Uma Mannschaft que até já sabe divertir

A Alemanha, o primeiro adversário de Portugal no Euro 2012, é uma equipa cada vez mais multicultural, que alia à tradicional solidez germânica um novo toque de fantasia. O ataque é poderoso, a defesa vacila

Gente com currículo e com responsabilidade faz questão de o dizer: "Esta é a melhor selecção de todos os tempos" (Franz Beckenbauer); "Chegou o momento de voltar a dar um título à Alemanha. Somos favoritos. Actualmente temos a melhor equipa e os jogadores têm de o demonstrar" (Berti Vogts). Mais do que moderar o entusiasmo, a resposta do seleccionador Joachim Low ("Não me estejam sempre a falar do título. Queremos ser campeões, mas não queremos jogar sob pressão. Queremos jogar um futebol moderno e atraente. Esse é um critério importante para mim") acaba, sim, por acrescentar algo raro à habitual ambição germânica: a Alemanha quer ganhar... e a jogar bem.

Joachim Low tem 52 anos e começou por ser visto como um treinador teórico e culto. A carreira discreta como jogador (era médio de ataque) foi interrompida por uma fractura do perónio e da tíbia. Tirou o curso na Suíça, começando, em 2004, por ser adjunto de Jurgen Klinsmann na selecção principal. Hoje percebe-se que funcionou, na sombra, como ideólogo do antigo avançado. Em Julho de 2006, Low passou a responsável principal. Aproveitando um conjunto cada vez mais multicultural, bem como uma nova geração de jogadores talentosos, foi moldando a selecção à sua ideia de jogo. Isso viu-se no anterior Europeu, em que a Mannschaft só foi batida na final, e na África do Sul, de onde regressou com a medalha de bronze.

Mas a evolução prosseguiu nos últimos dois anos. Se até ao último Mundial se via uma Alemanha capaz de investir quase sempre nas transições ofensivas, hoje observa-se uma equipa com um reportório muito mais vasto e exigente: posse e passes curtos, trocas posicionais. Houve também ganhos em termos de profundidade ofensiva. Quem vê hoje a Alemanha não pode deixar de pensar no Barcelona e na Espanha. Low não o desmente: "Sinto o futebol de Espanha como algo próximo." Há um novo estilo nesta Alemanha, um poder de diversão que não se lhe via pelo menos desde 1972, quando uma geração de ouro ganhou tudo o que havia para ganhar.

Na fase de apuramento, impôs a sua categoria à Turquia, Bélgica e Áustria. Foi o ataque mais fecundo (34 golos), mas a sua defesa foi batida por sete vezes e alvo de algumas críticas.

Estratégia

A Alemanha surge desenhada em 4x2x3x1. No duplo pivot há sempre um médio mais posicional e outro mais móvel. O modelo assenta no toque e na posse de bola. Muitas vezes, a saída de bola é através dos centrais. É equipa de ideias claras e com executantes que procuram sempre dominar o jogo, começando a construir de zonas recuadas. Nos últimos 30 metros, o seu jogo ganha normalmente intensidade e velocidade, apresentando combinações variadas, para o que são relevantes as diagonais de fora para dentro de Müller. É uma equipa com excelentes lançadores e muito forte nos remates de meia distância. Marca muito bem os cantos, mas também sofre com eles. Apesar da altura elevada dos seus jogadores, a sua defesa zonal nem sempre funciona da melhor forma.

Defesa

Transferido do Schalke 04 para o Bayern, Neuer (25 anos; 1,92m) é um dos melhores guarda-redes do mundo. Tem excelentes reflexos e é muito forte entre os postes. Aqui e ali comete um erro grave. O capitão Lahm (28; 1,70) é defesa-direito no Bayern, mas Low já assumiu que o vai fazer regressar à esquerda por falta de soluções credíveis para o lugar e (dizemos nós) para que seja o poderoso Boateng (23; 1,90) a lidar com Cristiano Ronaldo. Boateng é um central adaptado, muito forte fisicamente, mas tecnicamente limitado. Raramente subirá no corredor, ao contrário de Lahm. Low disse estar ainda hesitante entre Bender (23; 1,83), que é médio, tudo porque o primeiro abandonou a concentração para uma saída nocturna. No centro da defesa é garantido que alinhará Badstuber (23; 1,89), um canhoto do Bayern. Não é muito rápido. Ao seu lado deverá surgir Hummels (23; 1,91), do Borusia Dortmund. É já um dos melhores centrais do mundo, embora por vezes ceda o lugar a Mertesacker (27; 1,95).

Meio-campo

Se estiver bem fisicamente, o médio mais fixo será o experiente Schweisteiger (27; 1,80), que ainda representa o estilo anterior da Alemanha, feito de físico e frieza. Reconvertido a médio-defensivo, soube adaptar-se bem aos novos tempos. Se o jogador do Bayern não estiver nas melhores condições, será Khedira (24; 1,89) a desempenhar o papel. Nesse caso, o médio mais móvel passará a ser Kroos (22; 1,80), um jovem que se transformou num centrocampista com visão de jogo e bom remate.

A segunda linha no miolo é formada por Müller (22; 1,86), Ozil (23; 1,80) e Podolski (27; 1,75). O primeiro joga numa posição mais central no Bayern, mas Low quer que ele parta da direita para depois poder surgir em terrenos mais interiores. Não é muito elegante, mas tem boa técnica e sentido de baliza. No lado contrário surge Podolski, mais potente e mais vertical. O seu lugar na selecção poder vir a ser-lhe roubado por Schurrle (21; 1,83), um jovem talentoso que despontou no Bayer Leverkusen e que tem a vantagem de disparar bem com ambos os pés. Müller e Podolski estão habituados a recuar quando a equipa perde a bola, fazendo com que a Alemanha nesses momentos se apresente em 4x4x1x1.

Ozil é o terceiro elemento do meio-campo, mas alguém com alma de avançado. Low diz que ele e Khedira ganharam em auto-estima e responsabilidade desde que passaram a trabalhar com Mourinho em Madrid. Ele é o grande talento desta geração, alguém capaz de inventar sempre uma linha de passe com o seu magnífico pé esquerdo. A sua alternativa é o ainda mais novo Mario Gotze (20; 1,76), que se tem fartado de fazer diabruras em Dortmund. Esteve seis meses lesionado e é também uma alternativa a Müller.

Ataque

Mario Gómez (26; 1,89) acabou por se impor ao veterano Miroslav Klose (1,84), o grande goleador alemão dos últimos anos. O avançado da Lazio, que completa precisamente hoje 34 anos, apontou 63 golos em 114 internacionalizações. Ambos são exímios a jogar no limite do fora-de-jogo.

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