O horror higienista contra os graffitis

O poder político instalado, quer a nível municipal (Câmara Municipal do Porto), quer a nível central (Ministério da Administração Interna), decidiu combater o "vandalismo urbano" nas/das paredes. Ao fazê-lo, de forma apressadamente punitiva, demonstra uma clara vontade em não compreender o fenómeno. Afinal, "pensar incomoda como andar à chuva"... A repressão dos murais e dos graffitis vem além do mais numa linha de criminalização da contestação, que passa pelas restrições às manifestações, à ocupação física do espaço público (vide o que aconteceu em Madrid ou Nova Iorque) e à expressão do protesto. Nas pretensões normalizadoras e higienistas não existe espaço para descortinar os significados que muitos jovens atribuem ao acto, individual ou colectivo, de pintar com spray um graffiti numa parede geralmente abandonada de casa ou fábrica; ou inscrições, com spray ou pincel, em jeito de máxima política e/ou filosófica ou mesmo de quase-verso, desafiando a modorra dos dias iguais ("Tanta casa sem gente, tanta gente sem casa"; "o meu abraço tem a forma do teu corpo"); ou um mural político, com pincel e tinta, apanágio de movimentos ou partidos de esquerda; ou ainda um stencil, utilizando spray com molde, geralmente de cariz iconográfico ou pictórico. Não, nada de entender.

A visualidade do poder instalado desencadeia uma contra-visualidade, que a tantos de nós irrita ou desagrada, porque desejosos de uma certa ordem, arranjo e harmonia no desenho urbano (os "paraísos artificiais" de um espaço público "regrado", controlado, sem "ruído", ou seja, sem polifonia e diversidade). Mas permanecemos frequentemente incólumes à violência da visualidade oficial, sobretudo aquela que, porque paga, ganha toda a "respeitabilidade": letreiros, outdoors, reclames luminosos, sinais de trânsito, avisos, bem como à omnipresença da publicidade e ao apelo ao consumo. Permanecemos ainda cegos ao sentido social e político das imagens e mensagens: elas significam, tantas vezes, uma declaração de existência identitária em contextos de precariedade, anonimato e incerteza; uma celebração de sociabilidade, qual ritual de partilha convivial, mas também uma vontade de disputa do espaço visual urbano, politizando-o, questionando a própria noção de propriedade (escrever e pintar nas paredes torna-as de alguma forma públicas), instaurando, amiúde, uma poesia e uma estética emergentes que, não raras vezes, acabam por ser consagradas e recuperadas pelos circuitos de distribuição artística e comercial, entrando em galerias e museus ou transformando-o em património "protegido"!

Estas inscrições criam um lugar lá onde ele frequentemente não existe, uma ocasião de relacionamento, festa, protesto e visibilidade, frente a uma sociedade e um poder político que teimam em não ver, a não ser para classificar, colocar em gavetas ou punir.

Sabemos que muit@s leitor@s pensarão já na aparente anarquia das inscrições murais inorgânicas, apelidadas pejorativamente de "mijadelas de gatos", que pululam nas grandes cidades. Mas importa entender o quanto elas significam de afirmação identitária, de marcação de passagem, de "eu existo!", de afectividade, de demarcação de acontecimentos através do lugar. Através destas expressões culturais muitos jovens comunicam e partilham significados e experiências que dão um sentido às suas vidas. Algumas destas manifestações, poucas, acedem ao estatuto artístico, embora isso não seja o mais importante.

Para os autores destas linhas, independentemente do seu gosto, sensibilidade ou juízo estético, incomoda mais a arrogância de um poder que não escuta nem vislumbra, antes exclui, a inércia de um patrimonialismo conservador ou a obsessão pela sacrossanta propriedade privada, do que a ocupação das paredes pelos símbolos. Neles perdura porventura a esperança, decerto utópica, de que palavras e imagens proclamam através das paredes contra todas as paredes.

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