WangShu constrói a China tijolo a tijolo

Foi uma surpresa para muitos, profissionais e público em geral, quando, em finais de Fevereiro, o arquitecto e professor chinês Wang Shu, do amateur architecture studio de Hangzhou, foi anunciado como o destinatário do Prémio Pritzker 2012. Este galardão, usualmente referido como o Prémio Nobel de Arquitetura, foi no passado concedido a arquitectos como Aldo Rossi (1990), Álvaro Siza Vieira (1992), Rem Koolhaas (2000) e Eduardo Souto de Moura (2011) e será hoje entregue a Wang Shu em Pequim, capital da República Popular da China.

O reconhecimento de Wang Shu veio afirmar o que era apenas do conhecimento de um pequeno grupo de arquitectos e de críticos de arquitectura: entre os poucos arquitectos chineses assumidamente na contramão dos projectos de escala massiva para ambientes urbanos descaracterizados e a perder de vista que constituem a linguagem arquitectónica predominante na China, Wang Shu é o único que durante a última década desenvolveu uma forma singular de pensar e de construir arquitectura no contexto chinês. E isso com um olho excepcional para o espaço, a materialidade, a gravidade, o detalhe, o enquadramento, a configuração, o fluxo e a estrutura..

É uma pena que o reconhecimento só tenha sido concedido a Wang Shu - o amateur architecture studio é liderado por ele e pela sua mulher, a arquitecta Lu Wenyu. Negar-lhe este reconhecimento é um erro lamentável; desde o anúncio, o arquitecto tem sido bastante crítico quanto a essa omissão, como ainda recentemente numa entrevista à estação de rádio americana NPR: "Sem mim, não haveria nenhum projecto. Sem ela, nenhum projecto se tornaria realidade."

Nascido em 1963, Wang Shu licenciou-se em 1998 no Instituto de Tecnologia de Nanjing e obteve o seu doutoramento em 2000, na Universidade Tongji de Xangai. Desde 2000, tem sido o director do Departamento de Arquitectura da Academia de Arte da China, em Hangzhou.

Em 1997, com Lu Wenyu, fundou o amateur architecture studio em Hangzhou - uma cidade com seis milhões de habitantes, 200 quilómetros a Sudoeste de Xangai. O nome do atelier personifica uma filosofia que incorpora um vasto leque de formas arquitectónicas e de princípios de construção vernacular, marcando a distância em relação aos chamados starchitects que vagueiam pelo globo em busca de oportunidades para fazer aterrar os seus edifícios emblemáticos. A dupla esclarece assim a filosofia do escritório: "Construída de modo espontâneo, ilegal e/ou temporário, a arquitectura amadora equipara-se à arquitectura profissional. Mas a arquitectura amadora não é significativa. Em contrapartida, um dos problemas da arquitectura profissional é valorizar demasiado o edifício."

Algures na China

Ao longo dos últimos anos, entrevistei e fui encontrando Wang Shu em diversas ocasiões. Às vezes sozinho, às vezes na presença de Lu Wenyu. Mas ela recusa-se a falar on the record, pelo menos em inglês: Wang Shu refere-se frequentemente à sua mulher como o seu "segredo". Formam um casal feliz, concentrado e enérgico, demonstrando equilíbrio e respeito mútuo. Ele gosta de fumar.

Nos últimos anos, ambos adquiriram um espantoso progresso no inglês, envergonhando o meu fraco e preguiçoso mandarim. Durante um jantar no último mês de Abril, pedi-lhes que desenvolvessem o significado do reconhecimento proporcionado pelo Pritzker à sua prática. No seu típico tom terra-a-terra, muitas vezes temperado com sentido de humor, um aparentemente constante combate filosófico e uma clareza abrupta, Wang Shu explica que o Pritzker lhe proporcionou "o reconhecimento público": "Quando recebemos a Medalha de Ouro da Academia Francesa de Arquitectura, em 2011, ou o Prémio de Arquitectura alemão Schelling, em 2010, não houve reacção do público chinês; mesmo os profissionais mal prestaram atenção." Razão pela qual o amateur architecture studio está longe de ser convencional, institucional ou governamental, antes uma prática arquitectónica difícil de entender, construindo experiências espaciais que pedem visitas sazonais, para uma verdadeira imersão. A arquitectura do estúdio é no mínimo atípica, em contraste com a cintilante e espalhafatosa arquitetura iconográfica da moda, e com qualquer dos neo-estilos adoptados por muitos arquitectos chineses em resposta aos desejos da nova elite. "A arquitectura do amateur architecture studio precisa de tempo", explica ele.

E tempo é justamente aquilo que a China não tem. As ambições arquitectónicas e urbanísticas aqui são desmedidas, a velocidade de construção enorme. Em 2009, o Instituto McKinsey previu que, se a tendência actual se mantiver, a população urbana da China irá expandir-se, passando dos 572 milhões registados em 2005 a 926 milhões em 2025; até ao ano 2030, terá atingido a marca dos mil milhões de habitantes. Em apenas 20 anos, as cidades da China terão acrescentado 350 milhões de pessoas: o que significa, aproximadamente, toda a população portuguesa a mudar-se a cada meio ano. Esta correria, somada ao apetite imobiliário voraz da classe média, resulta num ambiente urbano que é na melhor das hipóteses incaracterístico e com certeza problemático: enormes e repetitivos blocos de habitação, uma preferência confusa por arquitectura neoclássica de fachada, terras aráveis em irreversível diminuição, aldeias rurais perto da extinção, comunidades deslocadas, e, nos bairros financeiros em expansão que constituem o actual centro das cidades, shoppings desproporcionados e torres de escritórios pseudo-futuristas. No meio de tudo isto, uma impressionante nova rede de estradas, ferrovias, linhas de metro e aeroportos foi construída, ou está em vias de o ser.

Não será de estranhar que imensas cidades chinesas tenham perdido - devido à rápida e destrutiva força do chamado "desenvolvimento" - o seu caráter, a sua identidade, a sua memória colectiva. Os efeitos desta mudança, motivo de preocupação para muitos, não são novos. Em Junho de 2007, o jornal National People"s Daily publicou, em torno de uma declaração feita por Qiu Baoxing, o vice-ministro da construção, um artigo sobre o potencial de devastação do crescimento urbano. Qiu expressou claramente a sua preocupação relativamente a certos aspectos do desenvolvimento urbano chinês e do tratamento dos seus sítios históricos, apontando o dedo a acções "sem sentido" que "devastam locais históricos e relíquias culturais em nome da renovação" e lamentando o modo como esse modo de actuar estava a materializar-se numa "visão deficiente": "Muitas cidades têm um estilo de construção semelhante. É como se milhares de cidades tivessem a mesma aparência."

Passados cinco anos, nada parece ter mudado.

Tempo e mudança

O melhor exemplo da arquitectura feita no tempo e com o tempo do amateur architecture studio é aquele que é sem dúvida o seu tour-de-force até à data: o Campus Xiangshan da Academia de Arte da China, em Hangzhou, onde Wang Shu dirige o Departamento de Arquitectura e também lecciona, juntamente com a sua companheira. Fundada em 1928, a Academia de Arte da China é a mais reputada universidade chinesa na área artística. Enquanto a administração da Academia está sediada no Campus Nanshan, localizado na belo Lago Oeste de Hangzhou, o Campus Central Xiangshan é uma extensão da Academia, cerca de 15 quilómetros a Sudoeste, atrás de uma cadeia de montanhas. No local, o novo Campus aparece como um colar em torno da pitoresca Montanha Xiangshan. Foi em torno dela que o amateur architecture studio construiu, em duas fases, a peça mais intrigante da arquitectura chinesa em toda a década passada.

O Campus ocupa uma área de 53 hectares, metade da qual tomada por morros e bacias de água. Os edifícios da primeira fase elevam-se a partir de uma plataforma de pedra, reminiscente das construções que os agricultores locais usam para plantar chá nas montanhas. A segunda fase demorou 14 meses a ser construída, e foi concluída no início de 2008.

Nessa altura, ao visitar o Campus, Wang Shu levou-me para um passeio de três horas entre a fase I e a fase II, explicando ao longo do caminho que o projectou com a ideia de criar um novo tipo de cidade: "Perdemos a tradição de saber construir cidades, de saber construir uma arquitectura capaz de se misturar com a paisagem. O Campus é um novo modelo para as cidades chinesas, com áreas de alta densidade arquitectónica em que os edifícios estão a grande proximidade uns dos outros. A distância entre eles é a mais estreita possível, de acordo com as leis locais." Os diferentes volumes estão conectados através de pontes que elevam uma arquitectura feita de estúdios, salas de aula e bibliotecas acima do nível da paisagem - criando assim um diálogo constante entre a abertura da vista e a proximidade ao corpo edificado. Estas pontes transformam-se em corredores largos o suficiente para servirem como locais de ensino, abrem-se em plataformas e ligam salas e pátios ininterruptamente.

Perto da entrada do Campus, um edifício abraçado por uma grande escadaria na fachada - imagine-se uma cobra gigantesca enroscada numa pequena montanha. Para o arquitecto, este é o edifício-montanha: "Não significa que seja como uma montanha artificial, mas evoca semelhanças tanto com o pagode chinês como com a tradição da arquitectura budista nas áreas montanhosas - onde há cavernas e cada caverna tem um Buda dentro. Para mim, Buda é um professor, um lugar de ensino, no limiar entre a natureza e a cidade". Como a maioria das construções que o rodeiam, o edifício não tem uma entrada demarcada, mas múltiplas portas. É como quando se escala uma montanha: não há um caminho preferido.

Quatro anos mais tarde, voltei a lembrar-me do nosso primeiro encontro e comentei com ele o meu espanto ao ver que o Campus continua a mudar e a evoluir: o verde está a tomar conta dos edifícios, fundindo-os com a paisagem. Wang Shu explica: "Em 2007 falei com muitas pessoas e elas não conseguiam entender o que iria acontecer. O Campus parece-se mais com um jardim chinês tradicional: quando a obra se dá como acabada, ainda não esta no seu auge. É preciso aguardar, talvez mesmo dez anos, para que cresça. A minha arquitectura precisa de tempo para mudar. No começo é como um frango sem penas, ou como o vinho, ou o chá... precisa de tempo."

Digo-lhe que o tempo - no contexto do veloz crescimento urbano e económico da China contemporânea - é um luxo! Ele concorda e opina que por isso mesmo é mais significativo usar técnicas e materiais antigos. Mas o povo chinês em geral não gosta de antiguidades, e hoje em dia odeia o velho: "Só querem coisas novas; apenas os coleccionadores estão interessados nas coisas antigas. Velho na China significa coisa ruim; como um idoso sentado acolá. Não é tão suave, tão polido, tão resplandecente. As velharias estão associadas a escuridão, sujidade e rudeza. No entanto, gradualmente algumas pessoas começam a entender a necessidade de mudar esta atitude; há cinco anos, a situação era muito diferente."

Em 2006, na Bienal de Arquitetura de Veneza, o atelier de Wang Shu projectou um jardim de telhas, uma instalação feita de 66 mil telhas recicladas, recuperadas em demolições. Quase todos os edifícios no Campus dispõem de telhas semelhantes, utilizadas em coberturas, no revestimento de fachadas e em pavimentos, como que formando parte do todo da paisagem. "Todas as telhas são recicladas. Quero debater a reutilização do material. Estas telhas vêm da província de Zhejiang, onde na demolição das velhas cidades e casas são desprezadas como lixo. A arquitectura sustentável não é uma questão de usar dispendiosos materiais e alta-tecnologia, mas de saber fazer coisas simples. Essas telhas reflectem uma ligação com a tradição", diz.

Outra fachada do Campus constrói-se a partir de um padrão mais ou menos aleatório de tijolos de todo o tipo de tamanhos, cores e feitios. Wang Shu explica: "Na parte Leste desta província, perto do mar, as pessoas sofrem com muitos tufões, causando o colapso das suas casas. Como não têm muito tempo para reconstruir, recolocam aleatoriamente os tijolos. Acho esse método muito belo."

Como é encontram essas telhas e esses tijolos? São comprados localmente? Há algum depósito que os armazene e revenda? "Você não pode imaginar quantos edifícios antigos foram demolidos na década passada", diz ele, "uma quantidade incrível de telhas que ninguém sabe como usar. Nós queríamos utilizá-las, mas receávamos que ninguém o permitisse. Acontece que algumas pessoas ficam felizes se o fizer. Hoje em dia, pode ligar-se para alguém que lhe forneça dois ou três milhões de peças. Em 2006, para a Bienal, queríamos cerca de 50 mil telhas: Resolveu-se num dia!".

Obviamente, por trás de princípios como a reciclagem e a reutilização de materiais tradicionais, há que considerar também o aspecto económico. "Este material antigo e bonito é muito barato. Foi assim que convenci os nossos clientes. Geralmente os meus orçamentos são bastante baixos, por isso é interessante para eles. Na China, ainda hoje nos deparamos com uma situação peculiar: quando se constrói com máquinas sai caro, quando se constrói com mão-de-obra torna-se mais barato".

De volta à terra

Wang Shu nasceu em Urumqi, uma cidade na província mais ocidental da República Popular da China, Xinjiang. É o filho de um músico e carpinteiro amador e de uma professora e bibliotecária. Em miúdo, atravessou várias vezes os quatro mil quilómetros entre Urumqi e Pequim - quatro dias e quatro noites de comboio. Estas viagens deram-lhe a oportunidade de crescer enfrentando vastas paisagens em constante mudança.

Em 2008, foi com carinho que mencionou as suas memórias da vida num bairro antigo da capital chinesa: "Eu vivi num hutong [ilha] em Pequim durante quase três anos. Desenhei muito nas paredes do hutong. Em 1969 deixei Pequim, para voltar três anos mais tarde. Os meus desenhos ainda estavam na parede. Foi uma surpresa. Muitos idosos me disseram que guardaram a minha pintura porque era a pintura do Wang Shu - assim sendo não se poderia destruir o muro. Ainda está lá, na área de Jianguomen [a Leste do centro], perto de cerca de dez casas-pátio, um grupo muito restrito rodeado de grandes edifícios."

Lu Wenyu é também originária da província de Xinjiang. Pergunto-lhes se consideram Hangzhou a sua casa. Ele responde com um rápido e firme "não"; logo a seguir, reconsidera. "A minha terra-natal é em Xinjiang. Mas agora eu penso que talvez Hangzhou deva tornar-se a nossa cidade. Ambos nos sentimos como pessoas que fizeram uma longa viagem, passando por desertos e oceanos, a fim de assentar. Inicialmente, não pensávamos assim e a minha esposa queria voltar. Eu também adoro Xinjiang, tem uma paisagem inacreditável... Você sabia que eu cheguei a montar uma ovelha, das grandes? É fácil, leva-se pelos chifres e monta-se". Sorrimos todos enquanto ele repete a história, em mandarim, para o filho adolescente, que o observa surpreendido.

Hangzhou é a capital da província de Zheijiang, onde a maioria dos trabalhos do amateur architecture studio está situada: os apartamentos pátio-verticais (2002-07) e o Campus Xiangshan da Academia de Arte da China (Fase I: 2002-04; Fase II: 2004-07), em Hangzhou; o Museu de Arte Contemporânea de Ningbo (2001-05) e o Museu de História de Ningbo (2003-08), assim como a Casa Cerâmica em Jinhua (2003-06), projecto incluído no Parque de Arquitectura projectado por Ai Weiwei, em colaboração com vários arquitectos.

"Há quem diga que esta é a província mais rica da China, mas nas últimas centenas de anos os habitantes construíram muitos edifícios em terra. Com uma população tremenda e poucos recursos, eles sabiam usar materiais naturais e locais. Mesmo os mais enriquecidos, com recursos suficientes para construir prédios de luxo, acabaram por construir de forma simples. Isto significa que a tradição e o sistema de valores é muito forte. Tenho interesse nisto; é o caminho certo". A província de Zhejiang, com uma população de 50 milhões, é 70% montanha, 20% água e apenas 10% terra habitável.

No final de 2011, o seu Departamento de Arquitectura criou um laboratório dedicado a pesquisar novas formas de construir em terra batida, com a ambição de vir a influenciar e rejuvenescer a cultura de construção local. "Com a vida das pessoas sujeita a mudança tremendas, devemos trazer de volta as competências tradicionais. Isto não exclui técnicas modernas de construção. Os chineses são muito espertos, podem pensar em tudo; mas não o fazem, só falam. O meu caminho é simples: eu penso e faço. As pessoas dizem que o laboratório de terra batida da nossa escola é o primeiro na China. A sério?! Eu não sabia disso, apenas o fiz", exemplifica.

Da China e para a China

Ganhar o Prémio Pritzker pode ter sido uma surpresa para muitos, pois até recentemente Wang Shu era bastante desconhecido, e não necessariamente aclamado, na China. Isso está a mudar, diz ele com uma pitada de ironia: "No passado, muitas pessoas criticaram o projeto do Campus e agora muitas dizem que o adoram. Ora, isso é uma grande mudança." Pergunto-lhe como é que este reconhecimento súbito tem afectado o seu trabalho no mês passado. "Na verdade, após o anúncio do Prémio Pritzker mal posso trabalhar - há demasiadas entrevistas, TV, jornais ou revistas que vêm na minha direção. Assim sendo, a única coisa que posso fazer neste momento é terminar o meu trabalho antigo. Não posso aceitar quaisquer novas encomendas, pois eu tenho um pequeno escritório e também ensino na escola".

Wang Shu e Lu Wenyu querem deliberadamente manter o seu estúdio pequeno e limitado a cerca de dez pessoas; uma das razões primordiais relaciona-se com a capacidade de controlar a qualidade do trabalho, outra com a sua forma peculiar de projetar. Questiono então se consideram ampliar o atelier, crescer, expandir e incorporar mais arquitectos. Mas Wang Shu está convencido de que tal não acontecerá tão cedo: "Não é assim tão fácil, pois o meu modo de trabalhar está mais próximo do artesanato. Isto significa que os meus assistentes estão comigo há muito tempo, e entendem este método, mas alguns estudantes e jovens arquitectos não saberão fazê-lo. Levo anos a treinar a minha equipa."

Foi em 2008, na ocasião da minha primeira visita, que Wang Shu me elucidou sobre a sua maneira de trabalhar - uma combinação de escrita, pintura, caligrafia e desenho: "Eu projecto de um modo muito semelhante ao do pintor chinês tradicional. Não esboço muito, mas estudo as cidades, os vales e as montanhas. Então paro. Durante cerca de uma semana penso e não desenho. No caso do Museu de História de Ningbo, houve uma noite em que eu não conseguia dormir e de repente a ideia surgiu."

"Para mim, cada projecto é um tanto de pensamento poético e de matemática. Sentei-me na cama, desenhei mentalmente enquanto calculava o tamanho do edifício. Quando terminei, peguei num pedaço de papel e num lápis. Desenhei tudo directamente: métrica, estrutura, volume, espaço, escadas, onde posicionar a entrada, funções diversas e assim por diante. E então bebi chá."

A este processo segue-se o período em que os vãos de janelas e das portas são desenhados; só então os desenhos são entregues aos seus assistentes, para efeitos de digitalização.

Também isto é uma arquitectura projectada no tempo e com o tempo - uma arquitectura que induz outro tipo de ambiente no atelier, como Wang Shu explicou em 2008: "Este mês tenho de criar três museus, por isso o meu estúdio pára de funcionar por um mês. O meu staff vai para casa, para que eu possa trabalhar sozinho. Envio alguns colaboradores para o campo, para fazerem investigação, ou dou a todos uma listagem com livros sobre a pintura tradicional chinesa, filósofos franceses, filmes ou qualquer assunto que possa ser útil. Este é o seu trabalho de casa. Quando regressam, temos uma discussão e, voltamos novamente ao trabalho."

Num artigo para a revista MARK, publicado em 2009, chamei a Wang Shu um herói local, com base na sua reação humilde à minha pergunta sobre se ambicionava, como alguns dos seus compatriotas mais jovens, tornar-se reconhecido internacionalmente? "Eu sou apenas um arquitecto local," respondeu, "Não sou inteligente o suficiente para ser tão fashionable como eles." Insatisfeito com a sua resposta, reformulei a questão, ao que ele me deu a entender que a sua arquitectura ilustra mais veementemente a realidade da China do que alguns dos edifícios dos seus colegas. Foi um desses momentos em que o seu carácter e a sua visão sobre o futuro da construção na China se uniram: "Um bom arquitecto deve ter uma experiência completa da sociedade de onde vem. Entre 1990 e 2000 eu não tinha encomendas, nem queria uma posição no Governo ou na academia. Apenas desejava trabalhar com artesãos, ganhar experiência no terreno e não assumir qualquer responsabilidade pelo projecto - apenas pela sua construção." "Nessa altura", continuou, "trabalhei nos níveis mais baixos da sociedade. Laborei diariamente nos estaleiros das obras, das 8h da manhã até à meia-noite. Enquanto trabalhava e comia com operários e artesãos, comecei a questionar-me sobre o que terá acontecido com a nossa tradição. Aos poucos, fui ganhando confiança, enquanto aprendia tudo sobre os métodos de construção locais. A continuidade é muito importante, na minha opinião. Tradição é continuidade. Durante esses anos eu comecei a estudar a história da arte europeia, indiana, africana e americana, bem como filosofia, cinema e arte contemporânea - uma prática que mantemos até hoje. Acredito em começar com uma visão ampla, condensando-a para se ajustar à situação local."

O caminho de Wang Shu

A prática do amateur architecture studio está a alcançar muito rapidamente o reconhecimento internacional, elevando Wang Shu e a sua parceira Lu Wenyu a lugares bem mais altos do que o de meros heróis locais. Nos últimos anos, o trabalho do atelier levou-os muitas vezes à Europa para participarem em palestras, exposições ou workshops. Surpreendentemente, ainda não visitaram Portugal, apesar de Álvaro Siza Vieira estar actualmente a trabalhar num pequeno projecto no Campus Xiangshan em Hangzhou...

Para concluir o nosso jantar de Abril, indago o que é que vê, o que é que procura quando visita a Europa. Dispara a falar do seu amor por viagens, do desejo de saber sobre as diferenças entre os países, e do seu interesse em compreender melhor o equilíbrio entre tradição e modernidade na Europa. "Mas à noite pode ser muito aborrecido. Na China, imensas coisas acontecem, mesmo de noite. Em 2006, quando estive em Veneza um mês, observei que as pessoas moram em belíssimas construções antigas; mas à noite limitam-se a ver televisão. Hoje em dia, pelo que me dizem, há mudanças a acontecer na Europa que não assim tão boas. As pessoas não gostam de ler livros ou de ir ao teatro; só querem ver televisão e ir à praia", diz com alguma resignação.

"Coordenei uns workshops com estudantes e acredite que os alunos me pediram, por favor, para não falar sobre tradição: não sabemos nada sobre isso, disseram, só percebemos de tecnologia", acrescenta o arquitecto.

O estúdio de Wang Shu opera de um modo peculiar, que permite a criação de obras de arquitectura excepcionais, mas exige enormes consumos de tempo e de energia. Quando, em Fevereiro, soube ser o laureado do Prémio Pritzker, a reacção imediata do professor Wang Shu, durante uma palestra em Los Angeles, foi que o prémio era bastante inesperado: "Queria tirar dois anos de sabática, não só, mas também, porque o meu filho tem dez anos. Mas depois ganhei o Pritzker. E agora creio que não poderei parar."

Esta necessidade de fazer uma pausa, de parar momentaneamente, já se prenunciava há um par de anos: "Tenho vários projectos a decorrer simultaneamente, é um bom sentimento, mas também pode ser muito cansativo. O meu sonho é abrandar, ter um ano de descanso, e continuar depois disso."

É uma pausa que não se avista no horizonte. Recordo-o da nossa conversa anterior e pergunto se este reconhecimento internacional alterou de algum modo o seu modus operandi: "Actualmente imensa gente me pergunta se minha vida vai mudar", diz pausadamente, "e de uma coisa estou certo, não há razão para mudar - não há necessidade. Irei manter o meu caminho."

Tradução de Mónica Carriço

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