Douro mostra-se em Bordéus

O Douro foi a Bordéus com uma exposição de fotografia que pretende ir para lá do postal turístico e mostrar olhares contemporâneos sobre a região. Oportunidade para ver como os franceses promovem o vinho e, com ele, uma forma de vida

São dez da noite e numa das principais praças da cidade francesa de Bordéus, ao lado da catedral, dois rapazes e uma rapariga param junto a uns cubos iluminados colocados no chão e olham atentamente para as fotos no interior daqueles.

Os cubos projectam um outro mundo: uma menina de vestido de veludo preto que é a filha do guarda da Quinta do Toiro, no Douro; uma moldura com um retrato antigo, a preto e branco, de Maria Francisca de Freitas Branco, antiga proprietária de vinhas em Armamar; um porco pendurado num matadouro; o interior de velhas casas senhoriais; os jovens que estudam na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

É o mundo do Douro, para lá dos socalcos cheios de vinhas, que veio agora (de 9 a 16 de Maio) mostrar-se a Bordéus, através do olhar de quatro fotógrafas portuguesas: Inês d"Orey fotografou as indústrias; Céu Guarda, os estudantes universitários em "Na Vida Real"; Luísa Ferreira foi em busca dos "Territórios do Prazer"; e Pauliana Valente Pimentel procurou as "Ferreirinhas", as mulheres que fazem o Douro de hoje. A estes olhares contemporâneos somam-se, nesta exposição, as imagens do Douro antigo, a preto e branco, por Domingos Alvão (do Fundo da Colecção Fotografia Alvão).

O projecto Entre Margens, pensado para três anos (de 2011 a 2013), é da Procur.arte, de Nuno Ricou Salgado, que o apresentou ao Museu do Douro, que aderiu imediatamente. "A ideia é criar uma nova leitura do território a partir da imagem", explica o produtor cultural, num café de Bordéus. Vem de Lisboa, tem sotaque brasileiro, e, diz, é talvez por ser alguém claramente exterior ao universo do Douro que conseguiu pôr o projecto em andamento, associando, para já, seis municípios (Porto, Vila Real, Lamego, Mirandela, Peso da Régua e Santa Marta de Penaguião).

As fotógrafas foram convidadas em 2011, e os seus trabalhos já foram mostrados no Douro, antes desta exposição em Bordéus, que coincidiu com a Fête de l"Europe, organizada com a Maison d"Europe. Neste momento, andam pelo Douro dois outros fotógrafos - Paulo Catrica e Nelson d"Aires - cujos trabalhos vão ser mostrados na região a partir de Junho, assim como os de 12 fotógrafos locais que estão a participar numa masterclass da Kameraphoto.

Nuno acredita que este é um caminho importante. "O público do enoturismo é mais atento à cultura, mais propenso a alguma contemporaneidade, e pode-se trabalhar isto. O projecto tem uma lógica de criar valor, massa crítica no Douro." O que lhe parece é que ainda "falta uma visão estratégica global".

Vinho é território

Mas as coisas começam a mudar, garante Fernando Seara, director do Museu do Douro, em Bordéus para a inauguração da exposição. "Começa a haver uma estratégia comum, não a dispersão de acções, mas um esforço para nos centrarmos em eventos que achamos que podem potenciar a divulgação da região."

E se o mundo das vinhas e das quintas do Douro aparece nos cubos luminosos que estão no centro de Bordéus, o dos estudantes da universidade de Vila Real também lá está, e tem, sem dúvida, menos glamour. "Esta exposição não é exactamente o que as pessoas estavam à espera, não é o postal ilustrado", reconhece Seara. "Esperamos que resulte, embora tenhamos algumas dúvidas sobre o impacto que possa causar."

Alguns presidentes de câmara - e estavam em Bordéus os de Vila Real, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio - preferiam ver imagens mais turísticas, que atraíssem visitantes. Mas a ideia de Nuno Salgado é precisamente a de fugir à estratégia turística, àquilo que já se conhece da região e que levou a UNESCO a reconhecê-la como Património da Humanidade, e criar arte contemporânea no Douro.

Manuel Cabral concorda que isso é necessário, até porque "quem anda pela região aos fins-de-semana encontra pouco que fazer". Fundamental, na opinião do presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), é começar a promover o Douro com base no vinho mas para além deste - como fizeram os franceses com Bordéus. "Há um erro muitas vezes cometido: promove-se apenas o vinho. E o vinho tem uma ligação óbvia à terra. Temos de ser capazes de fazer essa ligação entre o vinho e um território que é construído pelos homens - e aí podemos aprender com os franceses."

Como? "Veja por exemplo o trabalho que a Câmara do Comércio e Indústria e a Câmara de Bordéus têm feito quando levam os vinhos à China. Eles não vendem vinho, vendem uma ideia de Europa, de luxo, de art de vivre, que é muito mais do que o vinho. Se o território tem um valor, temos de ser capazes de o adicionar ao produto. E nós ainda não fazemos bem esse trabalho."

E se o Douro pode aprender com o exemplo francês, vamos tentar perceber como faz Bordéus. "A nossa estratégia passa muito pela rede de cidades geminadas, como é o caso do Porto", diz Laurent Viguié, director-geral de relações internacionais da Câmara de Bordéus. E, de facto, o Porto é o convidado de honra da Fête de L"Europe em Bordéus, onde inaugurou também uma exposição sobre a obra do arquitecto Eduardo Souto de Moura. Mas, sublinha Viguié, Bordéus trabalha para lá do vinho, promovendo ao mesmo tempo "a gastronomia, a arte de viver, o património, a mobilidade urbana, com a rede de metro/eléctrico que quando foi criada, em 2003, era única no mundo e atraiu muitos visitantes".

Quanto ao vinho, a grande preocupação hoje é "dá-lo a conhecer de forma mais pormenorizada". Trabalhando com produtores e comerciantes, a cidade organiza cada dois anos uma festa do vinho, a Vinexpo, e leva o vinho ao estrangeiro, nomeadamente ao cada vez mais importante mercado chinês. "As pessoas conhecem o vinho de Bordéus, mas queremos que conheçam os vinhos de Bordéus. Temos mais de cinco mil châteaux, 11 mil marcas, há toda uma pedagogia a fazer", diz Viguié.

No Douro, as mudanças já começaram, insiste Fernando Seara. "O museu está a criar rotas culturais. As pessoas que visitam o Porto - que é já uma cidade de excelência para ser visitada - subiam ao Douro mas acabavam por se perder um pouco e não saber o que visitar. O que falta é agrupar a informação num sítio em que as pessoas possam saber o que há e escolher a sua própria rota." Até agora - e desde os últimos dez anos -, explica, "o turismo desenvolveu-se no Douro muito sediado nas quintas, que todos os dias abrem as suas portas a quem nos visita, e aí está a excelência e a diferenciação".

Falta também, reconhece, outro tipo de oferta hoteleira. Mas acredita que não será por muito tempo. "Os novos albergues, as guest houses que já existem nas grandes cidades, vão chegar também ao Douro. Não sabemos muito bem quando, mas é um negócio que deve estar a aparecer." O que o museu pode fazer é tentar unir o território - como Nuno Salgado está a fazer com o Entre Margens, que, para além das exposições de fotografia, leva aos municípios que aderiram uma programação de cineconcertos, música, teatro, dança e debates. O Museu do Douro está, por seu lado, a trabalhar na criação de núcleos - o do pão e vinho em Favais vai ser inaugurado em breve, e em Freixo de Espada à Cinta está a ser criado um, da seda, a partir de uma antiga fábrica.

Há muitas oportunidades, frisa Manuel Cabral, do IVDP. "Fui recentemente a um debate sobre empreededorismo na Universidade de Trás-os-Montes e está-se a pensar em imensas coisas fora do vinho. Mas a UNESCO vem dizer que somos especiais por causa do vinho, e nós andamos à procura de outras coisas para fazer? À volta do vinho há tanto para fazer - percursos pedestres, um melhor serviço nos restaurantes, conhecermos o produto e sabermos como deve ser servido. O que eu digo é: vamos manter esta especificidade porque é o que nos dá carácter, e cada vez mais as pessoas querem ir para locais onde encontrem identidade e carácter."

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