Robotarium tinha vidros à prova de bala mas não resistiu ao vandalismo

A primeira estrutura do género dedicada à robótica e com tecnologia similar à da NASA, desenvolvida com o apoio de fundos comunitários, mora em Alverca, mas está ao abandono

O Robotarium foi inaugurado há quase cinco anos num novo jardim dos arredores de Alverca. O projecto, do artista plástico Leonel Moura, consiste numa grande estrutura envidraçada, tipo aquário, onde foram colocadas quatro dezenas de robots que, alimentados por pequenos painéis solares, reagiam e movimentavam-se com a aproximação de visitantes. O Robotarium está desactivado e abandonado há mais de três anos, porque se sucederam os actos de vandalismo, que até envolveram disparos de armas de fogo sobre os vidros à prova de bala.

As marcas de tiros e pedras ainda são bem visíveis no Robotarium, instalado no Jardim Central do Bom Sucesso (bairro dos arredores de Alverca com cerca de sete mil habitantes). Para evitar mais prejuízos, os robots foram retirados e estão em recuperação no atelier de Leonel Moura. Mas as várias tentativas da Câmara de Vila Franca de Xira para reconstituir o projecto num local mais protegido não têm sido bem sucedidas.

O arquitecto e artista plástico admite que já se sabia que o Robotarium ia ser instalado numa zona socialmente problemática e "potencialmente hostil". Mas Leonel Moura acredita que, ultrapassada esta fase de crise económica, há-de ser encontrada uma solução para colocar o Robotarium num local "mais seguro". Já fez entretanto um "Robotarium portátil", que tem circulado pelas principais cidades brasileiras, e sente que a sua ideia, original, é conhecida um pouco por todo o mundo, como ainda aconteceu recentemente em Moscovo. Há também ideias para fazer outros "robotariuns", designadamente no Algarve.

"Sou sempre muito positivo. Não estou nada arrependido que o primeiro Robotarium tenha sido instalado naquele local. Estou muito agradecido à Câmara de Vila Franca de Xira e à presidente da câmara, que recebeu muito bem quando lhe expliquei a ideia. Mas estas ideias inovadoras às vezes são difíceis de ser entendidas por pessoas que não percebem muito bem do que se trata", reconhece. Desenvolvido em parceria com a empresa de robótica IDMind, o Robotarium envolveu um investimento na ordem dos cem mil euros, comparticipado por fundos comunitários do Proqual (Programa de Requalificação Urbana).

O projecto incluía uma estrutura de aço e vidro com cerca de três metros de altura, um espaço explicativo das questões da robótica e cerca de 40 robots com as mais variadas formas, desde os que se assemelham a insectos e a animais de pequeno porte aos que mais parecem flores, bolas ou carrinhos. Usam tecnologia semelhante aos dos seus congéneres da NASA (agência espacial norte-americana) e pretendiam, através deste novo tipo de arte, despertar a atenção e estimular para as questões da ciência e da tecnologia.

Robots em reparação

O Robotarium de Alverca foi inaugurado a 1 de Junho de 2007, mas pouco tempo depois começou a ser alvo dos mais variados actos de vandalismo, desde tiros a pedradas nos vidros, passando por tentativas de arrombamento da porta de acesso. A Câmara de Vila Franca ainda tentou envolver mais a PSP na segurança do jardim, e alguns idosos locais num programa de manutenção e vigilância, mas nada impediu que os actos de vandalismo prosseguissem. Já em 2009, os robots foram retirados. Alguns já estavam avariados, porque os danos causados proporcionaram a entrada de água da chuva e receou- -se também que acabassem por ser objecto de furto.

"É uma zona problemática de Alverca, em que jovens que não têm nada para fazer se entretêm a partir coisas. São situações que não são nada agradáveis, mas é o que acontece. Estávamos na esperança de que, tendo o jardim outras componentes, escolas próximas, um bar, se criasse ali um ambiente favorável e que o Robotarium também criasse uma certa animação. Mas há uma tendência, não só em Alverca ou em Portugal, mas no mundo, dos jovens para expressar a sua raiva da pior maneira", lamenta o autor.

De qualquer forma, o projecto já antevia dificuldades e, por isso, foi delineado com vidros à prova de bala, hoje em boa parte rachados ou marcados por tiros e pedradas. "Foi concebido para resistir ao vandalismo", explica o artista plástico. Mas, mesmo assim, todas as cautelas não foram suficientes. "Acabámos por ter de retirar os robots todos para os limpar e também porque entrou água e alguns ficaram avariados", acrescenta Leonel Moura.

No Jardim Central do Bom Sucesso, a estrutura pintada de amarelo do Robotarium não passa despercebida, mas muitos não sabem sequer do que se trata, até porque já não tem robots há bastante tempo. O funcionário da cafetaria vizinha admite que só percebeu do que se tratava porque teve a curiosidade de ler a placa descritiva ali existente. Uma funcionária do Centro de Apoio Social do Bom Sucesso e Arcena (Casba), localizado nas proximidades, diz que já ouviu falar no Robotarium, mas que nunca o viu a funcionar. O mesmo dizem alguns alunos das escolas vizinhas.

Oposição quer medidas

"O Robatarium custou cerca de cem mil euros, foi um grande investimento. Gastou-se ali muito dinheiro, mas foi alvo de vandalismo. Agora, nada se sabe sobre o que vai ser o futuro do Robotarium. Está abandonada a ideia de o ter em funcionamento, vai ser deixado com aquele aspecto de abandono?", questionou o vereador Nuno Libório, na última sessão camarária, frisando que o actual estado põe em causa a imagem da autarquia. "A questão é o que é que se vai fazer com uma coisa que custou cem mil euros?", prosseguiu o autarca da CDU, criticando também alguns "problemas" de manutenção do jardim central.

A presidente da autarquia de Vila Franca, Maria da Luz Rosinha, reconheceu que o Robotarium "foi alvo de sucessivos actos de vandalismo" e de "tentativas de roubo", que só não causaram problemas mais graves porque os vidros são à prova de bala. A partir de certa altura, explicou a eleita socialista, decidiu-se procurar alternativas para colocar o Robotarium num local "mais reservado e seguro". Começou por ser abordada a Fundação Cebi, com um centro comunitário muito amplo na parte central da cidade de Alverca. "Estava interessada, num primeiro momento disse que sim, mas concluiu-se que a reparação e a mudança custariam cerca de 70 mil euros. E eles disseram que, assim, não podiam", observou a autarca, frisando que, posteriormente, a questão foi abordada com o Casba, que tem instalações paredes- -meias com o jardim onde ainda está instalado o Robotarium.

A ideia será articular o espaço de divulgação da robótica com a instituição social, criando uma campânula ou uma malha de rede que proteja mais a estrutura e não permita actos de vandalismo. "É um assunto que está a ser analisado. Lamento que a nossa população mais jovem não tenha conseguido perceber a importância destas coisas", rematou Maria da Luz Rosinha, admitindo que actos do mesmo género se vão sucedendo em vários equipamentos públicos e que não se sabe "quando nem como" será possível ter uma solução para o Robotarium.

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