Seiva Trupe pode não conseguir pagar dívida do Teatro do Campo Alegre

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A Seiva Trupe ainda tem de pagar até ao final de 2014 dívida à Fundação que gere o teatro paulo ricca

Cortes nos apoios da Secretaria de Estado da Cultura obrigaram a redução forte no orçamento da companhia, que, apesar de ter reduzido as despesas, foi obrigada a atrasar pagamento de salários

A Seiva Trupe já começou a pagar à Fundação Ciência e Desenvolvimento (FCD) a dívida de cerca de 50 mil euros, que, segundo um acordo aprovado pela Câmara do Porto, deverá ser saldada em 36 prestações. Desde Dezembro que a companhia teatral entrega 2200 euros à FCD, para se manter no Teatro do Campo Alegre, mas António Reis diz que "a muito breve trecho" poderá entrar em incumprimento.

"Vamos resistir até quando pudermos", diz ao PÚBLICO António Reis, da Seiva Trupe, admitindo que o dia-a-dia não tem sido fácil. "Quando aceitamos o acordo ainda não se tinha concretizado o corte de 38% [no financiamento da Secretaria de Estado da Cultura]. Vamos ter um encargo anual de mais de 25 mil euros só para a fundação, o que pesa muito no orçamento. Temos a noção exacta que não temos dinheiro, temos dívidas, e há-de chegar o momento em que diremos que não temos dinheiro para pagar", explica.

A companhia já está a sentir na pele o peso provocado pelo pagamento da dívida à FCD, associado a uma redução do orçamento anual de 292 mil para 181 mil euros. António Reis diz que houve cortes em todas as comunicações móveis, revisão de seguros e o fim de todas as avenças. Vencimentos em atraso "para o núcleo base da companhia" também já são uma realidade, para além dos cortes salariais que aplicaram a si próprios. "Quando recebemos a primeira tranche [de apoio], em Março, eu e o Júlio Cardoso já tínhamos o salário em atraso dos meses de Janeiro e Fevereiro", diz.

Mesmo assim, o que sobra para a programação anual não vai além dos 20 mil euros. Uma verba que obriga a cortes no número de representações e nas peças escolhidas. "O nosso programa não era este. Acabámos uma peça com quatro actores, estamos a ensaiar uma outra comigo e outro actor e teremos uma outra com três actores. As que estavam previstas tinham elencos de nove e 12 actores", admite.

A Seiva Trupe tem um protocolo de ocupação do Teatro do Campo Alegre até ao final de 2014, prorrogável por prazos sucessivos de cinco anos. A serem cumpridas escrupulosamente, as 36 prestações terminarão sensivelmente no final de 2014, mas em caso de incumprimento, a companhia perde o direito a continuar no teatro. "Acredito que ninguém nos vai pôr fora se falharmos pontualmente", começa por dizer António Reis, mas logo a seguir, pára e recomeça: "Já nem sei se é assim. Não nos atrevemos a isso". A manterem-se as condições actuais, o futuro não parece promissor. "Temos de ser claros. Se a situação com a Secretaria de Estado da Cultura se mantiver como está nós acabamos. Nós e todos os outros", afirma.

António Reis lembra que a Seiva Trupe fará 40 anos em 2013 e lamenta a ausência de apoio da Câmara do Porto, apesar de continuar a acreditar no interesse do município em manter a companhia no Campo Alegre. "No país, há outros contratos parecidos de companhias residentes que recebem dinheiro para estarem no espaço que ocupam. Nós, para continuarmos neste espaço que ajudamos a construir, pagamos", diz, acrescentando: "A Seiva Trupe com este executivo nunca teve um euro de apoio, teve foi problemas. Há estruturas que através da Porto Lazer têm tido algum apoio. Nós fizemos várias propostas, mas nada".

A adenda ao contrato entre a Seiva Trupe e a FCD, que descreve o reconhecimento e pagamento da dívida de 50 mil euros, foi aprovada na reunião do executivo camarário de 13 de Dezembro, com os votos favoráveis da maioria PSD/CDS-PP e do PS e a abstenção da CDU. Apesar de não se oporem à medida, os dois partidos da oposição defenderam que o município deveria apoiar a Seiva Trupe, sugerindo mesmo que o pagamento mensal de 2200 euros fosse transformado nesse apoio.

António Reis admite que até hoje a Seiva Trupe "não fez nada" junto da câmara para perceber se seria possível avançar para uma solução desse género. Contudo, com as dificuldades a avolumarem-se, admite fazê-lo, e deixa um apelo. "Gostaríamos muito que a oposição voltasse à carga e que dissesse à câmara que sabem que estamos a cumprir o acordo, mas que a muito breve trecho teremos muitas dificuldades em continuar a fazê-lo", diz.

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