Esperança

A Ballet Story, de Victor Hugo Pontes, é a melhor hipótese de redenção proporcionada pela criação nacional desde há muito - e podemos revê-la já este mês em Lisboa ADRIANO MIRANDA

Olhar para a frente sem tropeçar, mas não sabendo se há caminho. A temporada que agora começa é a mais difícil de todas as dos últimos anos.

Das duas, três: ou o teatro e a dança nos ajudam a perceber melhor como olhar para a frente sem tropeçar, ou, na décalage entre o palco e a realidade, o que vamos ver vai acabar por se mostrar inútil. Considerando os avanços dos últimos anos, nunca se desmantelou tão depressa o que tão arduamente se conquistou. Todos, dos espectadores aos programadores, dos artistas à imprensa, a dizerem que a cultura é fundamental, o teatro uma benção e a dança uma alegria e, contas feitas, não há palha para o elefante, nem gargalhadas para o palhaço.

Ver o quê, se da ficção não podemos esperar nada a não ser uma clausura que faz acreditar que tudo é possível? Essa clausura dir-nos-á como sobreviver quando as luzes se acenderem? Veremos o que houver para ver, o que tiver sobrado depois de tantos cortes, nos poucos espaços que ainda programam a longo prazo, mesmo sem saberem qual é o prazo, e que vivem num dilema: continuar a programar companhias estrangeiras com dinheiro que seria útil para as portuguesas, ou dar o bodo aos pobres e, com isso, cavar ainda mais fundo o fosso que nos separa do que se faz lá fora? A dúvida faz ainda mais sentido agora, a quatro meses de não se saber se vai poder haver 2013. Dois mamutes, contudo, parecem simular que está tudo bem neste circo de lona de papel: Guimarães 2012 e o Ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal, acontecimentos faraónicos num país que continua a gostar mais do efeito, do embrulho e da celebração. Ainda assim apetece esperar por Novembro, altura em que João Pedro Vaz irá até ao berço da nação dizer, em Capital & Cultura, que a arte, a servir para alguma coisa, serve precisamente para se pôr em causa. Teatro de reacção, estocada quase final no minotauro iludido no seu labirinto.

Até lá, A Cidade,de Olga Roriz, As Meninas, de Picasso, por Luís Miguel Cintra, The Select (The Sun Also Rises), pelos Elevator Repair Service, a partir de Hemingway, e Casas Pardas, encenação de Nuno Carinhas a partir de Maria Velho da Costa, far-nos-ão regressar à palavra, afinal o único território ainda por desbravar. Mais coisas que ainda valem a pena: Anne Teresa de Keersmaeker e Jérôme Bel em 3Abschied, mostrando que nem tudo está definido. Solveig Nordlund de volta aos dramas de Bergman (Cenas da Vida Conjugal), indagando se o terror de lá de fora não vive já cá dentro, na nossa cama, Rui Horta questionando se o estado em que vivemos não pede já corpos disponíveis para a luta (Estado de Excepção).

Vale a pena perguntar o que ainda vale a pena porque não sabemos o que fica das poucas apresentações de cada espectáculo - uma matemática que mete orçamento, lei da oferta e da procura e simples desistência. Nunca se atirou tanto para todo o lado sem se saber se é o nome do autor que vende e o que faz de um texto o texto certo - a falsa pós-modernidade, como a crise, permite tudo a todos (quantos Strindbergs, quantos Shakespeares, quantos Becketts continuaremos a ver usados como um reles embrulho roubado à pressa numa loja de conveniência?

Mas basta apenas um espectáculo para que uma rentrée valha a pena, e esse espectáculo pode ser A Ballet Story, de Victor Hugo Pontes, que chega agora a Lisboa depois da estreia em Guimarães sem orquestra, porque a Capital Europeia da Cultura não quis ou não soube pensar a tempo. A Ballet Story é, sem mais palavras, a melhor hipótese de redenção proporcionada pela e à criação nacional desde há muito tempo. Continuar a sair para ir ver o que ainda se apresenta é acreditar que todos os espectáculos podem ser como este. Ou, melhor, que em todos eles devíamos poder projectar o que este nos fez sentir: esperança. T.B.C.

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