A grande oportunidade de Portugal empurrar a Alemanha para fora do Euro

O jogo de hoje, que marca o arranque da prova versão Ucrânia, não decide nada, mas pode encaminhar tudo. "Eu acredito", diz Cristiano Ronaldo, que deverá ter a companhia de Nani

Mesmo em nítida desigualdade perante a força da marca Ronaldo, foi de Paulo Bento a frase que melhor ilustrou o que vai estar em jogo esta noite, quando Alemanha e Portugal se encontrarem na Arena Lviv, na Ucrânia. "Será das poucas actividades em que os portugueses podem competir com os alemães. Esta partida não irá resolver os problemas do país, mas temos a ambição de começar bem o Campeonato da Europa." Foi das poucas vezes em que o seleccionador português conseguiu sobressair na conferência de imprensa. O resto foi Cristiano Ronaldo, independentemente do tema.

A questão não é, nunca foi, o que é que a selecção pode fazer pelo capitão português, mas o que pode a grande estrela deste Euro 2012 (pelo menos no arranque da prova) fazer pela selecção. Para já, pode gabar-se de ter 90 internacionalizações no currículo, com 32 golos pelo meio. E de estar hoje mais maduro do que nunca, até na forma como lida com os desafios: "A Alemanha é um candidato a ganhar o Europeu. Não tem pontos fracos. É uma equipa muito consistente, que sabe o que tem de fazer", analisou, quando confrontado com o favoritismo germânico.

De resto, Ronaldo aproveitou o mote para insistir na ideia de que o estatuto de outsider pode funcionar a favor de Portugal - "Temos menos pressão" - e para, cautelosamente, ir trocando o verbo conseguir por acreditar. "Eu acredito." Que a selecção pode vencer a Alemanha. Que pode ir longe no torneio. "Em 2004 perdemos na final, em 2008 fizemos uma grande campanha mas não conseguimos. Quem sabe se pode ser este ano... Eu acredito."

O facto de chegar a esta fase final num supermomento de forma (é também o jogador da selecção com mais minutos jogados no clube em 2011-12: 4870), na sequência de uma época em que bateu recordes pelo e com o Real Madrid, não conta muito (já lemos esta história noutras grandes provas e o resultado não foi famoso) e é o próprio que faz questão de refrear as expectativas: "Sinto-me preparado, mas não sou salvador da pátria."

Certo é que será Ronaldo o principal argumento ofensivo da selecção no braço-de-ferro com uma defesa alemã que até tem sido permeável nos jogos mais recentes com Portugal: nos últimos três confrontos (2008, 2006 e 2000), Mertesacker e companhia foram batidos por seis vezes. Resta saber se contará com a preciosa ajuda de Nani no flanco contrário. O jogador do Manchester United voltou ontem a treinar-se sem limitações, já no estádio que hoje se apresenta à Europa do futebol, mas Paulo Bento manteve o tradicional tabu. Regras do jogo.

Boomerang de elogios

"O Nani treinou-se, irá fazer o treino e depois iremos avaliar a sua condição. Veio de alguns dias de paragem, com uma lesão num sítio onde já tinha tido problemas. Após o treino veremos como está", vincou o seleccionador. Pelas indicações que tem dado nas sessões de trabalho, é muito provável que o extremo alinhe mesmo de início, ficando por saber quem se juntará a Raul Meireles e João Moutinho para fechar o tridente menos ofensivo do meio-campo. Custódio ou Miguel Veloso? "Não tenho dúvida nenhuma sobre quem vai jogar", atira Paulo Bento. Até à hora do jogo, o país continuará a ter.

Assistir ao lançamento de um Alemanha-Portugal, que será apitado pelo francês Stépahne Lannoy (a equipa de arbitragem da UEFA viajou ontem para Lviv no mesmo avião que o PÚBLICO) é como assistir a um jogo de pingue-pongue entre cavalheiros. Ora elogio eu, ora elogias tu. Elogia quem sabe: "Em nenhum momento do jogo a Alemanha tem debilidades. Mas é muito forte quando ganha a bola e sai para o ataque. Tem jogadores que, através do passe e da condução de bola, saem com precisão. Ocupa os corredores de forma correcta. Chega a zonas de finalização de forma muito rápida."

Este é o minirraios X de Paulo Bento à selecção que mais títulos tem na história da prova (três, em 1972, 1980 e 1996). Joachim Löw, homólogo alemão que hoje cumpre o 80.º jogo à frente da Mannschaft, responde na mesma moeda: "Portugal é uma equipa que pode vencer qualquer adversário. Tem grandes jogadores em grandes clubes. Há muitos anos que participa em fases finais. Portugal tem muita qualidade técnica e pode fazer transições defesa-ataque muito depressa." E para finalizar: "Para um país pequeno, é interessante tanta qualidade de jogadores."

A verdade é que a Alemanha também não está nada mal servida de mão-de-obra. À qualidade e experiência de jogadores como Phillipp Lahm (86 internacionalizações) ou Miroslav Klose (116 e 63 golos), dois dos seis com experiência em Europeus, junta-se o talento de Mesut Özil ou Thomas Müller, para falar nos casos mais evidentes. E depois há outra fornada emergente: "Há nove jogadores que ainda não participaram num torneio destes. Temos uma equipa jovem. Mas a juventude e a dinâmica são grandes qualidades", completa o técnico alemão.

Por isso mesmo, deverá manter no onze a espinha dorsal do Bayern Munique, fórmula com a qual se tem dado bem. A pergunta de um milhão de dólares aponta para o eixo do ataque: Mario Gómez ou Miroslav Klose? O primeiro seria a opção mais evidente, até porque foi o segundo melhor marcador da Liga dos Campeões e atravessa um bom momento, mas Löw tem dado a entender que o perfil de Klose poderá ser o mais indicado. A titularidade seria uma boa prenda para o avançado da Lazio no dia em que celebra o 34.º aniversário - é, de longe, o mais velho dos 46 jogadores com interesses em jogo esta noite.

Klose conhece como poucos ambientes como este. E ainda sabe como poucos procurar espaços nas costas dos defesas. Foi com o seu contributo que a Alemanha completou os últimos anos de uma carreira europeia ímpar: é a selecção com mais presenças em fases finais de Europeus, 11, todas consecutivas (de 1972 até 2012).

Jogue quem jogar, vai inevitavelmente fazer pender a balança para um dos lados. Em Campeonatos da Europa, Portugal e Alemanha defrontaram-se três vezes, sempre com desfechos diferentes: em 1984, em Estrasburgo, deu 0-0; em 2000, em Roterdão, Sérgio Conceição fez um hat-trick (3-0); em 2008, em Basileia, Klose ajudou com um golo ao 3-2 a favor dos germânicos. O equilíbrio é total, o respeito também. De volta a Ronaldo: "O empate não seria um mau resultado, mas entraremos para ganhar."

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