Um exemplo pernicioso de exercer crítica

Três álbuns que reflectem a tendência mais "folky" da editora de Manfred Eicher: poesia por um bardo, tango ambiental e uma voz grega sensual. Abertura a outras músicas que nem sempre é sinal de sucesso.

Durante os meus anos de estudante e a primeira fase da minha actividade universitária, que correspondeu a uma década de leccionação como assistente de um catedrático cuja estatura académica e personalidade humana muito me marcaram, Jacinto do Prado Coelho, o exercício da crítica era dominado pela intervenção semanal de João Gaspar Simões no "Diário de Notícias". Leitora interessada, docente jovem em busca de formação e de exemplos intelectuais, lia regularmente o que se designava por "crítica literária" nos quotidianos, ouvia as opiniões de colegas e de professores experientes e ajuizava dessa crítica pela leitura pessoal dos livros de que se ocupava e de um desenvolvimento que em mim própria se ia produzindo através do alargamento de conhecimentos e da investigação. E um conjunto de personalidades se definiu na circunstância literária desses tempos, dos quais saliento, como de muito mérito, Mário Sacramento e a sua crítica em jornais nortenhos (mais tarde reproduzida em "Ensaios de Domingo"), José Palla e Carmo e a sua crítica no "Jornal de Letras e Artes" dirigido por Azevedo Martins e, sobretudo, como exemplo maior, não só pela constância do exercício da actividade como pelo rigor do pensamento e pela análise adequada dos textos, Óscar Lopes e a sua actividade crítica, mantida durante décadas, em "O Comércio do Porto". Se eu queria escrever um trabalho sobre um escritor contemporâneo (e frequentemente o fazia), é certo e sabido que o meu ponto de partida era ir para a Biblioteca Nacional folhear "O Comércio do Porto" para nele procurar a coluna de Óscar Lopes e estudar as recensões que ele havia dedicado a tal escritor, que, era certo, me fornecia pistas de trabalho e orientava a minha leitura para vias afins ou até opostas à sua. Óscar Lopes, que muitos criticavam e podem criticar ainda pelo prejuízo ideológico com que julgava algumas das obras que considerava, era (e é) daqueles cuja perspectiva, mesmo que unívoca e por vezes doutrinariamente dirigida, adianta muito mais ao leitor na compreensão dos textos pela riqueza dos pontos de vista que propõe do que muitos que adoptam uma neutralidade incolor, desvitalizada e, por isso mesmo, não suscitadora do diálogo ou da reacção fecunda, em ideias e em argumentos, por parte de quem lê. Outro crítico ainda me fascinava (e fascinava a maioria), sem contudo exercer uma actividade regular em periódicos, mas com opinião e estudos constantes concretizados numa abundante produção ensaística e em escritos de ocasião e, completamente diferenciado da posição crítica de Óscar Lopes, seguramente com ele emparceirava no vigor e profundidade com que escrevia sobre literatura: refiro-me a David Mourão-Ferreira.Ora por entre estes vários vultos, a figura de João Gaspar Simões mantinha-se em actividade regular e intensiva, sim, mas apagava-se perante eles, quer pelo teor débil dos seus escritos quer pelo resultado inane do seu trabalho de análise. Que, deve dizer-se, em rigor não existia - nem trabalho, nem análise. A crítica de Gaspar Simões era uma crítica de opinião, vagamente formulada segundo preceitos presencistas já de si difusos (que na obra de um Régio se salvaguardavam pela criatividade e argúcia estética) e condicionada pela observância das regras impostas pelo regime salazarista, em relação às quais nem metaforicamente nem em perífrases procurava demarcar-se. A crítica de Gaspar Simões era uma leitura de textos de aproximação empírica, sem conceptualização, sem enquadramentos estéticos de referência que não fossem os da escola presencista que enquanto criador seguia, e o romancista de "Elói ou Romance Numa Cabeça" opinava de acordo com uma tradição historicista lansoniana já na época ultrapassada, ou segundo um gosto pessoal que muitas vezes acertava na validação das obras mas não adiantava nem um pouco para a compreensão do seu significado ou da sua construção. Falar de leitura, aliás, na obra de Gaspar Simões é um exagero, dado que em boa parte das suas recensões a livros se compreendia que não lera o livro na íntegra, ou mesmo que não passara do seu início, o que não o coibia de, nessas condições, em relação a ele se manifestar em pura rejeição ou mesmo em termos condenatórios. Nunca li um escrito de Gaspar Simões no qual o crítico manifestasse a busca do entendimento do texto, a preocupação em detectar-lhe o significado, a indagação quanto ao que as formas da escrita podem pressupor. E, se dizia bem, por vezes, de livros que realmente eram bons, a qualidade do juízo não era acompanhada por uma finura de análise ou por uma justeza de enquadramento literário - o que fazia com que ler Gaspar Simões fosse sempre, no máximo, duas coisas: primeiro, saber se ele dizia bem ou mal do escritor (porque para ele era muito mais o escritor que estava em causa do que o texto, imbuído de um biografismo impressionista e de um historicismo periodicista já serôdios na época, sem ter, efectivamente, uma noção da subjectividade da escrita - que Régio, por exemplo, possuía - e uma consciência da historicidade, dominado por factos, por períodos e por esteticismos de corrente e não de efeito); segundo, saber-se que um livro existia, mas ficar-se sem saber rigorosamente nada a seu respeito, porque o crítico escrevia sobretudo as suas opiniões sobre a literatura, por vezes completamente marginais, sem qualquer preocupação em propor uma descrição ou uma introdução ao estudo do livro de que em princípio se ocupava. Vão folhear o "Diário de Notícias" da época e verão!Fico impressionada quando, por vezes, nestes últimos anos, leio opiniões de escritores ou intelectuais que sublinham que, apesar de tudo, Gaspar Simões não era assim tão mau, porque conseguiu manter uma coluna de crítica regular durante décadas, porque falou de imensos livros, porque escreveu obras intermináveis sobre vultos importantes da nossa história literária (Eça, Pessoa) e coisas assim. Ora eu não penso que a regularidade, em si, seja uma razão de apreço intelectual, porque ela se pode aparentar à inércia rotineira ou ao pretexto de uma remuneração assegurada; além disso, falar de imensos livros não significa exactamente lê-los (e, no caso, não significava de certeza; e, quanto a isso, aprendi com os meus mestres para todo o sempre que falar em termos definitivos do que não se leu na íntegra é uma desonestidade intelectual); e, quanto aos volumes que Gaspar Simões dedicou a Eça e a Pessoa, por mim, não aprendi nada com eles. De modo que, do meu ponto de vista, aceitar a importância crítica de Gaspar Simões só porque ele escreveu todas as semanas durante muitos anos e hoje em dia ninguém faz isso, só me leva a ter consideração pelas pessoas que hoje assumem a responsabilidade de não conseguir responder a exigências de honestidade intelectual e de rigor crítico em termos de uma maratona só possível com batota ou com atalhos de corta-mato.Por tudo isto (que resumo: orientação crítica duvidosa; preceitos de beneplácito ou de rejeição sem a devida fundamentação de leitura; arrogância na atitude de aprovação ou condenação sem uma argumentação intelectualmente fundamentada) só posso dizer que a crítica desenvolvida por João Gaspar Simões nunca me ensinou nada (porventura por meu mal! e o erro será possivelmente meu, não enjeito a hipótese, já que não me movem intentos judicativos de monopolização da verdade!) e que o considero um exemplo pernicioso quanto ao modo de exercer crítica em Portugal.*Professora universitária, ensaísta e crítica literária

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