Feche a torneira e torne-se vegetariano

Entre o primeiro e o segundo dia desta experiência, houve poupanças significativas no duche, nas descargas de autoclismo, na lavagem manual da loiça e na substituição de um bife com batata ao almoço por legumes e arroz

Fizemos a experiência de tentar reduzir para metade a quantidade de água que consumimos num dia. Conclusão: é possível reduzir-se substancialmente. Mas se continuarmos a comer bifes, cada passo nosso abre um charco

Foi uma corrida, mas fez-se. Tinha-me proposto reduzir para metade o tempo de duche com a torneira aberta. No primeiro dia tinha cronometrado o tempo do duche (com lavagem da cabeça) e concluí que estivera com a torneira aberta durante cinco minutos. Por isso, o objectivo no segundo dia era reduzir para dois minutos e meio. Rápido, mas possível. Tapei o ralo e calculei que no final tivessem ficado na banheira cerca de 20 litros de água.

Este esforço todo para quê? O jornal pediu-me um trabalho que me permitisse calcular os meus gastos diários de água - a minha "pegada de água". A ideia inicial era tentar viver uma semana com a mesma quantidade de água com que vive uma pessoa num dos países com menor consumo: Moçambique, Ruanda, Haiti, Etiópia e Uganda consomem 15 litros ou menos de água por pessoa por dia. Quinze litros não me pareceu exequível, mas confesso que achei que com 30 litros conseguiria organizar-me. Ingenuidade.

A ideia evoluiu depois para uma experiência mais simples - calcular os meus gastos diários e tentar reduzi-los para metade. Havia, logo à partida, problemas práticos. Como contar a água gasta? Fechei os ralos e contei a água que ficava, o que deu algo como um litro de cada vez que lavava as mãos e quase dois quando lavava os dentes (mesmo mantendo a torneira fechada enquanto escovava). Por este andar, aproximava-me rapidamente dos 15 litros.

O site www.aguasdoalgarve.pt/ permite-nos calcular quanto gastamos em casa. Consulto-o e fico a saber que, se fechar a torneira e diminuir o tempo do duche para cinco minutos, consigo reduzir o consumo de água para cerca de 80 litros, o que não bate muito certo com as minhas contas. Se eu tinha, no segundo dia, tomado um banho de 2,5 minutos e tinha 20 litros na banheira, em cinco minutos teria 40 litros, ou seja metade do que dizia o site, mas imagino que dependa da abertura da torneira.

O duche oferece duas dificuldades adicionais: a primeira são os segundos preciosos que se perdem enquanto se espera que a água aqueça; a segunda é o uso da espuma de banho hidratante, que, ao contrário do sabonete, custa muito mais a tirar do corpo (e não imagino quanta água custe a produzir). De qualquer forma, lavando os dentes e tomando banho (ainda o dia estava a começar) já tinha gasto no primeiro dia da experiência pelo menos 43 litros.

A isto soma-se o autoclismo. Cada utilização, diz o site, corresponde a um gasto de dez litros - e lembro-me imediatamente das vezes que descarrego o autoclismo apenas porque deitei na sanita um papel que usei para limpar alguma coisa. Eles dão um conselho: se colocarmos uma garrafa de 1,5 litros dentro da caixa autoclismo, cada descarga passa a corresponder apenas a 8,5 litros.

Sair de casa traz algum alívio a esta contagem. Não bebo muita água durante o dia (sei que devia beber mais, mas julgo que não ultrapassa 1 litro), tento lavar as mãos rapidamente (num dos sítios onde vou, há, por cima do lavatório um autocolante que diz "ensaboe as mãos com a torneira fechada" e mostra que com a torneira aberta gastamos 15 litros enquanto que se a fecharmos gastamos apenas 2), e uso a descarga menor nos autoclismos.

As coisas pioram à noite, com o regresso a casa. Já sem contar com a água utilizada para fazer o jantar, há um gigantesco problema que é o da lavagem da louça. Ponho um alguidar para contar a água gasta - e, na verdade, parte dela é apenas para poder colocar a louça mais limpa dentro da máquina. Segue-se uma contagem assustadora: 7 litros (passar alguns pratos e talheres por água); 6 litros (primeira passagem por água de uma panela grande); 6 litros (a lavagem mais profunda da mesma panela e dois copos que não vão à máquina); 8 litros (lavagem de duas frigideiras). Um total de 27 litros, sem contar com a máquina de lavar a louça (embora esta não funcione todos os dias).

Mas a verdadeira tragédia foi quando, depois de mais umas leituras de sites sobre pegadas de água, resolvi incluir na contagem a alimentação. Não a água usada para cozinhar os alimentos, mas sim o gasto de água associado a cada alimento - a nossa pegada de água indirecta. O trabalho está facilitado pelo The Virtual Water Project, que existe em site e poster e também em aplicação para smartphone. Descarreguei-a para o iPhone para poder contabilizar a pegada de água de cada alimento.

Os produtos aparecem em sombra e, ao lado, em azul, gotas de água correspondentes à quantidade necessária para produzir cada um deles. Até aí tudo bem: percebemos que um bife custa mais água do que uma batata. O problema é quando lemos os números mais pequenos ao lado. Comecemos pelo bife. A aplicação coloca-nos como valor médio um bife de 300 gramas, que custou 4650 litros de água. Puxamos o cursor um pouco mais para trás, até situar o bife nuns mais aceitáveis 150 gramas, mas, apesar de melhorar, o panorama continua dramático: 2325 litros de água.

De repente, os dois litros da lavagem dos dentes parecem irrelevantes, quando, no primeiro dia desta experiência comi precisamente um bife ao almoço, o que tornou a minha pegada de água um autêntico lago. E se as batatas até são relativamente inofensivas (150 gramas só implicam 37 litros), o problema é que, numa tentativa de ser mais saudável, troquei as batatas fritas por arroz, e 70 gramas passaram a implicar 238 litros de água.

A solução? Comer vegetais. É o que decido fazer no almoço do segundo dia da experiência. O tomate corre muito bem (18 litros de água por 100 gramas, é um dos alimentos que menos água consome), mas a tarte de legumes é mais difícil de calcular. Leio num texto sobre o consumo de água que a Itália é um dos países no topo do grupo dos maiores gastadores - não tanto pelo consumo per capita diário (380 litros) mas sobretudo pela forma como comem e como se vestem. Preparados? Uma pizza Marguerita corresponde a 1200 litros de água, enquanto um quilo de massa (esparguete ou outra) corresponde a 1900 litros.

Não há forma de fazer isto bem, é a conclusão possível. Mesmo assim, há um indicador que bate todos os outros, que é o relativo à carne (é necessária muita água para as rações que alimentam os animais), e que explica, por exemplo, a enorme pegada dos americanos: um americano come cerca do dobro dacarne que um britânico consome, por exemplo, e quatro vezes e meia mais do que a média global.

Há, claro, o risco de enlouquecermos se tentarmos calcular a pegada de água de tudo o que comemos, desde o leite com cereais da manhã (2,5 dl de leite são 200 litros de água, não consegui calcular a "pegada" dos cereais) e ainda o sumo de laranja, passando pelo lanche (mais leite, ou seja, mais 200 litros de água, e ainda uma torrada, 100 gramas são perto de 130 litros), até ao jantar. E, a menos que nos queiramos tornar vegetarianos (e mesmo assim, atenção, nada de chocolate: 100 gramas são 2400 litros de água), temos pouco controlo sobre este consumo indirecto de água, embora possamos, claro, reduzir substancialmente a quantidade de carne que ingerimos.

Concentremo-nos então novamente nos gastos directos. No segundo dia da experiência, sigo o conselho do site e lavo os dentes usando um copo (era assim que fazia quando era pequena, em que altura mudei?), o que passa de dois litros para cerca de dois copos, ou seja 300 ml. Tomo o tal banho no tempo recorde de 2,5 minutos e guardo a água para ir aproveitando para usar na sanita (pouco prático, convenhamos, mas lembro-me de, quando era pequena, a água faltar em Lisboa, e haver um aviso prévio que nos levava a encher todos os recipientes que tínhamos à mão e a dosear muito bem a água que gastávamos).

A noite continua a ser um problema. Pôr a louça suja na máquina custa-me, sobretudo porque só a vou pôr a trabalhar no dia seguinte, quando estiver cheia. Mas o que mais trabalho dá é lavar o que não pode ir à máquina usando dois alguidares, um com detergente e outro com água limpa. Demora mais tempo e a sensação é a de que não fica tão bem lavada, embora sempre se tenha feito assim, e muita gente continue a fazer assim. Gasto ao todo uns 16 litros. Poupei 11 em relação ao dia anterior.

Com um jantar de frango com massa, depois do almoço sem carne, o duche reduzido, os alguidares cheios, o balanço é certamente menos mau do que no primeiro dia. Bastaria, aliás, não ter comido um bife para melhorar consideravelmente. Por curiosidade, olho para a conta da água. Numa casa de três, o consumo de água custa 15 euros por 60 dias (o resto da conta são taxas várias). Se reduzirmos para metade, com todo o esforço que isso implica, poupamos 3,25 euros por mês.

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