Vaticano lamenta "ataques" nas vésperas do conclave

Secretário de Estado do Vaticano diz que a Santa Sé está a ser atacada por “notícias falsas” para condicionar o conclave onde será eleito sucessor de Bento XVI, como as acusações contra ex-bispo auxiliar de Lisboa e novas revelações sobre o Vatileaks.

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A poucos dias do conclave para a sucessão de Bento XVI, sucedem-se os casos na imprensa Vincenzo Pinto/AFP

“No passado eram as grandes potências, os Estados, que procuravam condicionar a eleição do Papa. Hoje tenta-se fazer pressão através da opinião pública”, diz o comunicado do cardeal que é o primeiro-ministro do Vaticano. Deplora a multiplicação “de notícias frequentemente não provadas, ou não verificáveis, que é como quem diz falsas, que fazem graves danos às pessoas e às instituições.”

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“No passado eram as grandes potências, os Estados, que procuravam condicionar a eleição do Papa. Hoje tenta-se fazer pressão através da opinião pública”, diz o comunicado do cardeal que é o primeiro-ministro do Vaticano. Deplora a multiplicação “de notícias frequentemente não provadas, ou não verificáveis, que é como quem diz falsas, que fazem graves danos às pessoas e às instituições.”

É uma referência a casos como o do bispo português acusado de assédio sexual. Um cardeal pode ficar fora do conclave por estar acusado de encobrir abusos e D. Carlos Azevedo, actual delegado para o Conselho Pontifício da Cultura, teve de desmentir denúncias de assédio sexual.

A última conferência de imprensa da semana na Santa Sé foi dedicada à Constituição Apostólica, que regula a escolha do Santo Padre. Para explicar a lei que regula o conclave ainda sem data, diferente dos anteriores por se realizar com o Papa cessante vivo, o porta-voz do Vaticano, padre Francesco Lombardi, convidou a sentar-se na Sala de Imprensa o monsenhor Juan I Arrieta, secretário do Conselho dos Textos Legislativos.

Virar a página, um dia depois de ter sido obrigado a comentar novas revelações sobre o chamado Vatileaks e a notícia de que a renúncia de Bento XVI se deve a um relatório sobre os pecados no interior da Igreja, incluindo a existência de uma rede de prelados homossexuais, era o que desejava Lombardi.

A notícia sobre a denúncia contra D. Carlos Azevedo, ex-bispo auxiliar de Lisboa, foi publicada inicialmente na revista Visão e demorou um pouco a chegar a Roma. Mas chegou,. O português trabalha com o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifico da Cultura, e um dos papabile – religiosos considerados como tendo possibilidades de serem os escolhidos pelos seus pares no conclave que se avizinha.

No Vaticano não se conhece “nenhum processo em curso contra [D. Carlos Azevedo], pelo que o consideramos com pleno respeito e dignidade”, diz o padre Lombardi. Pelo contrário: “monsenhor Carlos Azevedo é uma pessoa que conhecemos e apreciamos no seu serviço” afirmou o porta-voz ao PÚBLICO, repetindo “a fórmula” preparada para um encontro com correspondentes portugueses no Vaticano, horas antes.

A revista Visão escreve no seu último número que em 2010 um padre do Porto se aproximou da Nunciatura para apresentar uma queixa, descrevendo-se como uma das vítimas de assédio de D. Carlos Azevedo – os “vários casos de assédio” teriam acontecido nos anos 1980, mas só chegaram ao conhecimento dos representantes da Santa Sé com essa queixa. A Nunciatura iniciou então um inquérito (com conhecimento e colaboração de sectores da hierarquia) que, por sua vez, adianta a Visão, terá permitido referenciar outros casos suspeitos.

“Tenho toda a confiança nos seus superiores que lhe confiaram os actuais serviços em toda a responsabilidade”, afirmou ainda Lombardi, a propósito do trabalho de D. Carlos Azevedo no Conselho Pontifício da Cultura, para onde foi nomeado em Novembro de 2011, depois de ter sido apontado como possível sucessor do cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo.

O cargo que veio ocupar para Roma, relembrava ontem o Vatican Insider, publicação dedicada à Santa Sé do jornal italiano La Stampa, não existia até então no organigrama da Igreja. Na altura, especulou-se que na origem da transferência estivessem divergências entre D. Carlos Azevedo e Policarpo.

Recorrendo ao tom que usara na véspera, na mesma Sala de Imprensa da Santa Sé, quando lamentou “a tensão que é o oposto do que o Papa e a Igreja desejam” na aproximação do conclave, o padre Lombardi quis relembrar a propósito desta denúncia “que neste período há muitos ataques e intervenções que pretendem criar confusões e turbulências na Igreja”.

“Por isso, reafirmo que não nos devemos deixar impressionar e devemos insistir que este é um período importante em que a Igreja deve acompanhar os cardeais no seu papel de escolha do novo Papa, para o bem da Igreja e da humanidade”, acrescentou Lombardi.

Chantagem de leigos
Já na quinta-feira, o porta-voz se vira obrigado a falar de escândalos, a propósito do trabalho do jornal La Repubblica, segundo o qual Bento XVI decidiu renunciar o ano passado, quando foi confrontado com a existência de um lobby gay, secreto e activo, no Vaticano. De acordo com o diário, alguns dos membros desta rede de prelados “unidos pela sua orientação sexual” terão sido a dada altura alvo de chantagem por parte de leigos com os quais mantinham laços de “uma natureza mundana”.

Estas revelações serão parte do relatório de três cardeais encomendado por Bento XVI depois do escândalo Vatileaks, caso que culminou na acusação do mordomo pessoal do Papa, condenado entretanto pelo roubo de documentos confidenciais. “Nem a comissão de cardeais, nem eu próprio faremos qualquer comentário para confirmar ou desmentir o que foi escrito. Cada um assumirá as suas responsabilidades”, afirmou na quinta-feira Lombardi.

O cardeal Ravasi, com quem trabalha o português D. Carlos Azevedo, vai seguramente participar no conclave para escolher o sucessor de Ratzinger. O mesmo não pode ser dito de todos os 117 que naturalmente integrariam este colégio que se isolará na Capela Sistina até ao fumo branco assinalar a eleição do sucessor de Bento XVI, o primeiro em sete séculos a governar os fiéis na companhia de um ex-Papa vivo.

Na sexta-feira, Lombardi confirmou que o Vaticano já recebeu do cardeal de Jacarta a mensagem de que a sua saúde não lhe permitirá deslocar-se a Roma. Os mesmos motivos que deverão justificar a ausência do patriarca emérito dos Coptas Católicos. Falta saber o que fará o cardeal de Los Angeles, Roger Mahony, acusado de ter encoberto abusos sexuais e conspirado para evitar que os sacerdotes abusadores fossem denunciados. Mahony, suspenso semanas antes da resignação, numa medida inédita, está sob pressão para não vir a Roma.
 
O conclave terá lugar, estejam em Roma 117 ou 114 cardeais. Nas leis que o regulam, explicou no Vaticano o monsenhor Juan I Arrieta, tudo se combina sempre “numa mesma lógica que visa evitar incertezas”. A lei apostólica é rígida, sublinhou, e isso deve entender-se à luz de “dois mil anos de história, de cismas e de riscos”. A Igreja está bem escudada contra crises e “quando há dúvidas, decide-se sempre por maioria”.cide-se sempre por maioria”.
 
Título corrigido a 24 de Fevereiro, às 17h15