O Olímpia vai acordar para ser uma discoteca com “requinte”

Do edifício de 1912, parte importante da história do cinema do Porto, o futuro Olympia Club só mantém a fachada. Inauguração já foi adiada duas vezes.

No final da semana passada havia ainda muito trabalho a fazer no interior do edifício Bárbara Raquel Moreira

Está a ser difícil o renascimento do Olympia, que já foi cinema e bingo e vai reabrir como discoteca. A inauguração, que chegou a estar marcada para sábado passado, foi adiada, pela segunda vez, por mais uma semana. Na nova encarnação, o espaço chama-se Olympia Club e mantém a fachada histórica do edifício inaugurado em 1912 na Rua de Passos Manuel, no Porto.

Na tarde de sábado, quando pouco faltava para a hora marcada para a inauguração, a discoteca publicava um comunicado na sua página no Facebook: “Não fomos capazes de realizar as obras dentro do tempo previsto”. Uma explicação semelhante à que tinha sido dada para cancelar a inauguração a 23 de Novembro: “atraso nas obras”. À terceira será de vez?

A abertura do Olympia Club tem sido uma luta contra o tempo. Os novos inquilinos do Olympia, três sócios que pedem anonimato, desactivado há três anos (era, então, um bingo), investiram 500 mil euros e as obras começaram no início do Outono, a um ritmo acelerado. “Quase 24 horas sobre 24 horas”, dizia, na quinta-feira, Paulo Leonardo, responsável pela comunicação da discoteca.

A empreitada desperta a atenção de quem passa pelo histórico edifício, vizinho do Coliseu. São numerosas as “manifestações de apoio” de pessoas satisfeitas por “voltar a ter o Olympia em plena actividade”, contou Paulo Ferreira, relações públicas da discoteca.

 
“Cidade cinéfila”

A inauguração do então Olympia Kinema Teatro, a 18 de Maio de 1912, causou burburinho entre as gentes do Porto, que se impressionaram com os jogos de água luminosos, o luxo dos acabamentos e a fachada da sala de espectáculos, lançada por Henrique Alegria, um dos fundadores da Invicta Film.

O jornal O Primeiro de Janeiro escrevia, a 21 de Maio desse ano, que estava-se perante uma “elegante” casa de espectáculos, elogiando a “harmonia dos detalhes”. O diário destacava, entre outros sinais de modernidade, o número impressionante de lâmpadas eléctricas do edifício, assinado pelo arquitecto João Queirós, autor do projecto do Café Majestic.

O cinema, com 600 lugares, ficava a dois passos do Salão Jardim Passos Manuel, o antepassado do Coliseu, aberto em 1908. A Rua de Passos Manuel afirmava-se como uma zona de encontros e diversão, com vários cafés, botequins e salas de espectáculos. Foi no Olympia que se estreou, por exemplo, Amor de Perdição, de Georges Pallu, a 9 de Novembro de 1921, com uma pequena orquestra a tocar a partitura de Armando Leça. Na sua encarnação enquanto cinema, que durou até 1989, o Olympia recebeu também eventos musicais.

Hélder Pacheco, historiador especializado no Porto, lembra-se do Olympia nos anos 1960. “Havia muita concorrência” porque “o Porto era uma cidade cinéfila”. “Aquilo que distinguia mais o Olímpia e que tinha uma certa graça era que o público saía directamente para a Rua de Passos Manuel”, conta. A sala de cinema no rés-do-chão, onde será a pista de dança do Olympia Club, tinha várias portas laterais, que facilitavam a saída do público. “As pessoas mais idosas apreciavam.”

Foi também nos anos 1960 que Margarida Neves, da família Neves Real, ligada à gestão do Olympia na segunda metade do século XX, conheceu a sala. Nesta altura, apostava num “cinema mais popular”, com filmes de “cowboys”, “acção” e “pancadaria”.
 

“Devolver” o “requinte”

Hélder Pacheco ficou “muito satisfeito” com a reconversão do Olympia. Tem “uma arquitectura única na cidade”, justifica.

Transformar um edifício numa discoteca como este é “um programa excepcional para um arquitecto”, admite José Carlos Nunes de Oliveira, do gabinete NoArq. O arquitecto manteve apenas a fachada histórica até porque o interior que encontrou já estava desqualificado, sem estruturas de valor a preservar – como se de um “armazém” se tratasse. “A sala não tinha qualquer valor”, reforça. “O valor arquitectónico” está na fachada, que foi pintada.

Nunes de Oliveira inspirou-se no teatro. Destaca o “trabalho de cenografia de luz”, através, por exemplo, de “rasgos” na parede onde há luzes LED. Na zona do DJ, há uma “tela descontínua”, aos quadrados, para projecção de vídeo. Os cortinados remetem para as colunas da Antiguidade Clássica, inspiração de vários teatros. Quis “devolver” o “requinte” ao Olympia, algo que, garante, já não estava presente na sua encarnação enquanto bingo.

A palavra “requinte” aparece também com frequência no discurso de Paulo Ferreira. Destaca a zona VIP, o serviço de estacionamento e os sistemas de luz, som e imagem “de última geração”. No primeiro piso, há uma zona lounge. “Queremos captar o público mais exigente e satisfazer as suas exigências com requinte, comodidade e conforto”, explicou ao PÚBLICO.

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