O que é que os turistas querem?

Escolhem Portugal por causa do clima e do preço. Vêm a dois e preferem ficar parados do que andar de mochila às costas. Um retrato dos viajantes que chegam do estrangeiro, num momento em que o país cada vez mais precisa deles

Descansam à sombra de uma árvore, no Castelo de S. Jorge, num dia que acordou em modo de Verão na capital. Charles e Lydia, um casal britânico com pouco mais de 50 anos, estão em Lisboa pela primeira vez. Em Portugal, é já a terceira. Começaram por testar o Algarve, no final dos anos 90. Gostaram e voltaram à região mais a sul do país alguns anos mais tarde. Desta vez, arrependeram-se de não terem repetido a dose, por causa do aumento súbito de temperatura que se fez sentir na semana passada, mas dizem-se surpreendidos com "a História que a cidade tem para contar".

Todos os anos, entram nos hotéis nacionais mais de um milhão de turistas vindos do Reino Unido. É o maior mercado emissor para Portugal, seguido de Espanha. Com a retracção no consumo interno, fruto da perda de rendimentos e das incertezas em relação ao evoluir da actual instabilidade económica, é à procura internacional que o sector do turismo agora se agarra, sobretudo da que chega dos chamados emergentes, como é o caso do Brasil. Num dos maiores atractivos históricos de Lisboa, esta miscelânea salta à vista.

Um grupo de italianos percorre o castelo, acompanhado por um guia. Há espanhóis um pouco por todo o lado. E uma família de brasileiros (pai e filho empunhando a bandeira na T-shirt) está de saída. Um dos membros do clã veio trabalhar para a capital, já lá vão quatro anos. Foi a oportunidade perfeita para cruzarem o Atlântico, sem gastarem dinheiro na estadia. No ano passado, o número de hóspedes provenientes do Brasil cresceu 22,6%, colocando o país no top 5 dos principais mercados emissores.

Um estudo do Turismo de Portugal, realizado em Março com base em entrevistas a pessoas de sete nacionalidades diferentes, mostra bem a heterogeneidade dos visitantes que chegam a Portugal vindos do Reino Unido, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Brasil e Irlanda - os principais mercados emissores de turistas (faltando apenas a Itália, os EUA e a Bélgica para completar o ranking dos dez países que mais hóspedes geram em território nacional). Em 2011, as sete origens analisadas no relatório foram responsáveis por 5,4 milhões de entradas nos hotéis portugueses, ou seja, 73% do total de clientes estrangeiros.

Apesar das diferenças entre eles, há uma espinha dorsal que acompanha o perfil destes turistas. Por exemplo, o facto de se concluir que escolhem o destino Portugal especialmente por causa do clima e da paisagem. Os irlandeses são os que mais têm em conta este factor - de acordo com o inquérito, 77% admitem que estas características pesaram na sua escolha. O mesmo acontece com a grande maioria dos holandeses (76%).

Só há dois casos em que outros dois critérios têm maior poder de influência. Para os espanhóis, o preço da viagem ou o facto de terem conseguido aproveitar uma campanha promocional falou mais alto para 52% dos inquiridos e a proximidade ao país, que acaba por estar ligada às despesas a suportar com as férias, foi importante para outros 66%. Já os turistas que chegam do Brasil são mais sugestionados pelas recomendações das famílias e amigos (63%) do que pelo clima (apenas 41%).

O melhor e o pior do país

Mas, antes de chegarem a esta análise mais pormenorizada dos prós e contras do destino, há um rastilho que os leva a considerar esta opção. Um terço lembra-se do país por causa de informações que encontrou na Internet. As conversas com turistas que já se tenham deslocado a território nacional também têm um papel importante, surgindo em segundo lugar na lista de impulsionadores da viagem, com uma incidência de 25%. Logo a seguir aparecem as promoções das agências de viagens (17%) e, na última posição, as campanhas de publicidade (2%) e as notícias, filmes ou documentários sobre Portugal (1%).

Este estudo, que já vai na terceira edição, mostra também que deixam o país satisfeitos com a escolha que fizeram. A grande maioria dos inquiridos (88%) faz um balanço muito positivo das férias em Portugal, sendo que 40% dizem mesmo que ficaram acima das expectativas. E, por isso, 87% ponderam voltar (sendo que 42% destes asseguram que o farão "de certeza"). Há, porém, uma franja que, embora pequena, não partilha da mesma opinião. Da amostra, composta por 600 visitantes, 1% ficou desiludido com o que encontrou e 13% referiram que provavelmente não regressarão a território nacional.

Há diferentes factores que contribuem para uma avaliação mais positiva ou mais negativa do país. De entre os pontos que mais satisfação geraram encontram-se as paisagens (92%), as praias (91%) e a simpatia da população local (87%). Por outro lado, o custo de vida e a qualidade dos serviços de saúde não agradaram a todos, reunindo o agrado de menos de metade dos inquiridos. A par da informação turística e da preservação ambiental estas foram as questões que mais ficaram abaixo das expectativas.

Talvez por isso os visitantes apontem a redução de preços, o reforço das informações em língua estrangeira e uma maior conservação dos edifícios como problemas a melhorar pelo país, para aumentar os níveis de satisfação dos que escolhem o destino Portugal. A estes critérios somam-se ainda a redução da poluição, a crise económica e melhorias nas redes de transportes públicos. Houve, porém, uma parte que considerou que nada há a mudar. Para 24% dos turistas que responderam ao inquérito, realizado entre 10 e 25 de Março de 2012, "está tudo bem" em Portugal.

Uma análise mais detalhada ao perfil destes visitantes mostra que se repartem, quase de igual forma, pelo sexo masculino e feminino, embora haja uma prevalência maior de homens (55%). Uma característica que salta à vista é o facto de quase metade ter mais de 45 anos. Aliás, 24% dos inquiridos tinham inclusivamente mais de 55 e apenas 6% menos de 24. São maioritariamente pessoas qualificadas, sendo que 54% têm curso universitário.

Quando escolhem Portugal, fazem-no para passar férias. Só em 10% dos casos a opção é feita por outros motivos, seja negócios ou saúde, por exemplo. E para mais de 50% é a primeira vez em Portugal, com destaque para os alemães e os brasileiros, em que a incidência da estreia é de 74 e 67%, respectivamente. Os ingleses fogem à regra. Para 66% dos turistas que chegam do Reino Unido, o destino é repetido. Analisando o número de vezes em que estiverem no país nos últimos três anos, o resultado médio é de 3,2. Mas apenas 5% dizem já ter visitado o território nacional mais de dez vezes.

Turistas "estacionados"

Outro dado curioso é o facto de viajarem sobretudo em casal, já que é o que acontece em 56% dos casos. Neste ponto, os britânicos também se destacam, chegando aos 66%. Os restantes 44% vieram em grupo, sendo que aqui o protagonismo vai para os espanhóis e para os holandeses (59% dos turistas destes dois países escolheram deslocar-se deste modo). Quando chegam, ficam uma média de 6,3 noites, que cresce para 8,8 no que diz respeito aos brasileiros e para 4,1 aos espanhóis, provavelmente por questões relacionadas com a distância geográfica.

Os turistas que visitam Portugal são essencialmente estacionários. Ou seja, escolhem uma zona do país para visitar e por lá ficam durante todo o período de férias. De acordo com o estudo, é isso que acontece em 82% dos casos, sendo que aumenta para 89% quando se trata de viajantes que chegam da Alemanha. Só uma pequena fatia dos inquiridos (18%) faz circuitos, que envolvem conhecer diferentes localidades. Os brasileiros são os mais activos neste campo, com 46% dos inquiridos desta nacionalidade a afirmarem que preferem saltar de região em região.

Uma análise geográfica às escolhas destes turistas mostra que Lisboa e Porto são as regiões que mais visitam. A capital destaca-se, com 56% dos viajantes a indicar que por lá passaram durante as férias em território nacional. Esta opção é mais evidente no caso dos espanhóis e dos holandeses, já que, no que diz respeito a estes visitantes, a cidade reúne 77 e 74% das preferências, respectivamente.

Há, porém, outras duas nacionalidades que se sentem muito mais atraídas pelo Algarve. Tanto os turistas do Reino Unido, como da Irlanda colocam esta região no topo das prioridades, sendo que 54 e 48% dos inquiridos dizem ter por lá passado, ultrapassando os 35 e 27% que estiveram na capital. Já o Porto é mais visitado pelos franceses (42%) e pelos brasileiros (36%). E a linha de Cascais atrai mais os holandeses (36%). As regiões que menos despertam o interesse destes viajantes são o Alentejo, Braga e Coimbra, conclui-se no estudo.

A grande maioria destes turistas (78%) fica alojada em hotéis, aparthotéis e pousadas, com maior prevalências para os espanhóis, para os quais este tipo de estabelecimentos representa 85% das escolhas. Ficar em casa de familiares e amigos aparece como a segunda opção, embora a uma distância considerável, representando apenas 10% das opções desta amostra. Na terceira posição surgem os apartamentos e as moradias alugadas, com 7%. Neste caso, os ingleses estão em destaque, já que 17% dizem preferir esta solução. O turismo rural parece ter pouca adesão, assim como o campismo, pesando apenas 1 e 0,1%, respectivamente.

Estes dados, que reflectem o perfil-tipo dos viajantes estrangeiros que escolhem Portugal para passar férias, são relevantes num momento que o país está muito dependente dos mercados externos para fazer crescer o sector. Apesar dos aumentos globais nas dormidas e nas receitas turísticas em 2011, os primeiros meses deste ano mostram já algum abrandamento, provocado pela instabilidade económica que vivem no seu próprio território.

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