O porta-voz dos estudantes canadianos é o Cohn-Bendit do século XXI

Estudou num colégio privado e tem uma bolsa choruda. A sua primeira batalha é contra o aumento das propinas, mas a guerra é mesmo contra o sistema e as propostas neoliberais do Governo do Quebeque

Quem diria que uma luta contra o aumento das propinas podia assumir tamanha importância? A questão ameaça paralisar o estado canadiano do Quebeque e até há quem fale em eleições antecipadas. Rondas e rondas de negociações já falharam. No meio de tudo isto, uma figura sobressaiu: Gabriel Nadeau-Dubois, 21 anos, porta-voz da que é considerada a mais radical das associações de estudantes do estado.

O porta-voz tornou-se o assunto das notícias. Nas fotografias, Gabriel Nadeau-Dubois tem um ar de menino bem-comportado: o cabelo claro penteado para o lado, os fatos impecáveis. Quando começa a falar, no entanto, o discurso é forte: ele não quer só lutar contra o aumento das propinas. "Semeámos a semente de uma revolta que poderá não brotar já imediatamente", disse."Começámos a construir uma muralha contra a austeridade e as ideias neoliberais", garante, citado pelo Libération.

Nadeau-Dubois tornou-se omnipresente em capas de revista e talk-shows, para além de ser o protagonista em blogues e páginas no Facebook. Dá, diz o diário francês Libération, entre 10 a 30 entrevistas por dia. Esteve duas vezes num dos mais populares programas de televisão da província. A imprensa internacional ilustra as notícias sobre a greve dos estudantes com o seu rosto.

Gabriel Nadeau-Dubois relativiza tudo isto : "Aparecemos nos media porque temos coisas para dizer. A palavra que eu levo, a da CLASSE, é forte". A Coalition Large de l"Association pour une Solidarité Syndicale Étudiante (CLASSE) representa 70% dos estudantes do Quebeque que estão em greve há mais de 100 dias.

Durante a greve, a vida de Gabriel Nadeau-Dubois mudou de tal modo que o jovem deixou de viver o seu dia-a-dia normalmente. Na rua abordam-no para tirar fotos a seu lado e para o elogiar, ou então param-no para o criticar e questionar.

Ameaças de morte tornaram-se quase corriqueiras. Nadeau-Dubois apagou a sua conta no Facebook; mantém a do Twitter, onde recebe umas cinco ameaças por semana. Já não sai sem a companhia de três ou quatro "seguranças" - elementos do movimento estudantil "um pouco mais quadrados" do que ele, como os descreve.

As maratonas de negociações (a última foi na semana passada) que têm terminado sem acordo dizem respeito a um aumento do valor das propinas de 325 dólares canadianos (253 euros) extra por ano até 2016, quando o valor anual chegaria a 3800 dólares canadianos (quase 3000 euros). É o maior aumento de propinas da História do país, dizem os estudantes; é o menor valor em todo o Canadá, dizem as autoridades do estado.

Compromisso impossível

As propinas são a primeira batalha de Gabriel Nadeau-Dubois. Mas a guerra é contra o Governo e as ideias neoliberais. E aqui, terão sido as autoridades do Quebeque a facilitarem a visão de Nadeau-Dubois: quando tentaram dominar o movimento de protesto com uma lei que restringe a liberdade de manifestação, acabaram por o fortalecer. Com as limitações ao direito de protesto, as autoridades transformaram manifestações com estudantes por vezes violentos mas limitadas em número num grande movimento de contestação pacífico, que tem juntado milhares de pessoas.

"Esta luta não é estritamente de estudantes. É parte de uma luta mais alargada", disse Gabriel Nadeau-Dubois.

O diário francês Le Monde explica como a lei sobre as manifestações foi a gota de água que levou os cidadãos a tornarem visível um sentimento de desaprovação a um governo que muitos desconfiam ser corrupto e ter várias ligações duvidosas, no que parece ser um sistema de conluio do Partido Liberal com diferentes actores económicos. Há vários casos em tribunal; nada foi provado, mas a atmosfera de desconfiança prevalece.

A Lei 78 - que levou até à indignação a organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional - alargou assim a base de protesto, mesmo que antes muitas pessoas encarassem esta luta como a de um grupo de universitários preguiçosos que simplesmente não queriam pagar mais pelos estudos.

Os perfis na imprensa sublinham que Nadeau-Dubois está longe de ser um pobre estudante à beira do endividamento: estudou num liceu privado e ganhou uma bolsa choruda que lhe permite não ter de trabalhar durante o curso e, assim, dedicar-se ao activismo.

Por outro lado, nasceu e cresceu numa família de activistas: o pai era sindicalista, a mãe trabalhava a favor de trabalhadores feridos - os dois tinham-se conhecido quando lutavam no movimento estudantil do Quebeque. Nadeau-Dubois conta como desde cedo mergulhou num ambiente de reivindicação: "Desde os meus dois, três anos que ia a manifestações com o meu pai. Também fui a assembleias sindicais quando era novo. Era suposto fazer os trabalhos de casa, mas estava a ouvir".

O trabalho sindical não o distraiu da escola o suficiente para não ser um aluno de excelência: a bolsa que ganhou foi atribuída a meia-dúzia de alunos.Mas, em paralelo, envolveu-se na política estudantil, sendo eleito para vários cargos no liceu e no curso pré-universitário. Agora está no terceiro ano do curso de História, e até à greve sempre cumpriu a assiduidade a que está obrigado para não perder a bolsa.

Nadeau-Dubois é visto como líder, mas insiste que o seu cargo é o de porta-voz: "Não tenho poder de decisão e não o quero ter. Sou apenas uma correia de transmissão" da opinião dos elementos do CLASSE, uma organização que pratica a "democracia directa", inspirado nas assembleias dos movimentos Occupy.

Apesar de martelar na tecla do seu cargo oficial, o jovem não ignora que esta sua proeminência, demasiado parecida com uma figura de líder, causa urticária em algumas pessoas na organização. A questão "provocou muito debate" no movimento, reconheceu ao Guardian.

"Algumas pessoas dizem que ele é mais eloquente do que muitos ministros", comentou à AFP Antoine Robitaille, jornalista do diário Le Devoir. "Dir-se-ia que é um político nato, o mais Daniel Cohn-Bendit dos líderes estudantis", comenta, referindo-se à figura do Maio de 1968. "Claro, um Daniel Cohn-Bendit dos anos 2000, ele não apela directamente à revolução".

Mas Gabriel Nadeau-Dubois recusa esta ideia de que poderá vir a ser político, garantindo que isso é algo que não lhe interessa. "Acredito que todos os avanços políticos do Quebeque se fizeram através da mobilização dos movimentos sociais nas ruas."

Em relação à luta actual, o jovem traça já um balanço positivo. "Mesmo que a greve morra em Agosto, já ganhámos muito. Já ganhámos o facto de que uma geração inteira aprendeu agora o que é poder, o que é repressão, e o que é justiça social", disse.

Muitos estudantes estão, por causa da greve, a arriscar-se a perder o ano escolar - e Nadeau-Dubois pode não só a perder o ano, como a sua bolsa. "Os estudantes decidiram ir até ao fim, fazer o sacrifício que tem de ser feito para ter a certeza de que a educação é acessível a todos", disse ao jornal canadiano National Post.

Mas a luta já vai longa e isso tem os seus custos. "As pessoas a favor são muito emotivas e orgulhosas da sua posição, mas as pessoas que estão contra a greve querem o conflito resolvido e querem que os protestos acabarem, estão a começar a ficar muito zangadas e muito impacientes", disse, desta vez ao britânico The Guardian.

Uma destas pessoas zangadas poderá ser o estudante Jean François Morasse, que pôs Nadeau-Dubois em tribunal por este encorajar os estudantes a ignorar uma ordem do tribunal que permitira a outros alunos que discordam com a greve, como Morasse, regressar às aulas. Nadeau-Dubois disse, na altura, que era legítimo que os estudantes-contestatários formassem piquetes para impedir os outros estudantes de regressar às aulas.

"Temos de nos preocupar quando alguém diz: "Houve uma decisão legal mas esta não me foi favorável, por isso não a vou respeitar". Esse é o princípio da anarquia", defendeu o advogado de acusação, Roy Martel.

Gabriel Nadeau-Dubois tinha ainda criticado os estudantes que procuravam obter estas autorizações judiciais como alunos com pais suficientemente ricos para ir a tribunal que desafiavam assim a opinião maioritária dos estudantes, que é favorável à greve. Tinha-se referido ao primeiro estudante que conseguiu uma destas autorizações do tribunal como "um idiota".

O porta-voz criticou a "veemência com que o outro lado" sugere uma pena de prisão. "Vamos esperar que este não seja um ajuste de contas político, isso seria muito triste", declarou, à saída do tribunal.

Quando questionado sobre a reacção dos seus pais à sua proeminência, é este aspecto de que Gabriel Nadeau-Dubois fala. "Estão chocados e preocupados com os meus problemas judiciais", diz.

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