"Dia de Raiva" não chegou a Trípoli mas abalou a Líbia

Na capital houve desfiles de apoio a Khadafi. Noutras cidades, confrontos violentos. Desde quarta-feira, há registo de uma dezena de mortos

O regime de Muammar Khadafi bem se esforçou por diminuir o impacto do "Dia de Raiva", convocado para ontem: organizou manifestações de apoio ao líder, em Trípoli e noutras cidades, e anunciou "grandes mudanças", incluindo a nível do Governo. Mas se na capital evitou os protestos, noutros locais não controlou a situação e as informações divulgadas por fontes oposicionistas dão conta da morte de pelo menos dez pessoas desde quarta-feira à noite, em acções de protesto em Bengasi e Al Beyida.

Depois de notícias dispersas sobre contestação e confrontos que foram sendo conhecidas ao longo do dia, ontem à noite ouviram-se tiros em Bengasi. "Ouvimos disparos em alguns lugares", disse à AFP Ramadhan Briki, redactor-chefe do jornal líbio Quryna, com sede naquela que é a segunda cidade do país. "Não sabemos se há mortos ou não", acrescentou. O jornal divulgou no seu site que manifestantes incendiaram ao início da noite um posto de polícia.

Já antes se sabia que os protestos mais sangrentos ocorreram em Bengasi, mil quilómetros a leste de Trípoli. Nos "confrontos violentos" que desde quarta-feira à noite opuseram forças de segurança e manifestantes foram mortas seis pessoas e 35 ficaram feridas, divulgaram os sites de oposição Al Youm e Al-Manara, baseados no estrangeiro. Advogados que se manifestaram frente ao tribunal reclamaram uma Constituição para o país.

Na noite anterior, de terça para quarta-feira, quando começaram as acções de protesto contra Khadafi, os confrontos na cidade portuária, de forte tradição oposicionista, tinham causado 38 feridos.

Sites ligados à oposição informaram que pelo menos quatro pessoas morreram nos últimos dois dias na cidade de Al Beyida, 200 quilómetros a leste de Bengasi. "As forças de segurança e milícias dos comités revolucionários dispersaram, usando balas reais, uma manifestação pacífica de jovens", fazendo "pelo menos quatro mortos e vários feridos", indicou um comunicado do Libya Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos, com sede em Londres, citado pela AFP.

Um residente que não quis ser identificado disse à Reuters que 15 pessoas ficaram ontem feridas em confrontos entre familiares de dois homens mortos na véspera e defensores do regime, após o funeral. "A situação ainda está complicada", referiu num contacto telefónico. "Os jovens não querem ouvir o que os mais velhos dizem."

O Quryna, tido como próximo de Seif al-Islam, filho de Khadafi, referiu dois mortos em Al Beyida e noticiou que o responsável local dos serviços de segurança foi afastado depois da morte dos manifestantes. Carros de polícia e de particulares foram incendiados. Vídeos colocados na Internet mostram jovens cantando - "O povo quer derrubar o regime"-, ao mesmo tempo que se vêem viaturas a arder, sem que se perceba a presença de forças de segurança.

O jornal noticiou também manifestações violentas em Zenten, 145 quilómetros a sudoeste de Trípoli. Foram presas várias pessoas, entre as quais dois tunisinos, e incendiados um posto de polícia, o tribunal, os postos da segurança interna e da guarda popular, além de uma sede dos comités revolucionários. Fonte médica referiu que não houve mortos, mas nada esclareceu sobre feridos. Informações não confirmadas dizem que os contestatários entoaram gritos de "Vencer ou morrer".

Bem diferente foi o dia de ontem em Trípoli, onde os apelos a um "Dia de Raiva", semelhantes aos que têm provocado levantamentos noutros países da região, e que levaram ao derrube dos ditadores na Tunísia e no Egipto, não tiveram repercussão visível.

Pelo contrário. Uma manifestação na Praça Verde, no centro da cidade, reuniu milhares de apoiantes de Khadafi. "Khadafi, o pai do povo", "Nós defendemos Khadafi", "A multidão apoia a revolução e o líder", lia-se em cartazes empunhados por manifestantes.

Linhas vermelhas

"Há uma manifestação pró-regime no centro de Trípoli. Fora dessa área não há absolutamente nada", disse ontem à tarde ao PÚBLICO o embaixador português, Rui Lopes Aleixo. A segurança foi levemente reforçada na capital e a circulação automóvel fez-se com fluidez. Imagens da televisão estatal têm também mostrado desde quarta-feira manifestações pró-regime em Bengasi, Syrte, no Leste, e Sebha, no Sul.

O menor fulgor dos protestos na capital pode ter a ver com a especificidade líbia, como defendem alguns analistas, ou com medidas proactivas adoptadas pelo regime. Ontem, segundo a Reuters, foi anunciada uma reunião do Parlamento para a próxima semana, para aprovar "grandes mudanças", incluindo a nível governamental.

A organização Human Rights Watch divulgou que as autoridades detiveram 14 activistas e escritores que estariam a preparar protestos antigovernamentais. A Reuters noticiou que as comunicações telefónicas para algumas regiões estiveram indisponíveis e a AFP referiu que, na noite de quarta-feira, mensagens por telemóvel enviadas por "jovens da Líbia" advertiam os que se "atrevessem a tocar" nas quatro linhas vermelhas definidas pelo líder em 2007: o islão, a segurança do país, a integridade territorial e Muammar Khadafi.

A mesma agência noticiou que os comités revolucionários em que o regime assenta preveniram que não permitirão "o saque das conquistas do povo e ameaças à segurança dos cidadãos e à estabilidade do país".

Mustafa Fetouri, analista político e professor universitário em Trípoli, manifestou à Reuters a opinião de que não haverá mudanças significativas na Líbia. "Não vejo a [agitação] espalhar-se... Khadafi continua a ser muito respeitado."

Bem diferente é o entendimento de Moncef Djaziri, investigador da Universidade de Lausanne, que ontem dizia ao diário francês Le Monde que o movimento de protesto "não vai ficar por aqui".

A União Europeia, o Reino Unido e organizações como a Amnistia já pediram que fosse evitado o recurso à força e os EUA pediram a Trípoli medidas "que respondam às aspirações, às necessidades e às esperanças" do povo.

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