Primeira aventura de Astérix já pode ser lida em mirandês

Lançamento hoje
em Lisboa

Abraracourcix
é Regidorix e o bardo
passa a chamar-se Cantadorix. Os cães não fazem "ão ão" ou "béu béu", mas "gau gau"

"Estes romanos stan boubos, por Toutatis", diria Obélix, se vivesse em Miranda do Corvo e fosse um dos 10 a 12 mil cidadãos que se estima que falam mirandês naquela região do Nordeste português. É a pensar neles que as Edições Asa decidiram editar o álbum Asterix L Goulés (Astérix, o Gaulês), edição naquela língua da primeira aventura do herói criado por Albert Uderzo (desenho) e René Gosciny (texto).
Para participar no lançamento, que decorre ao fim da tarde de hoje (18h30) em Lisboa (El Corte Inglês), actuam os Pauliteiros de Miranda. A edição é de quatro mil exemplares, dos quais três mil certificados com selo branco e numerados, para distribuição em todo o território nacional.
A ideia de traduzir para mirandês as aventuras de Astérix começou a ser estudada no final dos anos 90 pela Meribérica-Liber, à data o editor português desta banda desenhada. Mas foi só há cerca de um ano, quando as Edições Asa adquiriram os direitos de publicação da série em Portugal, que o projecto ganhou forma. Maria José Pereira, directora editorial da divisão de banda desenhada daquela editora, reconhece que o mercado natural deste álbum - claramente assumido como uma iniciativa de prestígio - é reduzido: "É uma edição arriscada do ponto de vista comercial." Conta com o entusiasmo dos milhares de coleccionadores e adeptos da série, que não vão "perder a oportunidade de adquirir uma edição tão especial".
O lançamento desta BD enquadra-se na política de edição de aventuras de Astérix em línguas e dialectos minoritários (e também em línguas mortas, como é o caso do latim), levada a cabo em vários países - só em 2004, por exemplo, por ocasião dos 45 anos de existência da série, o álbum Astérix et La Rentrée Gauloise foi publicado em seis línguas regionais: picardo, gallo, alsaciano, bretão, occitano e corso. Chegou agora a vez da segunda língua oficialmente reconhecida em Portugal.
"Portugal foi dos primeiros países do mundo a traduzir Astérix. Porque não haveríamos de editá-lo agora em mirandês?", interroga-se Maria José Pereira, que gostaria de ver um dia toda a obra de Uderzo e Gosciny traduzida nesta língua. Asterix L Goulés constitui, assim, uma oportunidade de "dar notoriedade tanto ao personagem como à língua e é um bom meio de divulgação de uma cultura local". É esta também a opinião de Amadeu Ferreira, que procedeu à tradução da obra em colaboração com Domingos Raposo e Carlos Ferreira, ambos professores de mirandês: "É um grande contributo para a afirmação da língua no contexto nacional e mundial, até porque vai integrar a listagem das 110 línguas em que Astérix já foi traduzido; por outro lado, é mais um livro ao dispor das crianças, que podem desde pequenos ganhar gosto pela língua mirandesa."
Aquele especialista em Direito e grande defensor do mirandês admite que a tradução da história "foi um grande divertimento". A equipa traduziu a obra directamente da versão original, em francês, e teve de adaptar alguns nomes (excepto o nome das personagens principais), situações e até onomatopeias. "Essa foi a parte mais complicada porque tivemos de auscultar o som das coisas, uma pedra que cai, um martelo a bater numa bigorna, um grito", explica. O latir de um cão, por exemplo, que em português se identifica como "béu béu" ou "ão ão", em mirandês foi reproduzido como "gau gau".
Nos nomes reside talvez a grande inovação deste trabalho. Longe de se ficar por uma mera tradução, Amadeu Ferreira explica que foram estudadas as características dos personagens e adaptadas ao contexto mirandês. "Por exemplo, no caso do chefe da tribo dos gauleses nós demos-lhe o nome de Regidorix, que vem de regedor, o homem que mandava lá na aldeia. Ao bardo chamamos Cantadorix, por andar sempre a cantar", exemplifica. com Ana Fragoso

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