A palmeira que é uma Bela Adormecida

Numa zona remota de Madagáscar, existe uma planta com uma história de vida tão encantadora como trágica. Descobriram-na há pouco mais de um ano, agora revelaram-na ao mundo

a Durante uns 100 anos, parecia ser uma palmeira banal. Os habitantes locais conheciam-na há muito tempo mas, tirando o facto de ser alta, não lhe encontravam nada de especial. Certo dia, Xavier Metz, um francês proprietário de uma plantação de cajus, passeava com a família numa zona remota de Madagáscar quando se deparou com um cenário saído do nada: a palmeira gigante que tinham visto pela primeira vez há um ano tinha-se transfigurado por completo e exibia um tufo de flores no topo. Acabavam de descobrir (só não o sabiam ainda) uma Bela Adormecida entre as palmeiras.
Xavier Metz e a mulher, Nathalie, tinham-na visto em Agosto de 2005, durante um piquenique. Não lhe ligaram grande coisa. Mas no dia do segundo passeio, em Setembro de 2006, ela tinha-se transfigurado, com todas aquelas flores. Como nunca tinham visto nada assim, registaram a mudança em fotografias.
Outro habitante de Madagáscar, Bruno Leroy, um fã de palmeiras (a ilha é o sítio certo para quem tenha esta paixão, com 170 espécies conhecidas), divulgou essas fotografias na Internet a 5 de Dezembro de 2006, no fórum PalmTalk. Apesar da má qualidade das fotos, a palmeira suscitou grande interesse e surgiram logo especulações quanto a uma possível identidade.
Dois dias depois, um participante assíduo do fórum pedia a um conceituado especialista de palmeiras de Madagáscar, John Dransfield, dos Jardins Reais Botânicos de Kew, perto de Londres, que se pronunciasse. Também ele, que há 40 anos estuda palmeiras, ficou abismado. "Nem queria acreditar nos meus olhos quando vi as imagens na Web", conta Dransfield, numa nota de imprensa. "Claramente, iria ser uma descoberta extremamente interessante e eu mal podia esperar para examinar os exemplares em pormenor."
À primeira vista, pareceu a Dransfield que poderia ser uma espécie de palmeira existente no Sri Lanka (a Corypha umbraculifera), nunca antes registada em Madagáscar. As dúvidas desvaneceram-se com a chegada ao herbário dos Jardins de Kew de amostras da palmeira, recolhidas por um estudante de Dransfield em Madagáscar: folhas e partes da planta onde se localizam as flores (a inflorescência) permitiram perceber imediatamente que se descobrira uma espécie e um género novos para a ciência. As análises genéticas revelavam, também, que os únicos três parentes próximos da palmeira de Madagáscar se encontram espalhados pela Península Arábica, Tailândia e China.
Na edição deste mês da revista Botanical Journal of the Linnean Society conta-se quão extraordinário é o seu ciclo de vida e revela-se o seu nome científico: Tahina spectabilis, inspirado no nome da filha de Xavier Metz, Anne-Tahina.
Final dramático
No fim da vida, a Tahina spectabilis chega a atingir 18 metros de altura e as folhas, com cinco metros de diâmetro, são das maiores entre as plantas com flores.
Durante cerca de 100 anos, tem uma existência pacata, depois desencadeia-se uma série de acontecimentos dramáticos. No topo da planta, para lá das folhas, começa a crescer um gigantesco rebento (a tal inflorescência). De início, parece apenas um espargo, mas semanas depois esse rebento único, de quatro metros de altura, ramifica-se e enche-se de centenas de flores minúsculas. No final, parece que alguém enfeitou a palmeira com uma árvore de Natal no topo.
Ela leva tão ao extremo a fase de florir que esgota todas as forças e, passado pouco tempo, morre. A palmeira, que de um dia para o outro despertou e floriu, esvai assim todas as reservas em flores até ao definhamento.
Cada flor, depois de polinizada, ainda tem tempo de se transformar em fruto (com semente), altura em que insectos e aves não a largam. "Depois de florir e dar frutos, a palmeira demora seis meses a morrer completamente", conta-nos por e-mail John Dransfield.
Cerca de 95 por cento das palmeiras mundiais dão flor a um ritmo constante ao longo da vida, por isso a forma de reprodução desta palmeira, até às últimas consequências, é um caso raro, sublinha à revista New Scientist William Baker, também dos Jardins de Kew. "Esta cresce, cresce e depois floresce até à morte. É uma forma interessante de fazer as coisas."
Assim que soube da existência desta palmeira, Dransfield desconfiou logo que ela poderia ter um ciclo de vida muito longo, senão alguém já teria reparado na sua rara forma de floração. Como a Corypha umbraculifera do Sri Lanka tem um ciclo de vida parecido - reproduz uma única vez, por volta dos 50 anos, morrendo em seguida -, inicialmente supôs tratar-se dessa espécie.
A nova Bela Adormecida fascina Dransfield ainda mais. "Desde que começámos a trabalhar nas palmeiras de Madagáscar, na década de 80, descobrimos espécies e géneros uns atrás dos outros, mas para mim esta é provavelmente a mais excitante. Em particular, porque representa uma linha evolutiva desconhecida na ilha até agora, cuja distribuição é altamente paradoxal", diz o cientista, referindo-se aos parentes na Península Arábica, Tailândia e China. "Com os actuais conhecimentos, é muito difícil explicar como é que ela chegou a Madagáscar."
Uma hipótese é a palmeira viver há 80 milhões de anos na ilha, desde a sua separação da Índia, e ter entretanto passado por um processo evolutivo que culminou numa forma de vida calma com um fim trágico.
Até agora, só se conhecem 92 exemplares da palmeira, no norte de Madagáscar, no distrito de Analalava. E apenas uma que floriu. Dransfield já se reuniu com os habitantes de uma povoação nas proximidades, à procura de uma maneira de proteger a palmeira. Criou-se uma comissão local e os Jardins de Kew deverão vender as sementes, para que as receitas revertam para os habitantes locais e os jardins botânicos de toda a parte possam ter a sua palmeira suicida. Quando as outras palmeiras acordarem, já sabemos o que as espera. Não, essas Belas Adormecidas não viverão felizes para sempre.

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