O bosque das pessoas mortas

Foto

Em 1931, Ödön von Horváth escreveu Histórias dos Bosques de Viena, um aviso do que ia acontecer à Europa. O colectivo Truta confirma agora que a História lhe deu razão.

A frase é dita quase no final, com a esperança já morta e o futuro enterrado: "Eu um dia perguntei a Deus o que é que ele queria de mim - mas Ele não mo disse (...). Ele não me disse absolutamente nada." Mariana, figura de contornos trágicos em pose de resistente, abandonada à sorte depois de ter ousado fugir ao casamento programado e a si mesma, podia ter sido uma mãe do futuro, da geração avisada, do jovem bebé Leopoldo, morto oficialmente de uma corrente de ar (na verdade, por incúria premeditada dos adultos). É para eles, os adultos, que Tonan Quito, encenador da nova criação do colectivo Truta - Histórias do Bosque de Viena, do dramaturgo Ödön von Horváth, que está até terça-feira no Maria Matos, em Lisboa, de onde segue para Guimarães, a 5 de Abril, e Faro, a 14 - aponta as suas baterias: quando os encontramos, diz, estão já estão mortos, porque cegos desde sempre. E cúmplices: os bárbaros a chegar e todos a dizerem não estar a ver, por mais horas que passem à janela, a ver os outros passar.

Horváth escreveu Histórias do Bosque de Viena em 1931, anunciando e denunciando, com uma clarividência que hoje parece estranha, tão directa e tão crua, as transformações que a sociedade austro-húngara sofria desde o início da década. A crise económica, a profunda interferência dessa crise nos valores sociais, as políticas proteccionistas e a venda primeiro das terras, depois do corpo e no, fim, da honra e do futuro. Por trás, a Europa, como pano de fundo da vida comezinha, pequenininha, mesquinha de todos os dias no 8.º bairro de Viena, à volta do talho, das festas da cerveja, dos cabarés esfuziantes, das casas aquecidas a folhas de jornal onde ninguém fala do que está a nascer: o nacional-socialismo.

Não era mais do que "um observador dos seus tempos, das suas pessoas e da sociedade", dizia Horváth. Como observador, escrevia textos entre a ironia e o falso realismo, para que "as pessoas [que conhecia] se conhecessem a si próprias". Uma população pequeno-burguesa de casamentos arranjados, famílias dependentes, esperanças adiadas, adultérios, dinheiro, crime e vingança. "O realismo serve para as pessoas identificarem ou rejeitarem", diz o encenador, citando de cor uma frase do dramaturgo, "e a ironia para se poderem questionar". Peças como Histórias do Bosque de Viena, Casimiro e Carolina (1932) e Fé, Esperança e Caridade (1932) são exemplos de histórias paralelas que alimentaram o seu teatro de denúncia, um teatro sem vergonha de ser moralista (porque a moral ainda era um valor e, portanto, não uma forma de culpa, mas uma fronteira instransponível).

Tanta crise e confusões

Foi este pensamento "extremamente contemporâneo" que interessou a Tonan Quito, mais director de actores do que encenador, à frente de um elenco que, ao longo da peça, se vai vendo cada vez mais comprometido com o que as personagens vão dizendo, vão fazendo, vão escondendo. "Gostava que as personagens estivessem mortas desde o início", afirma, como se quisesse reescrever, através delas, as histórias da História que ninguém quis ver. Como se desejasse que o limbo onde Horváth as deixou lhes permitisse começar outra vez e adiar o inevitável.

Horváth é um dramaturgo inquieto, preocupado com as pessoas, humanista, descreve Tonan Quito. "Porque percebe toda a transformação, é um autor extremamente preocupado com as pessoas. Ao colocá-las em atitudes estúpidas e mesquinhas, Horváth não quer expor as personagens, mas julgar comportamentos". Está contra os opressores mas, continua Tonan Quito, não desculpabiliza os outros: "Atenção, ser-se cada vez mais egoísta e autoritário, ser-se pela ordem e não se romper com isso pode levar-nos a caminhos muito assustadores".

Mesmo que a peça abra assim, a seco - "Hoje em dia já ninguém tem oportunidade para nada, em virtude de tanta crise e confusões" -, não se pode, não se deve projectar as Histórias do Bosque de Viena nas circunstâncias actuais. Este jogo de crueldade feito por pessoas cada vez mais frias, atirando culpas aos outros, pode deixar de ser um brincadeira de um momento para o outro.

Sugerir correcção