Cinema Batalha classificado como monumento de interesse público

Edifício do arquitecto Artur Andrade foi considerado património nacional. Mas o cinema continua fechado e a degradar-se. "Quem classifica tem obrigação de cuidar do seu uso", reclama a proprietária

Depois do Teatro Nacional São João e do Coliseu, o Cinema Batalha é a terceira casa de espectáculos do Porto a ser objecto de classificação patrimonial nacional. O edifício projectado pelo arquitecto Artur Andrade (1913-2005) e inaugurado em 1947 foi classificado como "monumento de interesse público" na sequência de um despacho ainda assinado, a 24 de Outubro, pelo anterior secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, e ontem publicado em Diário da República.

Esta classificação vem salvaguardar de vez a integridade deste edifício, no qual é de realçar, segundo se lê na portaria da classificação, "uma expressão plástica e arquitectónica de audaz modernidade". Mas não altera, no imediato, o processo de degradação a que tem estado sujeito o antigo cinema da Baixa da cidade, encerrado desde o final de 2010 após uma inconsequente tentativa de reanimação pela mão do Gabinete Comércio Vivo.

"A classificação era uma necessidade, já que se trata de uma peça de arquitectura contemporânea da maior importância", comenta Alexandre Alves Costa. Mas o arquitecto e cinéfilo, cuja vida praticamente acompanhou a do Cinema Batalha, não deixa de manifestar também preocupação quanto ao destino do imóvel. "Se a classificação me deixa muito satisfeito, ela não me deixa descansado: não vale de muito classificar uma obra como de interesse público, se ela depois continuar fechada, vazia e em ruína", como está a acontecer com o Batalha.

E Alves Costa estabelece um paralelismo com dois outros casos de classificação patrimonial no Grande Porto, e que tiveram destinos diferentes: o Coliseu, que depois de salvaguardado encontrou um rumo e manteve o seu lugar no roteiro da cultura e lazer da cidade; e a Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira, uma das primeiras obras de Álvaro Siza, que encerrou menos de um ano após ter sido considerada monumento nacional e se encontra agora em mau estado de conservação. "Podemos vê-la, mas não podemos ir lá tomar um café", lamenta.

Margarida Neves, da família proprietária do Cinema Batalha, mostrou-se ontem "surpreendida" com a notícia da classificação. Não que não a esperasse, já que sabia que o processo estava a decorrer, "mas costuma durar mais tempo". Margarida Neves é bisneta de Manuel da Silva Neves, o empresário que no final do séc. XIX fundou a firma Neves & Pascaud para a construção do Teatro de Carlos Alberto, e que posteriormente deu também origem ao Salão-Jardim Trindade (1913) e ao Salão High-Life (1906), estando este na origem do Batalha. A proprietária vê esta classificação com grande apreensão. "Não faz muito sentido que um edifício seja classificado e fique vazio. Já se sabe que funcionar como cinema não é viável, é preciso arranjar um projecto que caiba lá dentro", diz Margarida Neves, adiantando que lhe têm sido apresentados vários cenários de utilização do edifício, mas que "esbarram sempre com qualquer coisa". E acrescenta esperar que a classificação diga apenas respeito "à fachada". "É que ninguém vai arriscar um projecto em que sabe que vai perder dinheiro". Margarida Neves reivindica "uma melhor solução" para o Batalha, pois acha que "quem classifica tem obrigação de cuidar também do uso e do futuro do edifício".

Alexandre Alves Costa, que considera que o futuro do Batalha deve continuar a passar pelo cinema, chama igualmente a atenção para esta situação. "É preciso que a cidade, a sociedade civil, ou quem tenha responsabilidades públicas faça um esforço para dar vida ao edifício".

Antes da actual classificação nacional, o Cinema Batalha tinha sido já objecto de classificação como Imóvel de Interesse Concelhio na década de 1990.

Comentários

Os comentários a este artigo estão fechados. Saiba porquê.

Nos Blogues