O coleccionismo de videojogos: um mercado especulativo

Os videojogos considerados "raros" ou "incomuns" atingem valores astronómicos: o Kizuma Encounter, para a Neo Geo Aes, chegou aos 50.000 euros

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WDAsso/Flickr

A indústria comercial dos videojogos existe há praticamente quatro décadas, e naturalmente o mercado está cheio de produtos, sendo estes, jogos, consolas, computadores, acessórios ou simples "memorabilia". Serão centenas de milhares, senão mesmo milhões de objectos, que existem um pouco por todo o mundo. E estes são aliciantes para os coleccionadores.

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A indústria comercial dos videojogos existe há praticamente quatro décadas, e naturalmente o mercado está cheio de produtos, sendo estes, jogos, consolas, computadores, acessórios ou simples "memorabilia". Serão centenas de milhares, senão mesmo milhões de objectos, que existem um pouco por todo o mundo. E estes são aliciantes para os coleccionadores.

Segundo a definição clássica, "coleccionar" é um "hobby", cujos representantes tentam recriar parte do mundo no seu espaço pessoal. É praticamente algo relacionado com a nossa humanidade, a nostalgia a paixão, ou a preservação.

Existe quem coleccione selos, ou obras de arte, ou até mesmo brinquedos antigos. Por outras palavras, tanto a temática, como as motivações são livres. Mas, mais importante para esta crónica; há quem coleccione videojogos. Muitos videojogos.

O prazer de coleccionar

Historicamente, coleccionar jogos começou a popularizar-se perto do final da década de 80, quando muitos jogadores, nostálgicos pela sua infância e com financiamento suficiente, começaram a adquirir produtos da segunda geração (como computadores, consolas, jogos, "arcades", ou simples "memorabilia"), criando pequenas bibliotecas ou museus privados. Desde então, e com o advento das comunidades "online" (BBS e depois a Internet), a partilha destas colecções tornou-se mais simples, e o fenómeno tornou-se praticamente mundial, tendo crescido progressivamente.

Os objectivos diferem entre coleccionadores. Desde, perspectivas mais filantrópicas através da preservação da indústria, até outras mais pessoais, como o ego, ou, o apelo nostálgico. Segundo a comunidade, parte do prazer do coleccionador vem também da forma como a procura é efectuada. Passar horas em leilões, ir a lojas para descobrir artigos perdidos nas prateleiras, ou encontrar jogos numa feira de velharias, são partes importantes da epopeia.

Neste momento, existe igualmente quem se tenha especializado no assunto. Uns preferem coleccionar tudo o que encontram (conhecidos como Hoarders), outros somente jogos selados ou raros (Hardcore Collectors), e finalmente, os coleccionadores ocasionais.

Um mercado cheio de especulação

Notavelmente, para quem está fora do fenómeno, os preços de alguns jogos são a primeira coisa a salientar. Nalguns casos estes chegam a valores astronómicos e imagináveis, especialmente nos videojogos considerados "raros" ou "incomuns". Vejamos; Stadium Events para a NES, um jogo do qual só se conhecem 10 cópias, quando aparece no mercado, rapidamente ultrapassa os $14.000. Kizuma Encounter, para a Neo Geo Aes, chegou aos 50.000€. E, uma colecção de videojogos com milhares de jogos e consolas, foi vendida este ano no Ebay por… $1.000.000!

Os critérios para atingir estes valores diferem. Como em qualquer mercado de coleccionismo, o estado de conservação, o tipo de edição e a procura definem o preço. Bons jogos antigos ou consolas, com todos os manuais, panfletos, e ainda selados de fábrica, são vendidos por preços significativamente diferentes dos originais. Por exemplo, Zelda: Ocarina of Time (N64), originalmente vendido por cerca de 15.000$00, actualmente varia entre os 10€ e 2.500€.

Muitos coleccionadores queixam-se igualmente da especulação nos valores de venda. O que outrora era um "hobby" acessível, rapidamente tornou-se numa fonte de lucro para muitos especuladores, que sabendo da procura no mercado colocam preços astronómicos no mais comum dos artigos, tentando enganar público desatento. Para estes vendedores, os videojogos antigos saíram da categoria de «quinquilharia» e tornaram-se «raridades coleccionáveis».

Uma questão de respeito

Numa altura de crise europeia, ou mesmo, mundial, não parece que a indústria de videojogos e seus representantes indirectos, como os coleccionadores, estejam imunes. Mas, são de certeza, resistentes.

Coleccionar jogos é actualmente mais dispendioso. Mas, a quantidade de seguidores continua a crescer diariamente. Nos últimos anos, com a evolução deste mercado, os jogos em "edição de coleccionador", surgem ao mesmo tempo de qualquer grande lançamento. O coleccionismo além de ser considerado uma fonte extra de lucro, é suficientemente grande para ser respeitado pela própria indústria.

Por outro lado, alguns coleccionadores demonstraram um espírito verdadeiramente filantrópico. Através do seu esforço e doação de colecções privadas, museus públicos de videojogos foram criados um pouco por todo o mundo. Casos do Videogame Historium Museum (EUA), Vigamus (ITA) e o Computer Spiel Museum (ALE). Este último é até ao momento, o museu mais visitado de Berlim.

No entanto, apesar de tudo, o coleccionismo de jogos é ainda um fenómeno de nicho e a sua apreciação ainda não oferece estatuto fora da sua comunidade. Afinal, dizer: "Meu caro, tem de ver o Picasso que comprei", é muito diferente de; "Meu caro, tem de ver o Super Mario Bros. 3 selado que comprei".

Mas, o mercado está a compor-se. Talvez num futuro próximo, um Stadium Events possa aparecer numa Sotheby's Auction House. Tal como os Americanos costumam dizer: "Big bucks, Big business, Big respect".