Cabeceiras de Basto, que se assinalam a 5 de Outubro.

A câmara quer fazer do turismo um factor de desenvolvimento do concelho, apesar de ter hoje uma expressão residual. “Ninguém faz um hotel em Cabeceiras de Basto, se não houver gente. Temos que arranjar motivos para que as pessoas venham cá”, afirma o autarca. China Pereira acredita que a simples apresentação da candidatura é já uma mais-valia e pode fazer com que alguns dos visitantes que hoje procuram outros locais classificados como Património Mundial na região “façam uma viagem de mais dez minutos” para ir conhecer o mosteiro de Refojos.

Além da candidatura à Unesco, a autarquia está a preparar candidaturas a fundos comunitários para a requalificação dos altares do mosteiro. Nos últimos anos já fez ali  investimentos com a reconstrução da antiga casa dos caseiros da quinta associada ao mosteiro – onde, no Verão, foi instalada a Casa do Tempo, um centro interpretativo do concelho –, bem como a recuperação do cadeiral da igreja e de um dos dois órgãos de tubos existentes, que, depois de 80 anos de inactividade, voltou a tocar e recebe agora concertos com regularidade. “O grande objectivo tem que ser tentar preservar este bem”, sublinha China Pereira.

Cinco candidaturas num raio de 100 quilómetros
Não é só Cabeceiras de Basto que quer ver um dos seus monumentos classificado pela Unesco como Património Mundial. No Norte do país, o número de candidaturas tem-se multiplicado nos últimos anos e, num raio de 100 quilómetros, há neste momento cinco candidaturas activas. Apesar de nos próximos anos a aprovação de uma candidatura nacional estar condicionada.

Antes do mosteiro de Refojos de Basto, Santo Tirso tinha apresentado, no Verão passado, a candidatura do mosteiro de S. Bento. As duas propostas têm paralelismos, por serem mosteiros beneditinos que foram determinantes para que as localidades em que se situam sejam hoje concelhos com autonomia administrativa.

Também Braga reforçou nos últimos meses os esforços para dar visibilidade à candidatura do Bom Jesus do Monte, apresentada pela confraria que gere aquele santuário, em 2011. Não muito longe dali, em Guimarães, apesar de o centro histórico estar já classificado como Património Cultural da Humanidade desde 2001, a autarquia quer agora alargar a área reconhecida internacionalmente para o antigo bairro industrial de Couros. A outra candidatura é a do centro histórico da vila de Ponte de Lima alimentado pela autarquia desde 2009.

A estas cinco candidaturas a Património Cultural da Humanidade juntam-se outras três à Lista do Património Imaterial, onde Portugal já inscreveu o fado e a dieta mediterrânica. Guimarães tem praticamente pronto o estudo que suporta a candidatura das Nicolinas, as festas dos estudantes do ensino secundário da cidade. Mais recentemente, as autarquias de Braga e Valongo anunciaram a intenção de fazer entrar na corrida, respectivamente, as solenidades da Semana Santa e as festas da Bugiada e Mouriscada.

Portugal, que tem actualmente 15 bens inscritos na lista da Unesco e passou a integrar o comité responsável pela aplicação, gestão e utilização dos fundos do Património Mundial em Novembro, com direito a dois votos. “Esta participação vai condicionar, nos próximos quatro anos, a inscrição de bens nacionais na Lista do Património Mundial da Humanidade”, avisa o novo director regional de cultura do Norte, António Ponte.

Aquele responsável valoriza, porém, o facto de se multiplicarem as candidaturas na região. “Demonstram o reconhecimento das diferentes organizações e das comunidades do enorme valor do património português e da sua importância e potencial para a dinamização cultural e local”, afirma ao PÚBLICO. Ponte manifesta a disponibilidade da direção-regional para prestar apoio técnico às entidades promotoras destes processos de candidatura, ainda que lembre que os processos são totalmente independentes de qualquer parecer daquela entidade pública.