Paredes vivas

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Um dia, passeando por Alfama, vi espalmado num paredão da Rua dos Corvos: "Dá-me a tua mão." Em letras claras e sinceras, a cidade a pedir-me a mão, que luxo. E que cidade. Um pedido destes não vem todos os dias. Mas através das suas paredes a cidade pede-nos muitas vezes a mão. Ou sugere que nos repensemos, como pede filosoficamente uma empena branca na outra margem: "Encontre-se. Vai a tempo." Vamos sempre a tempo. Nesta e na outra margem. Pedidos, olhares e clamores que vou lendo e anotando desde há muito. Think global, act local, nanotecnologia da boa. Os graffiti mais famosos são os figurativos, alguns são magníficos e até já ganharam o epíteto de arte. Mas há também belas mensagens escritas, pequenos grafismos desabafados aqui e ali por gente que não sei nem nunca saberei quem é. Poesia, amor e política urbana, da mais baratuxa à mais elevada. "Entrada da estação" desenhou alguém no longo muro de Santa Apolónia, uma questão parece que entretanto resolvida. O que lembra que é possível não só dar a mão, como derrubar muros e mesmo reencontrarmo-nos. Nada mau, para os tempos que correm.

Lisboa é uma canção de Variações (o António). Entre a Rua dos Corvos, a outra margem e o IC19, um caos contemporâneo onde anda tudo ligado. Um "incompleto perfeito", escreveu um verdadeiro artista numa porta azul de um prédio devoluto. Cidade-reflexo dos desejos, dos ritmos e descompassos da geografia, da história e dos homens. É certo que ainda vivemos muito numa condição já ultrapassada, como lembra um recanto da Penha de França: "Eu trabalho para comprar um carro para ir para o trabalho." Trabalho e carro como nos velhos tempos, nada mau dirão alguns. Para muitos, o cenário está estampado numa ruela de Benfica: "Grécia em todo o lado." Falarão da pólis, da política, ou da polícia? Talvez de tudo isso junto. É que "não somos mercadoria", escreveu alguém em Alcântara. Pois não. Como dizia o Variações (o António) somos um movimento perpétuo, esquizofrénico, desejamos algo, mas só estamos bem onde não estamos e só queremos ir onde não vamos. Há outra vez quem exija: "Queremos tudo." (Delícia renovada do PREC e recolocada no Bairro Alto.) Há quem espalhe "utopia" em vários locais da cidade; e há quem, com ainda menos modéstia e em letras pequeninas, sussurre num canto de um prédio banal: "Quem me dera que toda a gente se desse bem."

As ruas da nossa cidade são a anatomia da nossa condição urbana. São o nosso corpo público. São nossas, como lembram as centenas de escritos legalistas onde a EMEL actua: "Estas ruas pertencem-nos." Este belo corpo, este corpo usado e transformado, já esteve melhor nalgumas partes; mas noutras já esteve pior, como lembra o seu próprio coração da Baixa: "Já estou melhor, obrigada." Pois está. Noutras partes nem por isso, com não pouca gente a pensar: "Os ricos com médico privado e os pobres privados de médico."

Com esta austeridade e culpabilização em que nos meteram, somos ruas, bairros inteiros sem direitos e dinheiros para adequada reabilitação. Está mal. Quando podia estar tão bem.

"Somos os herdeiros do futuro", diz outra porta azul. Geografias emocionais, texturas finas que interligam o espírito do tempo com o espírito do lugar. Pensa pois, cidadão. "Ninguém pode sonhar por ti", lembra uma parede no Chiado. E começa já. "Não esperes que te caia do céu", diz outra empena logo a seguir. Ainda bem que existem, estas mensagens da cidade, pois "muros brancos, povo mudo". Até podia haver mais: "Baixa as expectativas e sonha mais alto." Agora já, hoje mesmo, neste breve fio do presente entre o enorme passado e o enorme futuro. E regresso a Alfama, declamando com aquela parede branca junto à Igreja de Santo Estevão: "É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós." Tudo isto dentro de ti, ó cidade. Claro que te dou a mão. E escrito algures: "Amo-te, princesa."

Geógrafo

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