Podemos chamar psicopata auma criança de nove anos?

Fazem birras com uma intensidade que ultrapassa o razoável. Mas também sabem esperar pelo momento certo para retaliar. E parecem imunes às emoções que provocam nos outros. Chamam-lhes crianças duras-indiferentes e podem tornar-se adultos violentos

No Verão passado, Anne e o marido, Miguel, acompanharam o filho Michael, de nove anos, a uma escola primária na Florida. Seria o primeiro dia daquilo que a família optou por chamar "campo de Verão". Durante anos, Anne e Miguel esforçaram-se por entender o seu filho mais velho, um miúdo bonito com as maçãs do rosto salientes, olhos rasgados e cabelo louro ondulado. Michael combinava períodos de raiva com momentos de gélido alheamento. O programa de oito semanas era, na verdade, um estudo psicológico altamente aprofundado - mais campo de último recurso do que campo de férias.

Segundo a mãe, os problemas de Michael começaram por volta dos seus três anos, logo a seguir ao nascimento do irmão Allan. Na altura, o comportamento de Michael resumia-se a "ser uma pestinha", mas rapidamente escalou para ataques de raiva durante os quais berrava de uma forma inconsolável. Não se tratava das birras normais de qualquer criança. "Não era "estou cansado" ou "estou frustrado" - coisas que normalmente as crianças fazem", lembra Anne. "O seu comportamento ultrapassava tudo isso. E eram horas e horas por dia, independentemente do que pudéssemos fazer." Durante muitos anos, Michael desatava a gritar sempre que os pais lhe pediam para se calçar ou mesmo quando lhe atribuíam outras tarefas normais e simples, como arrumar os brinquedos que ficaram na sala. "Ir a algum lado, ficar num sítio, o que fosse... qualquer coisa lhe despertava os ataques", diz Miguel.

Estes ataques prolongaram-se muito para além da primeira infância. Aos oito anos ainda Michael reagia com raiva sempre que Anne ou Miguel o tentavam despachar para ir para a escola, dando murros na parede ou pontapés na porta. Se ficava sozinho, pegava numa tesoura e cortava as calças ou arrancava o cabelo de uma forma metódica. Outra das formas que encontrava para descarregar a raiva era bater com o tampo da sanita repetidamente até o partir.

Quando Anne e Miguel levaram Michael pela primeira vez a um psicólogo, o diagnóstico foi "síndrome do primogénito": reacção ao nascimento do irmão. Apesar de os pais se aperceberem de que Michael era hostil ao novo bebé, a rivalidade para com ele não parecia razão suficiente que justificasse o seu comportamento extremado.

Aos cinco anos, Michael já tinha desenvolvido uma estranha habilidade para mudar de comportamento, alternando entre momentos de raiva intensa e outros de racionalidade pura ou de um charme estrategicamente calculado - algo que Anne descreve como profundamente inquietante. "Nunca sabemos quando vamos ter uma emoção apropriada", assume. E recorda-se de uma discussão sobre um trabalho de casa em que Michael guinchou e chorou enquanto ela o tentava trazer à razão. "Dizia-lhe: "Michael, lembras-te do brainstorming que tivemos ontem? A única coisa que tens de fazer é aproveitar essas ideias e transformá-las em frases, e pronto, já está!" Como ele continuava a gritar horrivelmente, disse-lhe ainda: "Michael, pensei que a nossa conversa de ontem iria evitar todo este drama hoje." De repente, ele estancou a gritaria, virou-se para mim e disse, numa voz baixa e adulta: "Bem, então não pensaste muito bem nisso, pois não?""

Anne e Miguel vivem numa pequena cidade do litoral a sul de Miami, o tipo de sítio onde as crianças andam de bicicleta em becos bem arranjados. (Para proteger a identidade das pessoas citadas, apenas foram usados os nomes próprios ou apelidos maternos.) Na manhã em que os conheci estava calor. Sentada num sofá na espaçosa sala de jantar, Anne abriu uma Coca-cola Zero enquanto os seus dois filhos mais novos, Allan, de seis anos, e Jake, de dois, brincavam no tapete. Até agora, diz, nenhum dos rapazes aparenta ter os mesmos problemas de Michael.

"Temos as prateleiras cheias daqueles livros tipo A Criança Desafiadora, A Criança Explosiva", diz-me ela. "Todos eles mostram estratégias diferentes, e tentámos todas, e às vezes parecem resultar durante uns dias, mas depois volta tudo ao ponto de partida."

Antiga professora do ensino básico, com uma licenciatura em Psicologia Infantil, Anne admite sentir-se frustrada. "Sentimos que andámos a desperdiçar o nosso tempo", diz ela. "Somos nós? É ele? Somos todos? Com todos estes médicos e toda esta tecnologia, ninguém nos consegue dizer: "Este é o problema e é isto que vocês têm de fazer"."

Aos 37 anos, Anne é uma pessoa instável mas franca. Recentemente começou a gerir uma carrinha de comida e no dia que nos conhecemos parecia uma típica empresária da Florida: um aparelho Bluetooth e iPhone nas mãos, calções de ganga e um top verde fluorescente com o nome do negócio escrito. Miguel é mais reservado. Antigo piloto, trabalha agora como agente imobiliário, e é frequentemente o mediador da família, negociando momentos tensos com a calma de um homem que já fez aterrar aviões no meio de tempestades.

"A princípio pensei que éramos nós", diz Miguel enquanto os dois filhos mais novos brincam ruidosamente com um carro. "Mas o Michael desafia a lógica. Fazemos as coisas seguindo as regras e ainda assim ele excede-se. Ficámos tão cansados de lutar com ele em público que acabámos por cortar com a nossa vida social."

Nos últimos seis anos, os pais de Michael levaram-no a oito terapeutas diferentes e receberam um elevado número de diagnósticos. "Houve tanta gente a dizer-nos tantas coisas diferentes", diz Anne. "Ah, é PHDA [perturbação de hiperactividade e défice de atenção], ou ah, não é não. É depressão, não é depressão. Podemos abrir o manual de diagnóstico de doenças mentais e apontar uma coisa ao calhas e haverá hipóteses de ele ter sintomas disso. Tem características de POC [perturbação obsessiva-compulsiva]. Tem traços de disfunção de integração sensorial. Ninguém sabe qual é a característica predominante para o tratar. Essa é a parte frustrante."

Até que, na Primavera passada, o psicólogo que tratava Michael falou aos pais em Dan Waschbusch, um investigador da Universidade Internacional da Florida. Depois de uma batelada de avaliações, foi apresentado a Anne e Miguel outro diagnóstico possível: o seu filho poderia ser psicopata.

Waschbusch tem estudado nos últimos dez anos as crianças duras-indiferentes - que manifestam uma distinta falta de afecto, remorso ou empatia - e que correm o risco de se tornar psicopatas em adultos. Para avaliar Michael, Waschbusch usou uma combinação de exames psicológicos e escalas de professores e familiares, incluindo o Inventário dos Traços de Insensibilidade, a Escala de Psicopatia Infantil e uma versão modificada do Dispositivo de Medição do Processo Anti-social - tudo ferramentas para medir os comportamentos frios, predatórios, mais associados à psicopatia adulta (os termos "sociopata" e "psicopata" são fundamentalmente idênticos).

Um investigador assistente entrevistou os pais e os professores de Michael sobre o seu comportamento em casa e na escola. Quando todos os exames e resultados foram reunidos, Michael manifestava níveis de insensibilidade que o colocavam no extremo do espectro.

Actualmente, não existe um teste-padrão para avaliar a psicopatia em crianças, mas um número cada vez maior de psicólogos acredita que a psicopatia, como o autismo, é um problema neurológico distinto, que pode ser identificado em crianças logo aos cinco anos. Os traços de indiferença são cruciais para esta avaliação que, segundo a maioria dos investigadores, distingue os "psicopatas em potência" de crianças com vulgares problemas de comportamento e que também são impulsivas e difíceis de controlar, com reacções hostis ou violentas.

De acordo com alguns estudos, quase um terço das crianças com graves problemas comportamentais - com a mesma desobediência agressiva de Michael - também têm traços de dureza-indiferença acima do normal. Narcisismo e impulsividade, que fazem parte dos critérios de diagnóstico em adultos, são difíceis de aplicar em crianças, que são narcísicas e impulsivas por natureza.

Em algumas crianças, os traços de dureza-indiferença manifestam-se de forma óbvia. Paul Frick, um psicólogo da Universidade de Nova Orleães que estudou os factores de risco na psicopatia infantil durante duas décadas, descreve como um rapaz usou uma faca para cortar o rabo do gato da família pedaço a pedaço, durante semanas. O rapaz estava orgulhoso das amputações em série, que os seus pais começaram por não detectar. "Quando falámos disso, ele foi muito directo", recorda Frick. "Disse: "Quero ser cientista e estava a fazer uma experiência. Queria ver como o gato reagiria"."

Noutro caso famoso, um rapaz de nove anos chamado Jeffrey Bailey empurrou um bebé de um ano para o extremo de uma piscina de um motel na Florida. Enquanto o menino lutava e se afogava, Bailey puxou de uma cadeira para ficar a assistir. Quando depois foi interrogado pela polícia, afirmou que tinha curiosidade em ver alguém a afogar-se. E quando foi detido, parecia impávido perante a ideia de ficar preso e estava até contente por ser o centro das atenções.

Em muitas crianças, no entanto, os sinais são mais subtis. As crianças duras-indiferentes tendem a ser altamente manipuladoras, nota Frick. Também mentem frequentemente - não apenas para evitar os castigos, como fazem todas as crianças, mas por uma razão qualquer, ou nenhuma. "A maioria dos miúdos, se forem apanhados a roubar uma bolacha da caixa antes do jantar, farão um olhar culpado", diz Frick. "Querem a bolacha, mas também se sentem mal. Até mesmo crianças com grave défice de atenção e hiperactividade podem ter pouco controlo sobre os seus impulsos, mas mesmo assim sentem-se mal quando percebem que a mãe está zangada." Mas não as crianças duras-indiferentes. "Não querem saber se alguém está zangado com elas", diz Frick. "Não querem saber se estão a magoar alguém." Tal como os psicopatas adultos, parece faltar-lhes humanidade. "Se conseguem o que querem sem serem cruéis, é mais fácil", observa. "Mas acabarão sempre por fazer o que funcionar melhor para terem o que pretendem."

A ideia de crianças pequenas poderem ter tendências psicopatas continua a ser controversa entre psicólogos. Laurence Steinberg, um psicólogo da Universidade Temple, tem argumentado que a psicopatia, tal como outras doenças de personalidade, é quase impossível de diagnosticar com exactidão em crianças, ou até mesmo em adolescentes - não só por os seus cérebros estarem ainda a desenvolver-se mas porque o comportamento normal nessas idades pode ser mal interpretado como psicopatia.

Outros temem que este diagnóstico possa ser feito acertadamente, mas o custo social de rotular uma criança de psicopata é simplesmente demasiado elevado (a doença tem sido historicamente considerada intratável).

John Edens, psicólogo clínico da Universidade A&M do Texas, tem recomendado que não se gaste dinheiro a investigar as formas de identificar as crianças com risco de psicopatia. "Isto não é como o autismo, em que pais e filhos receberão apoio", observa Edens. "Mesmo que seja correcto, é um diagnóstico desastroso. Ninguém é compreensivo com a mãe de um psicopata."

Mark Dadds, psicólogo da Universidade de New South Wales que estuda o comportamento anti-social nas crianças, reconhece que "ninguém se sente bem em rotular uma criança de cinco anos de psicopata". Mas, diz, ignorar essas características pode ser pior. "A investigação que mostra que esta personalidade existe e pode ser identificada em crianças pequenas é bastante sólida." Estudos recentes revelam o que parecem ser diferenças anatómicas significativas nos cérebros de uma criança adolescente com elevada pontuação na versão para jovens da Lista de Psicopatia - um indício de que esta característica pode ser inata. Outro estudo, que acompanhou o desenvolvimento psicológico de três mil crianças durante 25 anos, concluiu que os sinais de psicopatia podiam ser detectados já em crianças com três anos. Um pequeno, mas crescente número de psicólogos, entre os quais Dadds e Waschbusch, defende que enfrentar o problema precocemente pode ajudar estas crianças a mudar de rumo.

Os investigadores esperam, por exemplo, que a capacidade de sentir empatia, que é controlada por partes específicas do cérebro, possa existir ainda que tenuemente em crianças duras-indiferentes e que pode ser fortalecida.

Os benefícios de um tratamento bem sucedido podem ser gigantescos. Estima-se que os psicopatas formem 1% da população, mas constituem entre 15 e 25% da população prisional e são responsáveis por um número desproporcionado de crimes violentos e assassínios. Uma estimativa recente do neurocientista Kent Kiehl avaliava o custo nos EUA da psicopatia em 460 mil milhões de dólares (mais de 365 mil milhões de euros) por ano - cerca de dez vezes o da depressão - em parte porque os psicopatas tendem a ser detidos repetidamente. Os custos sociais dos psicopatas não violentos podem ser ainda mais altos. Robert Hare, co-autor de Snakes in Suits, descreve manifestações de psicopatia entre alguns empresários e financeiros; suspeita que Bernie Madoff [responsável por uma das maiores fraudes financeiras de sempre] encaixe nessa categoria.

O potencial de evolução é também o que separa o diagnóstico do determinismo: a razão para tratarmos as crianças psicopatas em vez de as prendermos. "Como costumavam dizer as freiras: "Se vierem novos, podem mudar"", observa Dadds. "Temos de ter esperança de que isso seja verdade. Caso contrário, com o que ficamos? Com estes monstros."

Quando conheci Michael pela primeira vez, pareceu-me tímido mas extremamente bem comportado. Enquanto o seu irmão Allan corria pela casa com um saco de plástico a fazer de pára-quedas, o Michael entrou na sala discretamente, depois enterrou-se no sofá, escondendo a cara nas almofadas. "Podes vir aqui dizer olá?", perguntou-lhe Anne. Ele olhou para mim, depois levantou-se alegremente. "Claro!", disse, correndo a abraçá-la. Repreendido por jogar à bola na cozinha, revirou os olhos como qualquer miúdo de nove anos, e foi docilmente lá para fora. Poucos minutos depois estava de volta, aos saltos à volta de Jake, que andava de um lado para o outro na sua mota. Quando a mota se virou, Michael correu teatralmente para o irmão: "Jake, estás bem?", perguntou-lhe. Afagou vigorosamente o cabelo do irmão e olhou-me com um sorriso vitorioso.

Esta manifestação de afecto fraternal pode ter parecido forçada, mas não indica que se trata de um rapaz profundamente perturbado. Mas, gradualmente, o comportamento do Michael começa a transformar-se. Quando estava a subir as escadas para um jogo de Pokémon no computador no andar de cima, Michael virou-se para mim e declarou rispidamente: "Como podes ver, não gosto muito do Allan." Perguntei-lhe se isso era mesmo verdade. "Sim, é verdade", e depois acrescentou sem ênfase: "Odeio-o."

Ao vir para baixo um segundo depois, reparou no meu gravador digital pousado na mesa. "Gravaste?" Eu disse que sim. Olhou fixamente para mim durante uns breves instantes e voltou para o seu vídeo. Quando um ruído súbito vindo da outra sala me fez desviar o olhar, Michael aproveitou para agarrar o gravador e pressionar no botão para apagar. (Waschbusch notou mais tarde que uma resposta assim calculada era invulgar numa criança de nove anos, que normalmente iria dirigir-se logo para o gravador ou começaria a queixar-se ou a amuar.)

Era tentador escrutinar em Anne e Miguel sinais de uma dinâmica disfuncional que pudesse ser a fonte do estranho comportamento do Michael. Mas a família parecia extremamente normal.

Quando vi a Anne dar ordens aos dois filhos mais novos naquela tarde achei-a um pouco ríspida. Quando o Allan começou a correr pela sala e a atirar-se para o sofá, falou com vigor: "Allan, pára com isso!" (E ele parou). Quando o Jake e o Allan começaram uma bulha por causa de um brinquedo, arbitrou a disputa num tom de exasperação paciente, familiar à maioria dos pais. "Deixa-o brincar com isso durante cinco minutos, Allan, e depois brincas tu." Tornou-se reactiva quando se abordaram estratégias parentais - Anne defende regras estruturadas e rígidas, Miguel é mais brando -, enquanto Miguel ouvia tranquilamente para depois reconhecer que a sua abordagem mais relaxada poderia parecer "optimista".

E parece. À medida que a noite avançava, o comportamento do Michael tornava-se mais violento. A certa altura, quando o Michael estava no andar de baixo, o Jake saltou desajeitadamente para a cadeira do computador e acidentalmente tirou a pausa do jogo de Pokémon do Michael.

O Allan deu umas risadinhas e até Miguel sorriu afectuosamente. Mas o divertimento foi breve. Ao ouvir o Michael a aproximar-se, Miguel soltou um "ai ai", e tirou o Jake da cadeira. Não foi suficientemente rápido. Ao olhar para o vídeo em andamento, Michael deu um berro agudo e olhou em volta da sala à procura de um culpado. O seu olhar fixou-se no Allan. Agarrando numa cadeira de madeira, elevou-a acima da cabeça a ameaçar violência, mas parou durante vários segundos, dando a Miguel a hipótese de a agarrar. Correu para a casa-de-banho e começou a bater com a tampa da sanita para cima e para baixo várias vezes. Depois de ser empurrado para fora e o mandarem para a cama, reclamou. "Pai! Pai! Porque é que me estás a fazer isto?", implorava enquanto o pai o levava para o quarto. "Não pai, tenho uma relação melhor contigo do que com a mãe!" Michael continuou a berrar durante a hora seguinte, enquanto Miguel tentava acalmá-lo. No hall à porta do seu quarto, Miguel desculpou-se, afirmando que era uma noite "anormalmente má".

"O que viu foi o Michael antigo", continuou. "Ele era assim durante o dia inteiro. Dava pontapés e batia." Mas notou também que o Allan provocou o Michael, e insultou-o por ele chorar. "Adora chateá-lo quando pode." Michael continuava a gritar do quarto: "Ele sabe quais são as consequências, por isso não sei porque é que o faz. Vou magoá-lo."

Miguel: "Não, não vais."

Michael: "Vou atrás de ti, Allan."

Uma hora depois, quando os rapazes estavam já finalmente a dormir, Miguel e eu sentámo-nos à mesa da cozinha. Disse que foi também uma criança difícil, embora não tão problemática como o Michael. "Muitos pais não me queriam ao pé dos seus filhos porque achavam que eu era maluco", disse fechando os olhos. "Eu não ouvia os adultos. Estava sempre em sarilhos. As minhas notas eram péssimas. Andava pela rua e ouvia-os dizer em espanhol: "Ay! Viene el loco!" Ei, vem aí o louco."

Este comportamento anti-social durou até ao final da sua adolescência, até que "cresceu". Quando lhe perguntei o que causou a mudança, parecia ter dúvidas. "Aprendemos a pacificar as nossas águas agitadas", disse por fim. "Simplesmente acontece. Aprendemos a controlar-nos por dentro."

Anne tem dúvidas de que a trajectória do Miguel possa indicar alguma esperança para o Michael. Recordando o abraço que o Michael lhe deu nessa noite, abanou a cabeça. "Dois abraços em dez minutos?", disse. "Não tive dois abraços em duas semanas!" Afirmou que suspeitava de que o Michael estava a tentar manipular-me e que andava a usar truques parecidos para manipular os seus terapeutas, levando-os a acreditar que estava a fazer progressos comportando-se bem durante a hora que durava o tratamento. "O Miguel gosta de pensar que o Michael está a crescer e a ficar mais maduro", afirmou ela. "Odeio dizê-lo, mas isto é ele a desenvolver melhor as suas capacidades de manipulação." Fez uma pausa. "Ele sabe como obter aquilo que quer."

Uma manhã encontrei-me com Waschbusch no local do seu programa de terapia de Verão, uma pequena escola primária enfiada no canto noroeste do campus da Universidade da Florida. Antes de se interessar pela psicopatia, Waschbusch especializou-se na síndrome de défice de atenção e hiperactividade, e nos últimos oito anos ajudou a gerir um campo de férias com um programa para miúdos com níveis graves dessa síndrome. O ano passado foi o primeiro em que incluiu um programa separado para uma dúzia de crianças duras-indiferentes, entre os oito e os 11 anos. Michael foi logo incluído.

O estudo de Waschbusch é dos primeiros a olhar para tratamentos de crianças duras-indiferentes. Sabe-se que os psicopatas adultos respondem mais à recompensa do que ao castigo; Waschbusch queria testar se acontecia o mesmo com as crianças. Mas o processo foi um desafio. Onde os miúdos com défice de atenção e hiperactividade se mostravam difíceis de controlar, os duros-indiferentes demonstravam uma capacidade de agressão - gritavam, batiam nas mesas, corriam pela sala - que Waschbusch classificava como "fora de escala".

"Tínhamos miúdos que tentavam pular a cerca e saltar para o campo do lado durante a aula de educação física, miúdos que tinham de ser fisicamente controlados muitas vezes ao dia", disse Waschbusch enquanto fazíamos a visita ao recreio da escola. "Deixou-nos realmente arrasados."

Com cabelo curto e grisalho e uma atitude séria, Waschbusch às vezes é surpreendentemente alegre - apesar de também vigilante. Ao encaminhar-me para a principal entrada da escola, inspeccionava cada sala de aulas por que passávamos, como que a confirmar que nenhuma criança iria irromper de lá. O estudo tinha um rácio de um monitor para cada duas crianças. Mas os miúdos, diz Waschbusch, perceberam rapidamente que era possível subverter a ordem com episódios de mau comportamento geral. Uma criança gritava as palavras de código em momentos combinados: o sinal de que todos os miúdos deveriam fugir ao mesmo tempo.

"Aquilo que mais me espantou era a capacidade de manipulação que estes miúdos mostravam", conta, abanando a cabeça em sinal de surpresa. "Eles não são como os miúdos com défice de atenção e hiperactividade que simplesmente agem por impulso. E não são como os miúdos com mau comportamento, que são tipo: "Vai-te lixar e que se lixe o teu jogo! Digas o que disseres, vou fazer o oposto." Os miúdos duros-indiferentes são capazes de seguir as regras meticulosamente. Usam-nas em sua vantagem."

À medida que vamos falando, Waschbusch leva-me ao campo de basquetebol ao ar livre, onde está a decorrer um jogo. No início, o jogo parece quase normal. As crianças estão num círculo e tentam passar a bola umas às outras sobre a cabeça do miúdo que está no meio, enquanto os monitores vão dando um feedback constante - louvando a concentração e a camaradagem e anotando cuidadosamente qualquer mau comportamento. Quando a bola voou alto demais num dos passes, um rapaz de cabelo rapado lançou um olhar fulminante. "Aquela raiva, aquilo vai para além do que vemos nos miúdos normais", diz Waschbusch. "Estes miúdos ficam facilmente ofendidos e reagem desproporcionadamente. O mesmo é verdade com o rancor. Se algum dos miúdos marcar um ponto à sua custa [do "fulminador"], ele fica furioso. Fica zangado com esse miúdo durante dias."

Detectei a mesma raiva intensa no Michael. Uma noite, enquanto o Michael via o seu vídeo do Pokémon, o Allan subiu para a cadeira para se sentar ao seu lado, com a ponta de um lançador de Beyblade na boca. O Michael olhou para ele com ódio e depois virou-se calmamente para o computador. Passaram-se 30 segundos. De repente, o Michael virou-se, agarrou o pião com uma força maliciosa e lançou-o para o outro lado da sala.

Mas no programa de Verão o Michael parece menos violento. Vestido com uns calções vermelhos e um boné de basebal, consegue desviar-se da bola, mas parece aborrecido no círculo de avaliação do grupo que se seguiu ao jogo. Enquanto o monitor conta os pontos, o Michael deita-se no chão e desfaz um fio que arrancou da camisola.

Esta é a sétima semana do programa de Verão, e a maioria das crianças ainda não deu sinais de progressos. Algumas, incluindo o Michael, estão até piores, e uma começou a bater nos monitores. No início do programa, nota Waschbusch, o comportamento do Michael até era bom comparativamente aos outros. Às vezes saltava da sua secretária ou corria à volta da sala, mas só raramente era forçado a sair, o que acontecia frequentemente com as crianças mais rebeldes.

Mas desde então que o seu comportamento piorou em espiral - em parte, pensa Waschbusch, porque o Michael tem estado a tentar impressionar outra criança do programa, uma rapariga a quem chamarei de L. Charmosa mas volátil, a L. rapidamente encontrou formas de pôr uns rapazes contra os outros. "É típico algumas raparigas manipularem", disse Waschbusch enquanto os miúdos eram levados para dentro. "Mas a dimensão e a precisão com que ela o faz não tem precedentes."

Por exemplo, levou vários brinquedos pequenos para o campo e depois dava-os como prémios aos miúdos que se portavam mal sob as suas ordens, conta Waschbusch. Essa estratégia parecia particularmente eficaz com o Michael, que várias vezes ia de castigo gritando o seu nome.

De acordo com Waschbusch, este comportamento calculado de L. distingue as chamadas deficiências de comportamento a "sangue quente", de problemas mais a "sangue frio" como a psicopatia. "Os miúdos de sangue-quente tendem a reagir de forma muito impulsiva", adiantou, enquanto seguíamos as crianças para dentro. "Uma das teorias é que têm um sistema de detecção de ameaças hiperactivo. São muito rápidos a reconhecer a raiva e o medo." As crianças de sangue-frio, duras-indiferentes, pelo contrário, são capazes de ser impulsivas, mas normalmente o seu mau comportamento parece ser premeditado. "Em vez de alguém que não consegue ficar quieto, temos alguém que pode ser hostil quando é provocado mas que também tem a capacidade de ser muito calculista. A sua atitude é "vamos ver como posso tirar partido desta situação, independentemente de quem sair magoado com isso"."

Alguns investigadores têm relacionado o comportamento a sangue-frio a níveis baixos de cortisol e a um funcionamento abaixo da média da amígdala, a parte do cérebro que processa o medo e outras emoções sociais adversas, como a vergonha. O desejo de evitar estes sentimentos desagradáveis, nota Waschbusch, é em parte o que leva as crianças pequenas a portarem-se bem. "Normalmente, quando um menino de dois anos empurra a sua maninha mais nova e ela chora, e os pais ralham, essas reacções fazem o miúdo sentir-se desconfortável", continua Waschbusch. "E esse desconforto impede-o de o repetir. A diferença com os miúdos duros-indiferentes é que eles não se sentem desconfortáveis. Por isso não desenvolvem a mesma aversão ao castigo ou à experiência de magoar alguém."

Waschbusch cita um estudo que compara os registos criminais de pessoas de 23 anos com a sua sensibilidade a estímulos desagradáveis aos três anos. Nesse estudo, tocava-se uma melodia simples às crianças de três anos seguida de sons violentos e desagradáveis. Apesar de todas as crianças conseguirem acabar por antecipar os sons ruidosos, a maioria dos que se tornaram criminosos em adultos não mostraram os mesmos sinais de aversão - tensão ou suor - quando soavam esses barulhos.

Para testar a ideia de que as crianças duras-indiferentes poderão ser menos reactivas à recompensa e ao castigo do que a média, Waschbusch criou um sistema em que os miúdos recebiam pontos por ser portarem bem e perdiam pontos se se portassem mal; depois alterou o esquema para incluir semanas em que a recompensa (pontos ganhos) ou o castigo (pontos perdidos) eram aumentados. No final de cada semana, as crianças escolhiam os prémios com base no número de pontos que recebiam. Todos os dias, Waschbusch e a sua equipa registavam o comportamento de cada criança - o número e gravidade das birras, sinais de bom comportamento - e introduziam os dados num computador. Com apenas uma dúzia de crianças no programa, as observações eram mais uma série de casos de estudo do que uma experiência com estatísticas sólidas, admitiu Waschbusch. Ainda assim, esperava que as informações pudessem constituir um ponto de partida para os investigadores que tentavam tratar crianças duras-indiferentes.

"Sabe-se muito pouco sobre como estes miúdos actuam", diz Waschbusch. Mesmo agora, a ideia de que as crianças duras-indiferentes podem responder de forma distinta ao tratamento está por testar. "É um terreno desconhecido", admite. "As pessoas preocupam-se com os rótulos, mas se conseguirmos identificar estas crianças, pelo menos temos a possibilidade de as ajudar." Faz uma pausa. "E se perdermos essa oportunidade, poderemos não ter outra."

Na manhã a seguir à minha visita, Waschbusch convidou-me a ver uma gravação feita durante uma sessão do programa. O visionamento decorreu numa sala cheia de cadeiras vazias e com uma pequena televisão. William Pelham, presidente do departamento de Psicologia da Florida International, apareceu lá para cumprimentar. "O Dan vai impedir o próximo Ted Bundy" [um dos mais célebres assassinos em série dos EUA], disse-me risonho.

Waschbusch estava com os olhos postos atentamente no ecrã. À medida que a câmara filmava a sala, Michael mexia-se desconfortavelmente na sua mesa, depois balançava a cadeira a grande velocidade, batendo com ela na mesa dos alunos atrás de si. Ao ver L. andar a correr atrás do rapaz na sala, Waschbusch afastou a ideia de que ela estava simplesmente fora de controlo. "Isto é planeado", disse em tom grave. "Ela sabe exactamente o que está a fazer." Quando um monitor ordenou a L. que se sentasse, ela voltou para a sua cadeira e esteve sossegada durante dez minutos, ganhando uma recompensa de dez pontos. "Está ali a diferença, ali mesmo", diz Waschbusch apontando para o ecrã. "Se isto fosse impulsividade ela já estava novamente levantada e outra vez às voltas."

Um dos desafios de trabalhar com crianças fortemente perturbadas, nota Waschbusch, é descobrir as raízes dos seus problemas de mau comportamento. Isto é particularmente verdade para as crianças duras-indiferentes, porque o seu comportamento - uma mistura de impulsividade, agressão, manipulação e desafio - frequentemente se mistura com outros problemas. "Uma criança como o Michael é diferente a cada minuto que passa", diz. "Por isso, dizemos que as coisas impulsivas são síndrome de défice de atenção e hiperactividade. E o resto é indiferença? Ou dizemos que ele oscila em altos e baixos e por isso é bipolar? Se uma criança não está a prestar atenção, será que isto reflecte um comportamento contestatário: "Não estás a prestar atenção porque não queres? Ou estarás deprimido e não prestas atenção porque não tens energia para isso?""

Para além de apurar as medidas psicológicas que testam as crianças duras-indiferentes, Waschbusch também espera ganhar uma maior percepção sobre o porquê de algumas destas crianças acabarem por ser adultos perturbados e outras não. As ressonâncias magnéticas aos cérebros dos psicopatas adultos mostram o que parecem ser diferenças anatómicas significativas: um córtex subgenual mais pequeno e menos 5 a 10% de densidade cerebral em partes do sistema paralímbico, regiões do cérebro associadas com a empatia e valores sociais e activas nas tomadas de decisão morais. De acordo com James Blair, um neurocientista do Instituto Nacional de Saúde Mental, duas destas áreas, o córtex orbitofrontal e o núcleo caudado, são fundamentais para reforçar as respostas positivas e desencorajar as negativas. Nas crianças duras-indiferentes, diz Blair, essa ligação pode estar defeituosa, com o feedback negativo a não ser registado como num cérebro normal.

Estas diferenças, dizem os investigadores, têm provavelmente uma origem genética. Um estudo calcula que os traços de insensibilidade sejam 80% hereditários. Dinald Lynam, psicólogo da Purdue University que passou duas décadas a estudar "psicopatas imaturos", afirma que estas diferenças podem eventualmente solidificar-se para produzir a mistura invulgar de inteligência e frieza que caracteriza os psicopatas adultos. "A questão não é: "Por que é que algumas pessoas fazem coisas más"", diz Lynam por telefone. "A questão é: "Por que é que não há mais pessoas a fazer coisas más." E a resposta é que a maioria de nós tem coisas que nos inibem. Por exemplo, ficamos preocupados se magoamos outras pessoas, porque sentimos empatia. Ou preocupamo-nos se as outras pessoas não gostam de nós. Ou preocupa-nos se somos apanhados [a fazer alguma coisa que não devíamos]. Quando começamos a retirar esses inibidores, é quando acabamos na psicopatia."

A probabilidade de herdar uma predisposição para a psicopatia é elevada, nota Lynam, mas não é mais elevada do que para herdar ansiedade ou depressão, que também têm grandes factores de risco genéticos, mas que têm resposta a tratamentos. Waschbusch concorda. "Na minha opinião, estas crianças precisam de uma intervenção intensiva para voltarem ao normal - ao lugar onde outras estratégias podem até produzir um efeito. Mas ter a atitude de que a psicopatia é intratável porque é genética" - diz abanando a cabeça - "não está certo. Há o estigma de que os psicopatas são os mais duros dos mais duros criminosos. O meu medo é que se chamarmos pré-psicopatas a estes miúdos as pessoas vão seguir essa inferência, de que isto é uma qualidade que não pode ser mudada, que é imutável. Não acredito nisso. Psicologia não é destino".

Na década de 1970, o investigador psiquiátrico Lee Robins conduziu uma série de estudos com crianças com problemas comportamentais, acompanhando-as até à idade adulta. Esses estudos revelaram duas coisas: a primeira é que praticamente todos os psicopatas adultos eram crianças profundamente anti-sociais. A segunda é que quase 50% das crianças com características anti-sociais não se tornaram adultos psicopatas. Por outras palavras, os testes precoces são necessários, mas não suficientes, para prever quem eventualmente se tornará um criminoso violento.

É este fosso que dá esperança aos investigadores. Se uma predisposição genética para a psicopatia é um factor de risco, diz a lógica que o risco pode ser mitigado por influências ambientais - da mesma forma que a dieta pode ser usada para diminuir um risco hereditário de doenças cardíacas. Como muitos psicólogos, Frick e Lynam também suspeitam que a natureza "intratável" da psicopatia pode ser na verdade um exagero, um produto de estratégias de tratamento não uniformes. Os cientistas são agora cuidadosos em distinguir os traços de dureza-indiferença em crianças e psicopatia em adultos, que, como a maioria das doenças psicológicas, se torna mais difícil de tratar à medida que o tempo passa.

Ainda assim, Frick reconhece que não é claro qual a melhor maneira de intervir. "Antes de podermos desenvolver tratamentos eficazes, são necessárias várias décadas de investigação básica só para sabermos como são estes miúdos e a que é que eles reagem", diz. "É isso que estamos a fazer agora - mas levará algum tempo até termos o quadro real."

E há outros desafios. Uma vez que a psicopatia é altamente hereditária, diz Lynam, uma criança que seja fria ou insensível muito provavelmente terá um pai parecido. E porque os pais não criam necessariamente laços com crianças com comportamentos cruéis, essas crianças tendem a ser mais castigadas e a receber menos mimo, criando o que se chama de "profecia autodesenvolvida".

"Chega a um ponto em que simplesmente os pais deixam de tentar", diz Lynam. "Muito do treino passa por levar estes pais a voltarem a empenhar-se porque sentem que tentaram de tudo e que nada resulta."

Anne admitiu que esta foi a sua experiência. "Por muito horrível que seja dizer isto, como mãe, a verdade é que erguemos um muro. É como estar num exército, a enfrentar uma prova de fogo todos os dias. Temos de nos desligar das fúrias e da raiva."

Quando perguntei a Anne se ela se preocupava com o efeito do comportamento do Michael nos seus irmãos - Allan, em particular, parece venerá-lo -, ela pareceu surpreendida com a ideia. Depois disse-me que na semana anterior Allan "fugira" para a casa de um amigo, a mais de um quilómetro e meio de distância. "Claro que ficámos preocupadíssimos", disse. "Mas o Allan tem essa confiança."

Anne diz que é uma disciplinadora rigorosa, sobretudo com o Michael, que acha que de outra forma ficaria simplesmente incontrolável. Refere um episódio de Criminal Minds que a horrorizou, no qual o filho mais novo de um casal foi assassinado pelo mas velho. "Na série, o irmão mais velho não mostrou qualquer remorso. Limitou-se a dizer: "Ele mereceu, porque ele partiu o meu avião." Quando vi aquilo, disse "Oh, meu Deus, não quero nada que este episódio seja um dos capítulos da minha vida"." Riu de forma estranha e depois abanou a cabeça. "Sempre disse que o Michael quando crescer ou será um Prémio Nobel ou um assassino em série." Quando lhe disse que outros pais podem ficar chocados por ela dizer uma coisa destas, ela suspirou, depois ficou vários segundos em silêncio. "Eu dir-lhes-ia que eles não devem julgar sem se colocarem no meu lugar. Porque, sabe, é preciso que se diga: não há muita alegria e felicidade em educar o Michael."

Pode ser possível modificar o comportamento de uma criança dura-indiferente, já não é tão claro se é possível compensar os défices neurológicos que lhe estão subjacentes - como a falta de empatia. Num estudo frequentemente citado, uma terapia de grupo que conseguiu diminuir para metade a reincidência em crimes violentos tornou-se famosa por ter feito aumentar os crimes "bem sucedidos" de psicopatas, ao melhorar a sua capacidade de imitar as expressões de arrependimento e a auto-reflexão. Um artigo relacionado especulava recentemente que tratar crianças anti-sociais com Ritalin pode ser perigoso, porque o medicamento suprime o seu comportamento impulsivo e poderá permitir-lhes planear cruelmente e de forma mais sub-reptícia as represálias.

Num outro estudo, o investigador Mark Dadds descobriu que, à medida que as crianças duras-indiferentes amadurecem, desenvolvem a capacidade de fingir interesse nos sentimentos das outras pessoas. "Chamámos ao artigo "Aprender a fazer a conversa"", diz Dadd. "Eles não sentem qualquer empatia emocional, mas têm empatia cognitiva, sabem dizer o que as outras pessoas estão a sentir, simplesmente não querem saber, nem o sentem." Quando Anne se preocupou com a possibilidade de o Michael estar a começar a manipular os terapeutas - fingindo alguns sentimentos para receber pontos - poderia estar mais certa do que julgava.

A maioria dos investigadores que estudam as crianças duras-indiferentes, no entanto, está optimista em que o tratamento certo possa não só alterar o comportamento como ensinar uma espécie de moralidade intelectual, que não seja simplesmente uma cortina de fumo. "Se uma pessoa não tem o hardware para processar as emoções, não conseguiremos ensiná-lo", observa Donald Lynam. "Pode ser como a diabetes: nunca conseguiremos realmente curá-la. Mas se a nossa ideia de sucesso for baixar as probabilidades de estes miúdos não se tornarem violentos e acabarem na cadeia, então acho que o tratamento pode funcionar."

Frick está disposto a ir ainda mais longe. Se o tratamento começar suficientemente cedo, diz, pode ser possível voltar a ligar o cérebro para que uma criança dura-indiferente possa desenvolver maior empatia através de terapias que ensinam tudo, mesmo a identificar emoções (estas crianças tendem a ter dificuldades em identificar o medo nos outros). Ainda ninguém testou estes tratamentos em crianças insensíveis, mas Frick nota que um estudo anterior indicava que pais carinhosos e afectivos parecem conseguir reduzir a insensibilidade nos miúdos duros-indiferentes com o tempo - mesmo nas crianças que inicialmente resistem a essa proximidade.

Ainda em Janeiro, a análise das estratégias de recompensa versus castigos de Waschbusch mostraram pouca consistência - possivelmente por o grupo ser tão pequeno. Este Verão, ele faz planos de alargar o programa de um para quatro grupos: cada grupo será dividido entre crianças duras-indiferentes e crianças com problemas de comportamento. Waschbusch espera que ao comparar os dois seja possível avaliar as diferenças nas suas respostas aos tratamentos.

Quanto a Michael, é difícil dizer se o programa ajudou. Na última semana no campo, agrediu um monitor no braço, algo que nunca tinha feito antes. Em casa, diz Miguel, Michael tem sido astuto na sua desobediência. "Já não grita tanto", diz, "apenas faz o que quer e depois mente".

Miguel diz ter esperanças de que o desenvolvimento do Michael siga um caminho parecido com o seu. "Às vezes, quando o Michael faz algumas coisas, eu sei exactamente porquê", afirma. "Porque eu fiz o mesmo tipo de coisas." Entretanto, dá ao Michael todos os conselhos que pode. "Eu tento dizer-lhe: estás aqui com muitas pessoas e todas elas têm as suas próprias ideias sobre o que gostariam de fazer. Quer queiras quer não, tens de alinhar."

a Exclusivo The New York Times

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