A deputada descalça

Sentada na bancada socialista há menos de um ano, Isabel Moreira deu saltos difíceis na vida parlamentar e não só. Independente, intransigente e contra a corrente: assim se tornou a filha de Adriano Moreira, ex-ministro de Salazar, que sempre votou em Mário Soares e tem a data da legalização do casamento homossexual tatuada no braço

Entre os passos perdidos do Parlamento e o gabinete de Isabel Moreira no edifício novo da Assembleia da República, há longas escadarias e corredores estreitos que parecem túneis. A distância leva a deputada independente, eleita pelas listas do PS há 11 meses, a descalçar as botas de salto alto. A imagem serve de retrato a uma parlamentar desalinhada. Determinada e combativa, a constitucionalista de 36 anos não tem problemas em ser a "única" a ir de botas na mão, até porque detesta unanimismos.

Para quem já a conhecia, não terá sido surpreendente o seu voto contra o novo Código do Trabalho, à revelia da bancada do Partido Socialista, em Abril. E as posições críticas face ao Orçamento do Estado, que culminaram na subscrição do pedido de fiscalização da constitucionalidade desta lei, preparada pelos críticos de António José Seguro, secretário-geral do PS. Viraram-se as atenções para a independente convidada por José Sócrates. Mas desengane-se quem pense que Isabel Moreira alinhou na frente anti-Seguro: foi a defesa das suas convicções que a levou a votar contra o corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos e não a estratégia política de contestação interna. É esta a marca de água da sua personalidade.

É preciso recuar para tentar compreender como é que Isabel de Lima Mayer Alves Moreira, que nasce no Rio de Janeiro, por força do exílio da família no pós-25 de Abril, faz uma "caminhada fulminante" de um extremo ao outro, segundo a própria.É filha de Adriano Moreira, ex-presidente do CDS, antigo ministro do Ultramar de Salazar, conotado com a alamais aberta do Estado Novo, tendo crescido de uma forma privilegiada em termos económicos e sociais. "É muito difícil dar um salto de um lado para o outro, assumir-me como uma mulher feminista, de esquerda, do PS. Eu vinha de uma caminhada tão contrária àquilo em que me tornei do ponto de vista ideológico e político", diz no seu gabinete, que partilha com o deputado socialista Pedro Delgado Alves.

O caminho foi-se traçando. Em casa, entre cinco irmãos, havia uma "família verdadeira, de união e não de fachada", diz Isabel Moreira à 2. Aos três anos, foi para o colégio Mira Rio, só para raparigas, conotado com a Opus Dei, onde durante nove anos sentiu "medo de existir" e de "um Deus castigador". Pelos seus 20 anos começou a perceber que "tentava inventar um Deus agradável, mas que na verdade era evidente que Deus não existia".

Preencheu, através da literatura, um "sentimento de ausência", diz. "Culturalmente somos todos cristãos, fomos educados sob a ideia de Deus e não de fadas ou duendes. Se fosse natural Deus não existir, não haveria um sentimento de ausência. Prefiro ser ateia do que ser crente, porque prefiro ser lúcida do que iludida", justifica. Para logo depois dizer que ser a "única na família" nesta posição não implica "nenhuma gestão". É assim, ponto final. Mesmo que isso lhe tenha sido penoso: "De repente, um filho diz "afinal há aqui partes que eu não quero, afinal vou por outro lado", isso para o pai, mas sobretudo para o filho que faz essa clivagem, acarreta alguma dor. Pura e simplesmente, crescer dói."

Diz que teve uma vida privada difícil, embora se recuse a falar dela. "A minha dor está publicada", afirma, remetendo para os três livros que escreveu - Pessoas Só (Prefácio Editora, 2004), Quando Uma Palavra não Basta (Prefácio Editora, 2007) e Ansiedade (Arcádia, 2011). No seu último livro escreve: "A dor é sempre uma ausência. Por isso dor e solidão são a mesma coisa. Imagina uma pergunta: "O que te fez sofrer?", e sabe a resposta, foi "o normal, amor e morte, que são sinónimos"."

A literatura e o blogue Aspirina B, onde escreve textos políticos - alguns de ataque duríssimo ao Presidente da República, Cavaco Silva, que considera aliás "o pior político do regime" - servem de antídoto à alma inquieta de Isabel Moreira.

A família socialista chegou há pouco tempo à sua vida. Mas, aos 11 anos, a campanha eleitoral de 1987 para as legislativas começa a desenhar-lhe uma certa inquietação política, inspirada pela candidatura do seu pai, à época presidente do CDS e cabeça de lista.

As tertúlias políticas pré-eleitorais levavam até à casa do Restelo Basílio Horta, Narana Coissoró ou Nogueira de Brito. E os comícios, alguns que Isabel Moreira presenciou, deixavam em eco expressões como "privilégio dos pobres" ou "esperança concreta" - dois slogans da campanha dos quais ela não extraía todo o significado, mas que lhe fizeram intuir que o Estado deveria colocar em primeiro lugar o combate à pobreza e assegurar o direito à saúde, educação e habitação. Também o socialista Teófilo Carvalho dos Santos, um dos "melhores amigos do pai", frequentava a casa da família.

Se a mãe proibia o acesso de Isabel Moreira e dos irmãos à "sala pequenina por causa do fumo do tabaco", o slogan político da campanha eleitoral do CDS - "o voto útil só é útil para quem o recebe" - ficar-lhe-ia na memória como referência da actuação política que, anos mais tarde, viria a ter. Mas não só. Das discussões ficava-lhe também um sentido para a sua vida: "Pôr em primeiro lugar a correcção das desigualdades e essa ser a principal preocupação do Estado." E também por isso, diz, votou sempre em Mário Soares.

"Tenho imenso prazer em discordar, mas é tramado discutir com o meu pai, ele é brilhante", afirma Isabel Moreira. E se muitas vezes discordam, Adriano Moreira reconhece, segundo a filha, a autenticidade das suas posições e muitas preocupações comuns. "Podemos dar soluções diferentes, mas a preocupação subjacente a tantos problemas é a mesma. Há muitas matérias em que sou muito próxima do meu pai, curiosamente, porque o meu pai vem da doutrina social da Igreja, da democracia cristã."

Uma família com "espaço para a autodescoberta", um pai com quem "fala sobre tudo, desde o estado do tempo às questões da Palestina" e as leituras que faria mais tarde pela mão do seu professor de Filosofia e escritor, Rui Nunes, terão contribuído para desenhar a sua consistência ideológica.

Aos 16 anos, Isabel Moreira já se "destacava inevitavelmente" no liceu Rainha Dona Amélia, "tinha uma grande capacidade de mudar de opinião e de respeito pela diferença", segundo o seu professor de Filosofia. Foi com os "originais do Kant", e não com os manuais do liceu, que a sua estrutura de pensamento se começou a desenhar. O professor está convencido de que a "moral kantiana - tomar os outros sempre como um fim e nunca como um meio - tocou-a profundamente no sentido ético e contribuiu para estruturar a relação dela com o mundo". Ávida de leitura e de fundamentação racional, Nunes recorda "uma rapariga muito inteligente, que questionava a realidade com muita intensidade" e que "comprava sempre os livros ou ia à biblioteca do pai e lia-os".

Licenciou-se com uma média final de 16 valores, em Direito, pelaFaculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se tornaria mestre em Direito Constitucional e onde começou a leccionar com apenas 23 anos. É peremptória: "Dar aulas era a minha vida." Marcelo Rebelo de Sousa, seu orientador de mestrado, elogia-a: "Ela era óptima do ponto de vista pedagógico, os alunos adoravam-na. É uma pessoa que une o lado científico ao lado pedagógico e ao lado pessoal. Era muito completa como académica."

Com Rebelo de Sousa, em particular, Isabel Moreira tem uma dívida de gratidão. Tão grande que, mesmo quando discorda das opiniões do social-democrata, se sente "incapaz" de criticá-lo publicamente. Faltavam dois meses para terminar o prazo de entrega da sua tese e, devido a problemas pessoais, a então jurista não tinha uma linha escrita. "Fui falar com ele e disse-lhe que não conseguia fazer a tese e que queria que se retirasse de orientador, porque não podia ficar com o encargo de ser orientador de uma pessoa que não entregaria a tese, o que eu achava péssimo para a imagem dele." Marcelo Rebelo de Sousa ouviu calmamente e disse-lhe que ela era "uma pessoa muito rápida, como ele" e que, por isso, a Isabel ainda devia "tirar um mês para ir à praia e comer gelados do Santini", em Cascais.

O conselho do professor assentava também na paixão absoluta que Isabel Moreira tem pelo mar, que a leva a nadar no Meco nos meses de Inverno. "A minha mãe e o meu avô materno foram uma influência forte nesse sentido, ambos apaixonados pelo mar e pelo Cabo da Roca." Também Marcelo Rebelo de Sousa se lembra de, "naquela altura, ela ir para o Guincho, adorava o pôr do Sol no mar, tem um lado romântico que a torna muitas vezes incompreendida".

"Andei com ela ao colo. O problema é que, de vez em quando, quebra psicologicamente. É muito sensível, apaixonada, arrebatada. O meu papel foi puxar pelo ego dela, dizer-lhe que era capaz de entregar a tese. E foi, porque escreve bem e rápido", conta o professor.

Escreveu-a em dois meses, das seis da manhã às oito da noite, porque a partir do momento em que começa é para conseguir: "Se não, culpabilizo-me imenso, sou violentamente autocrítica. Nunca acho que escrevi, fiz, estive o suficiente. Tenho sempre a sensação de que o que correu mal é gravíssimo e o que correu bem foi sorte."

A tese foi entregue e o júri atribuiu-lhe 18 valores por unanimidade, num tema particularmente complexo, já que na altura muito pouco havia sido escrito sobre o assunto. A dissertação de mestrado defendia a convergência entre direitos, liberdades e garantias com direitos económicos, sociais e culturais e era, segundo explica Marcelo Rebelo de Sousa, "um tema ainda muito pouco desbravado, em que ela teve a originalidade de se lançar".

Essa consciência da igualdade e de que "os direitos fundamentais são contramaioritários, isto é, impõem-se independentemente do que pensa a maioria sobre eles", como defende Isabel Moreira, cresceu na faculdade: "O Direito fez-me um clique e obrigou-me a pensar ao contrário. E aquilo que estava dentro de mim como uma raiz sem saber muito bem para onde ir começou a transformar-se numa flecha", afirma.

A sua aparição pública na defesa intransigente do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2009, depois de uma presença mais discreta na campanha da interrupção voluntária da gravidez, colar-lhe-ia inevitavelmente o rótulo de "uma mulher de causas" e custar-lhe-ia "um desgosto profundo".

Desassombrada no combate político, comprometida com convicções profundas e capaz de mandar tudo ao ar em nome daquilo em que acredita, a visibilidade pública na defesa dos direitos das minorias e o parecer jurídico com a fundamentação da inconstitucionalidade da proibição do casamento entre Teresa Pires e Helena Paixão levariam Isabel Moreira a ter de abandonar a cátedra de Direito "de coração nas mãos".

A intervenção que fez pelo "sim", no programa Prós e Contras da RTP, ao lado de personalidades como a jornalista Fernanda Câncio ou o antropólogo e ex-deputado independente pelo PS Miguel Vale de Almeida contribuiu para comprometer a sua carreira de docente e valeu-lhe "um processo kafkiano" na faculdade, segundo relata. Até se tornar impossível continuar.

"Começou com a simples publicação em livro de um parecer jurídico para o Tribunal Constitucional a defender a inconstitucionalidade da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bastou isso para começar um ano de perseguição, distorção e falsas acusações", como não dar o número de aulas que lhe eram devidas, recusarem-lhe licença para doutoramento ou emitirem actos administrativos a acusarem-na de doente, sem seu conhecimento. Até que, pelo seu pé, fechou a porta.

Luís Grave Rodrigues, advogado de Teresa Pires e Helena Paixão, recorda que "mais do que escrever o parecer jurídico, que ela ofereceu gratuitamente, Isabel Moreira demonstrou ser de uma competência extraordinária, indicou o caminho, deu sugestões. Onde ela chega muda tudo, no bom sentido, põe tudo a mexer".

Sobre o preconceito generalizado de que as pessoas só se envolvem na defesa destas causas quando são parte interessada, Isabel Moreira responde com o argumento de um país homofóbico: "Eles têm a ideia de que como o país é homofóbico, se espalharem que eu sou lésbica, eu vou ter menos adesão. Simplesmente faz parte da minha cabeça sã ter por igual chamarem-me lésbica ou chamarem-me loura, não é ofensa nenhuma."

Ainda faltava mais de um ano para se sentar em São Bento quando decidiu tatuar a data de 8 de Janeiro de 2010 no braço esquerdo. Ficava assim gravado "um dos dias mais felizes" da sua vida e o culminar de uma batalha que a trouxe, em definitivo, para a vida pública: a legalização do casamento homossexual.

Fernanda Câncio recorda à 2 o lançamento do livro O Casamento entre Pessoas do Mesmo Sexo, que contém os nove pareceres jurídicos pela inconstitucionalidade da lei que vigorou até 2010: "No dia da apresentação, na livraria Almedina, estranhei uma presença na plateia, a de Adriano Moreira. Pensei "que estranho, deve ter-se enganado". Mas ele ficou lá o tempo todo, com um ar muito atento e agradado. No fim fui cumprimentá-lo, e ele disse: "Ela é fantástica, não é?""

José Sócrates terá pensado o mesmo. A intuição política do ex-primeiro-ministro levou o socialista a convidá-la para integrar a lista do PS à Assembleia da República nas eleições legislativas de 2011. "Muito independente e, sobretudo, muito autêntica", foi a justificação que deram a Isabel Moreira para o convite. Antes, foi assessora jurídica do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do PS, Luís Amado, em 2006, e advogou numa das mais reconhecidas sociedades de advogados da capital, a Sérvulo & Associados, entre 1999 e 2002.

Marcelo Rebelo de Sousa aponta para um "contraste entre a origem social e a origem política", mas considera que "ela é, ironicamente, mais radical em matéria de defesa de direitos clássicos e não tanto em matérias de políticas económicas e políticas públicas". Miguel Vale de Almeida, amigo da deputada, fala de alguém que "não faz carreira política" e que "acredita plenamente em todas as lutas que trava".

Fernanda Câncio ironiza, a propósito da "célebre" intervenção de Isabel Moreirapelo casamento homossexualno programa Prós e Contras, que a sociedade portuguesa ainda acha que "os homens que defendem as suas convicções sem se deixarem intimidar e falam alto são frontais e corajosos, as mulheres são histéricas, peixeiras ou, como escreveu no Twitter o deputado do PSD, Pedro Duarte, que depois disse que lhe tinham "hackado" a conta, têm falta de homem ou, de um modo geral, um problema qualquer". A jornalista traça o perfil de alguém que "foge ao estereótipo de mulher suave" e que "suscita anticorpos num país como este ainda é".

Adolfo Mesquita Nunes, deputado do CDS que com Isabel tem tantas vezes conversas "desafiantes", reconhece que a política portuguesa não está "habituada a lidar com pessoas assim" e que nem sempre a "intransigência" a beneficia, como aconteceu com a sua saída de docente da Faculdade de Direito. "Tenho dificuldade em dizer que isto é uma qualidade, porque na vida temos sempre de transigir. Mas esta sua forma de estar abre caminho a uma forma um pouco diferente de os políticos estarem na vida pública", avalia. Para o deputado centrista, Isabel é "alguém que é, ponto", sem cedências, transigências ou negociações. Pelo menos, em termos políticos. Não há conveniências partidárias: "Ela é uma pessoa que não faz transigências em nada, a conveniência política para ela é totalmente irrelevante. E portanto ou ela joga no tudo ou não aceita. A Isabel Moreira não pode ser substituída por um locutor de continuidade, não é substituível por qualquer outra pessoa."

Mesquita Nunes e Isabel Moreira são, no que toca às questões económicas, "pólo norte e pólo sul", nas palavras da deputada. Mas é ele o deputado do CDS com quem sente maior proximidade e que votou a favor da adopção por casais homossexuais e da procriação medicamente assistida. Apesar de nenhum dos dois estar ainda no Parlamento aquando da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o centrista dá o exemplo: "Quase que discordo de todo o caminho ideológico e de todo o trilho intelectual que ela segue para chegar à mesma conclusão que eu. Ela centra-se muito na questão da igualdade, eu centro-me muito na questão da liberdade. Às vezes, votamos da mesma maneira, o que não se vê é o quão diferente foi o nosso voto."

O que poderia ser explicado com a inexperiência parlamentar - ainda há pouco tempo admitia ainda se perder nos corredores do Parlamento - é mais um carimbo da sua personalidade. Isabel Moreira, na primeira comissão, de assuntos constitucionais, direitos, liberdades e garantias, intervém muitas vezes não apenas pela matéria de facto sujeita a discussão, mas até por questões procedimentais em que não se coíbe de dar a sua opinião.

Teresa Leal Coelho, deputada e vice-presidente do PSD, com quem debate na primeira comissão, admite que um "determinado grau de determinação e frontalidade pode não ser muito bem recebido no meio". A social-democrata diz que prefere o "estilo sem rodeios" da deputada do PS e considera que "não há nenhuma relação de paternalismo com a Isabel Moreira": "Acho que há o reconhecimento de que é uma mulher inteligente, muito trabalhadora e bem apetrechada do ponto de vista científico. É uma mulher verdadeiramente independente, que pensa nos parâmetros do século XXI e tem consistência na defesa das suas causas fracturantes."

A deputada do PS, Maria Antónia Almeida Santos, que tem em comum com Isabel Moreira ser filha de um nome histórico da política nacional (António Almeida Santos), prefere centrar-se na "lealdade política". Conheceu-a na campanha eleitoral do último ano e encontrou alguém "muito tolerante e sem preconceitos", mas também que "percebeu rapidamente que, às vezes, tem de ser mais suave a dizer as coisas". Ao contrário do deputado do CDS, considera que Isabel Moreira é capaz de recuar politicamente: "Quando num projecto sobre procriação medicamente assistida chegámos a um ponto em que vimos que não havia condições, ela foi a primeira a ceder, o que não quer dizer que deixe de pensar aquilo que pensava. Há duas ou três matérias em que, de facto, não cede." Segundo a deputada, nem poderia fazê-lo, já que assumira posições públicas, e até publicadas, sobre os assuntos antes de chegar à política.

Quando, em Abril, Isabel Moreira furou a disciplina de voto no Código do Trabalho, o que lhe valeu uma advertência disciplinar da direcção da bancada socialista, os holofotes viraram-se para ela. Sobre as "quezílias" com o grupo parlamentar do PS, Antónia Almeida Santos desvaloriza e lembra que o PS é um partido plural, onde sempre houve divergências e pessoas "mais entusiasmadas".

"A palavra certa é apaixonada, apaixonada por causas. Ela põe muita força nos sentimentos e nas palavras, nem sempre, e aí sim, é bem interpretada. Ela não manda dizer, o nosso líder parlamentar sabe muito bem disso, portanto acho que a direcção do grupo parlamentar deve valorizar essa lealdade, que nem sempre aconteceu", adianta. A deputada do PS considera que a visibilidade de Isabel se deve também ao facto de "ser nova no grupo, nem sempre ter sido bem interpretada no início e defender as tais causas".

Certo é que, pelo menos por enquanto, a independente do PS não faz cálculos políticos e ignora uma certa dose de cinismo parlamentar, quase imprescindível à sobrevivência de um deputado e à lógica do aparelho partidário. Mesquita Nunes ajuda a compreender: "Há factores que são tidos em conta por quem está na política e ela não tem. Eu até posso convencê-la de que os meus argumentos para defender o casamento entre pessoas do mesmo sexo são melhores, não materialmente, mas porque são mais facilmente perceptíveis e aceitáveis. Ela não vai por aí, mesmo que fique demonstrado que assim ganharia. E não vai por aí porque não vai poder dizer aquilo que pensa", explica.

Sem tacticismos, Isabel Moreira diz que nas reuniões da bancada parlamentar sempre combateu "a ideia de socratistas e não socratistas", o que não quer dizer que "não defenda o passado do PS", até porque acha "patética esta ideia de fingir que não existiram seis anos" de governação política de José Sócrates, da qual, aliás, se orgulha. E recusa que esteja no Parlamento "para preencher um espaço de questões LGBT". Se queria aprovar a adopção por casais homossexuais e a procriação medicamente assistida, Isabel sabe que nesta legislatura, com uma maioria de direita, a agenda política não a ouvirá. Mas há muito horizonte político para além disso: "Então e a pobreza e a desigualdade? E a defesa do Estado social?"

Sobre se o actual secretário-geral do PS, António José Seguro, a teria convidado para as listas se tivesse sido ele a fazê-las, não sabe e dispensa a tentativa inútil de refazer a história. No PS há quem ache que não, mas a "infiliável" deputada, como sempre se afirmou, já considera "natural", finda a actual legislatura, tornar-se militante do Partido Socialista.

Na verdade, Isabel Moreira tem votado várias questões ao lado das bancadas do PCP e do BE e contra o sentido de voto dos socialistas. Reconhece que "as suas causas" - interrupção voluntária da gravidez, casamento e adopção homossexual, procriação medicamente assistida - a colocam na "ala mais à esquerda do PS". Do PCP e do BE sente-se "próxima de projectos", afiança, mas não da ideologia e do funcionamento interno dos partidos.

"O PCP não fez ainda um processo de revisitação da história, dos horrores do comunismo. Mas reconheço que é coerente, intransigente e sistemático na defesa dos mais pobres", diz Isabel. Já quanto ao BE, a deputada levanta dúvidas: "É um partido que eu não entendo muito bem a ideologia, eu sou muito ideológica. O BE nasce de uma miscelânea que, no fundo, ainda tem uma data de raízes do PCP, do trotskismo, mas que depois aparece com uma imagem que não é do PCP, que é uma coisa parecida em moderno, um bocadinho urbano e cool."

Depois de ter terminado o liceu e de alguns anos de afastamento, há cerca de dez anos, Isabel Moreira procurou o escritor Rui Nunes, que estava na Noruega e cujos livros devora: "Nunca encontrei ninguém que conseguisse rebentar com as palavras e construir tudo de novo. Criei um quadro argumentativo com ele, a capacidade de pensar", diz. Combinaram reencontrar-se em Lisboa e nunca mais deixaram de jantar, tomar um café ou simplesmente falar ao telefone.

Para a deputada, ele é um porto seguro, como o são o melhor amigo, a mãe e o pai. Nunes, militante comunista, admira a "atitude política de Isabel, a coragem de afrontar aquilo tudo, uma espécie de pântano político, até dentro do seu grupo parlamentar".

Alta e muito magra, o lado combativo e a fragilidade física que, tantas vezes, denuncia são a marca do seu perfil, nas palavras de Rui Nunes: "É uma aparente contradição, é a grande riqueza da personalidade dela. A vulnerabilidade exposta faz a força dela, torna-a inatacável. O secretismo é que torna as pessoas vulneráveis."

Esse desassombro nas palavras e nas emoções, que, segundo o professor, pode não ser consciente, porque é, julga, estruturante da sua personalidade, é também "um trunfo político, ou melhor, é um trunfo inteligente para uma política inteligente, para além de ser um sinal de grande coragem". Uma coragem que é intelectual, mas é também física pela "figura frágil que ela é", diz Rui Nunes.

Vale de Almeida diz que a "aparente fragilidade é apenas isso, aparente", preferindo salientar "a sua transparência e a força que mantém até ao fim". Já Marcelo Rebelo de Sousa diz que "muita gente olha para ela, e não a conhecendo bem, acha que ela é uma diletante. Mas não é".

Alguma direita parlamentar pode ter alguma reserva em criticá-la abertamente e admite até uma espécie de "condescendência" pelo seu suporte familiar "ultraconservador" e por ser filha de Adriano Moreira. Ou seja, encara a atitude política de Isabel "um pouco como reacção a esse lado conservador e à norma, no geral", de quem precisa rebelar-se. Dá-lhe um certo desconto por isso.

João Semedo, o deputado do BE que Isabel Moreira "gostava que fosse do PS" e que a descreve como "uma mulher de esquerda com um percurso meritório", acha que Isabel pode até "transmitir uma ideia de fragilidade física, mas que é muito enérgica" a defender os seus pontos de vista. "E acho até que não deve ser fácil. Remar contra a maré, remar contra a corrente não é fácil para ninguém, exige músculo", diz o médico do BE.

E o rótulo de "menina "bem" rebelde" é, em sua opinião, um disparate. "Acho que ninguém lúcido, da direita à esquerda, pode dizer isso. A direita já percebeu há muitos anos, tem muitos exemplos disso, que o património genético não se transmite na política", diz a rir Semedo.

O deputado bloquista considera ainda que os "apartes" que já se ouviram no plenário - "coitadinha, não sabe o que pensa" - são de "muito baixo nível, de marialvismo rasca" que ainda existe nas bancadas parlamentares. João Semedo tem a resposta que parece óbvia a quem conheça a deputada: "Sabe uma coisa? Acho que a conheço o suficiente para dizer que esses comentários não vão resultar, pelo contrário. Ela tem inteligência suficiente para desprezar isso."

Talvez a descrição que Isabel Moreira faz da sua tia Olívia, militante comunista e irmã de Adriano Moreira, também lhe sirva: "Quando vê um obstáculo não passa ao lado, enfrenta-o." Isabel Moreira, a "tia soluções", como a apelidam três dos 12 sobrinhos, tem sempre uma solução para o problema. Pelo menos, até agora. Às vezes, como diz Antónia Almeida Santos, pode ser simplesmente rir-se do dia-a-dia.

No final de um plenário ou de um dia de actividade parlamentar intensa, as deputadas da primeira e da nona comissão, Isabel Moreira e Antónia Almeida Santos, aproveitam para descontrair depois da caminhada, já descalça, da constitucionalista pelos corredores da Assembleia da República. "Somos as duas em privado um bocadinho teatrais, gostamos de imitar. A Isabel tem muito jeito para criar situações caricatas. De vez em quando, juntamo-nos no meu gabinete, contamos histórias e temos ataques de riso de nos caírem as lágrimas pela cara abaixo. Isso também cria laços. É voltar um bocadinho àquela coisa da adolescência..."

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