Tarantino e a ternura dos (anos) 70

Quentin Tarantino e as suas actrizes de À Prova de Morte YVES HERMAN/REUTERS

Toda a sua obra de estudante marrão inspirado pela descoberta de um corpo criativo displicentemente esquecido, ultrapassa o revivalismo para se tornar numa reinvenção. Por Jorge Mourinha

Cães Danados (1991) já o sugeria, mas foi o filme seguinte que resumiu em duas palavras o universo cinéfilo de Quentin Tarantino: Pulp Fiction (1994). A meio caminho entre os prazeres suspeitos dos livros de bolso baratos e filmes de série B e Z despachados para salas de bairro e video-clubes farsolas, e a reavaliação pós-moderna da produção em série como objecto artístico popular, ao longo da sua carreira fulgurante Tarantino tem devolvido as cartas de nobreza a uma cultura pop desconsiderada como "menor". No processo, tornou-se no papa de uma reinvenção do cinema popular e de género, descobrindo pérolas escondidas e prazeres insuspeitos em acervos até então ignorados pelos académicos, da blaxploitation negra dos anos 1970 ao cinema policial ou de kung fu de Hong Kong a que alguma crítica europeia começava a prestar atenção, passando pelos western e filmes de guerra-spaghetti produzidos em série em Itália. Toda a sua obra de estudante marrão inspirado pela descoberta de um corpo criativo displicentemente esquecido, erudito do trash capaz de peneirar o ouro da pedra, ultrapassa o simples revivalismo para se tornar numa verdadeira reinvenção.

A ideia não é recuperar a ingenuidade de muito desse cinema - impossível nos nossos dias em que o pós-modernismo já está instalado como modo de defeito - mas sim recriar a energia, o entusiasmo, o prazer de um cinema popular usado como inspiração a seguir e não como modelo imutável. Tarantino tornou-se no grão-mestre desse reaproveitamento, e atrás dele vieram afilhados ou contemporâneos (como Robert Rodriguez ou Eli Roth), partilhando uma sensibilidade que procura no passado, e sobretudo nos anos 1970 em que o sistema de Hollywood enfrentou a visão da sua desintegração, modos de fazer cinema de e para hoje. É uma sensibilidade que se prolonga igualmente para toda uma outra geração sua contemporânea de cineastas.

Só que onde Tarantino & amigos olham para o cinema-B e de exploitation dos anos 1970, realizadores como Sofia Coppola, Wes Anderson, Noah Baumbach, os irmãos Safdie, Kelly Reichardt, Jeff Nichols ou António Campos idolizam uma outra série de realizadores que atingiram os seus picos criativos nas décadas de 1960 e 1970. Aqui, em vez do cinema popular de género, procura-se recuperar a sensação de liberdade criativa, temática e formal que alimentou a "nova Hollywood", do lado de cineastas iconoclastas como Arthur Penn, Robert Altman, Bob Rafelson, Hal Ashby, Monte Hellman ou John Cassavetes. Nos seus filmes, fala-se de hoje de um modo que deve muito à que foi a última geração verdadeiramente influente e independente do cinema americano, muito visível no modo como Depois das Aulas (2008) de Campos se inspira em Stanley Kubrick ou Vão-me Buscar Alecrim (2009) dos irmãos Safdie evoca Cassavetes sem se limitarem a ser pálidos derivativos dos originais.

E se fosse preciso escolher filmes exemplares destas duas maneiras de olhar para o passado para o transmutar em cinema de hoje? Apesar de Jackie Brown, de À Prova de Morte, de Sacanas sem Lei, a essência de Tarantino está no díptico Kill Bill - A Vingança (2003-2004), extraordinário compacto condensado do cinema popular xunga reinventado em filme de acção estilizado dobrado de manual de girl power sem papas na língua. E Noah Baumbach explicou com Greenberg (2009), desencantada odisseia por Los Angeles de um homem a procurar reconquistar o seu presente filmada com os reflexos de Michael Chapman e a despreocupação de Ashby (mesmo que citando mais abertamente Altman), aquilo a que toda a sua geração de cineastas tem almejado desde sempre: voltar atrás para melhor falar de hoje.

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