As linhas da liberdade

Até que se pudesse gritar "Vitória!" no Largo do Carmo, em Lisboa, as voltas e os caminhos que a Revolução tomou foram muitos. Uns previsíveis (e planeados), outros nem tanto. Quando se comemoraram os 25 anos do 25 de Abril, em 1999, o ex-jornalista do PÚBLICO Adelino Gomes (um dos repórteres de Abril) trabalhou num suplemento, onde para além de uma notável reconstituição dos factos dos dias quentes da Revolução se revelaram os soldados da coluna de Salgueiro Maia que derrubaram a ditadura. Nessa altura, o PÚBLICO proporcionou o reencontro em Lisboa da maioria desses 240 militares, que fizeram parte da coluna que rumou a Lisboa para derrubar o regime. Fomos ao arquivo rever esse trabalho e demos-lhe outra vida, actualizando dados recentemente vindos a lume, outra vez pela mão de Adelino Gomes e agora também pela objectiva de Alfredo Cunha, um dos fotógrafos de Abril. É o caso da descoberta do cabo apontador que recusou "dar fogo" contra os tanques dos revoltosos na Rua do Arsenal. Chama-se José Alves Costa e foi um dos muitos protagonistas destas linhas da liberdade.

Dia 23

Dia 24

Dia 25

Dia 26

Dia 27

11h00

Chegada do mensageiro

Chegada a Santarém do capitão Candeias Valente, oficial do Movimento dos Capitães, portador da ordem de operações para a EPC. Candeias liga para casa do tenente Ribeiro Sardinha, a informar que já estava na cidade, na Pastelaria Bijou. Sardinha contacta, como combinado, Salgueiro Maia.

11h30

Na Pastelaria Bijou

O capitão Salgueiro Maia desloca-se à Pastelaria Bijou, no Largo do Seminário, em Santarém, para se encontrar com Candeias Valente para receber a ordem de operações.

11h45

PIDE vigia

Na viatura de Salgueiro Maia, estacionada no exterior da EPC, junto ao Jardim da República, é entregue a ordem de operações e são acertados alguns pormenores. Uma viatura da PIDE/DGS ronda a zona e segue o capitão à distância.

08h30

Contactos

Os oficiais da EPC iniciam nas paradas, no maior sigilo, os contactos com a cerca de meia centena de graduados, dando-lhes conta de que se a senha E Depois do Adeus, e a contra-senha Grândola, Vila Morena, fossem para o ar, a operação decorreria na madrugada do dia 25 de Abril - Dia D. Apenas seis oficiais milicianos e três furriéis milicianos estavam, até essa altura, ao corrente da preparação do golpe.

11h30

Consulta

Saída para Lisboa do comandante da EPC, coronel Augusto Laje, para ir a uma consulta médica.

13h30

Render da parada

Render da parada na EPC. Entra de oficial de dia à unidade, o tenente miliciano Sousa e Silva.

14h00

Sem missão

O tenente Ribeiro Sardinha, que tinha por missão "vigiar" o comandante da EPC, constata não poder vir a cumprir a missão, por ausência do vigiado.

17h00

Comando

Toca à ordem na EPC. Os tenentes Balula Cid, Ramos Cadete e Silva Aparício saem da EPC e dirigem-se ao RC7 e PM, em Lisboa, com a missão de "controlar" - "aliciar" alguns oficiais e tentar "inoperacionalizar" algumas viaturas blindadas destes regimentos.

17h30

Material

Os graduados milicianos da EPC ultimam os preparativos para a operação, designadamente quanto a material e equipamentos.

21h30

Desfardados

Fecho da porta de armas na EPC. Os militares contactados fazem a sua entrada trajando à civil, para não aguçar ainda mais a curiosidade dos elementos da PIDE/DGS.

21h45

Mudança

O tenente miliciano Sousa e Silva, oficial de dia à unidade, é substituído pelo capitão tirocinante Pedro Aguiar, para poder tomar parte na operação.

22h00

Ponto da situação

O capitão Salgueiro Maia, que irá comandar a coluna militar da EPC, na operação Fim Regime, dá início a um ponto da situação para dar a conhecer a ordem de operações, distribuir missões e definir detalhes para o desencadear da operação.

22h30

Segurança

É montada segurança reforçada à EPC, incluindo rondas.

22h50

Ansiedade

Nos quartos, preparam-se os rádios para sintonizar os Emissores Associados de Lisboa (EAL), onde, se tudo estiver a "correr bem", João Paulo Diniz irá pôr a tocar o E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, senha da operação Fim Regime.

22h55

Frenesim

Os EAL transmitem a canção E Depois do Adeus. É o frenesim. A senha significava que, até àquele momento, nada obstava ao avanço da operação em todo o país.

"E Depois do Adeus", Paulo de Carvalho

23h00

Substituição

No destacamento militar da EPC, onde funcionavam três esquadrões de instrução do CSM, o oficial de dia ao destacamento, alferes miliciano Óscar David, é substituído pelo capitão tirocinante Tavares Martins, para ficar liberto para tomar parte da operação.

23h25

Segundo-comandante

O capitão Garcia Correia chega à porta de armas da EPC, acompanhado do segundo-comandante, tenente-coronel Henrique Sanches, que nessa noite havia convidado para jantar em sua casa, para o aliciar para o Movimento, tarefa que se veio a revelar infrutífera. O segundo-comandante da EPC, ao constatar que o oficial de dia à unidade já não é o mesmo, dá ordens ao capitão Aguiar para que tire imediatamente o braçal. Não é obedecido. O episódio decorre sob o olhar do capitão Correia Bernardo, oficial da EPC do Movimento, que tinha mandado fazer a troca de oficiais de dia.

23h30

Reunião

O segundo-comandante da EPC convoca para o seu gabinete o major Costa Ferreira, o capitão Garcia Correia, o capitão Correia Bernardo, o capitão Pedro Aguiar, e o tenente Ribeiro Sardinha. O segundo-comandante tenta demover os presentes da acção a empreender. Os oficiais presentes reafirmam a sua determinação e informam o segundo-comandante que todos os oficiais presentes nessa noite na EPC aderiram ao Movimento. O segundo-comandante pede para esses oficiais irem ao seu gabinete.

23h55

À espera

Aguarda-se ansiosamente que a Rádio Renascença ponha no ar a contra-senha da operação.

00h05

Corte

Um corte de energia interrompe a emissão da Rádio Renascença.

00h10

Recomeço

Retomada a emissão normal na Rádio Renascença, emissora que iria emitir o sinal de arranque.

00h20

Senha

Leite de Vasconcelos põe no ar o Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, no programa Limite. A contra-senha era o sinal para se avançar para a execução da operação Fim Regime. Pela primeira vez, os contactos vão deixar de ser feitos clandestinamente.

Leite de Vasconcelos lê na RR as primeiras estrofes de "Grândola Vila Morena" (Reportagem de Pedro Laranjeira)

00h30

Surpresa

Reunião do segundo-comandante com os oficiais da EPC aderentes ao Movimento, que enchem por completo o gabinete. O seu elevado número apanha de surpresa o segundo-comandante, que insiste em não querer aderir.

00h45

Tempo urge

O capitão Salgueiro Maia propõe que se acabe a reunião, pois ainda há muita coisa a fazer e não se pode perder mais tempo.

01h00

Novo comando

O major Rui Costa Ferreira, como oficial de patente mais elevada, pertencente ao Movimento, assume o comando da unidade.

01h15

Instruções

Os comandantes dos esquadrões de Atiradores, capitão Tavares de Almeida, e Reconhecimento Blindado, tenente Santos Silva, reúnem-se com os seus graduados.

01h30

Despertar

O capitão Salgueiro Maia manda acordar todo o pessoal da EPC e formar na parada Môngua.

01h45

Explicações

Os comandantes de cada esquadrão falam aos seus homens e explicam-lhes o que se está a passar; o capitão Salgueiro Maia, que comanda o Esquadrão Instrução, reúne-se no Anfiteatro General Ribeiro de Carvalho com os cadetes do Curso de Oficiais Milicianos e os instruendos do Curso de Sargentos Milicianos.

02h00

Adesão

Todos os militares, particularmente os milicianos em instrução, aderem ao Movimento e querem seguir para Lisboa. A dificuldade é que entre os cerca de 800 homens da EPC só podem ir perto de 240 na coluna.

03h00

Tudo pronto

A coluna militar da EPC está pronta para partir e dar início à Operação Fim Regime.

Os 25 veículos da coluna militar da EPC

03h15

Da janela

O tenente-coronel Henrique Sanches, até então segundo-comandante da EPC, assiste, da janela do seu gabinete, na companhia do capitão Garcia Correia (encarregue de o vigiar) ao ultimar da preparação e à saída das tropas para Lisboa.

03h20

Sobre rodas

A força militar da Escola Prática de Cavalaria – dez viaturas blindadas, 12 viaturas de transporte de tropas, duas ambulâncias, um jipe (do comando) e uma viatura civil, com três oficiais milicianos, a abrir o caminho – arranca em direcção a Lisboa.

03h59

RTP tomada

Coluna comandada pelo Capitão Teófilo Bento entra na RTP, no Lumiar, ocupa as instalações depois de desarmar os guardas da PSP, e monta o dispositivo de defesa. Teófilo Bento comunica para o PC: "Acabamos de ocupar MÓNACO sem incidentes".

04h00

Aviso

PSP e DGS são avisados que devem retirar em torno da RTP, como não obedecem, é dada a ordem para efectuar rajadas de G3 para ao ar. A PSP retira.

04h30

Rádio Clube Português

Primeiro comunicado do MFA com leitura de Joaquim Furtado.

"Aqui, posto do comando do Movimento da Forças Armadas"

05h00

Em Lisboa

Após uma viagem sem problemas, a coluna da EPC passa na portagem da auto-estrada em Sacavém.

05h15

Semáforos

A coluna chega ao Campo Grande e pára nos semáforos do cruzamento da Cidade Universitária. O capitão Salgueiro Maia, irritado com o ridículo da situação, manda avançar e dá ordem para não haver mais paragens até ao Terreiro do Paço.

05h30

Polícia de choque

No cruzamento da Av. Fontes Pereira de Melo com a Avenida António Augusto de Aguiar, os militares EPC deparam-se com uma força da polícia de choque que se afasta à passagem da coluna militar.

05h45

No Terreiro do Paço

A coluna ocupa o Terreiro do Paço, local onde se encontram tropas da Polícia Militar a guardar os vários ministérios ali instalados.

06h00

Em posição

Os militares da EPC cercam os ministérios, a Câmara Municipal de Lisboa o Governo Civil (acessos), o Banco de Portugal, a Rádio Marconi e outros pontos estratégicos da Baixa lisboeta, isolando a zona. Através da rede rádio, é comunicado por "maior de Charlie Oito [Salgueiro Maia]" ao Posto de Comando: "Ocupámos Toledo [Terreiro do Paço] e controlamos Bruxelas e Viena [Banco de Portugal e Rádio Marconi]."

06h20

Adversários

Chega ao Terreiro do Paço um pelotão reforçado AML/Chaimite, do Regimento de Cavalaria 7, comandado pelo alferes miliciano David e Silva.

06h30

Rendição

David e Silva, após breve conversa com o capitão Salgueiro Maia, coloca a sua força às ordens do Movimento.

Militares da EPC e da primeira força do RC7, que já aderiu Alfredo Cunha

06h45

Marcelo

Por volta desta hora sabe-se no Posto de Comando da Pontinha que Marcelo Caetano se encontra refugiado no Quartel do Carmo, onde funciona o Comando Geral da Guarda Nacional Republicana.

06h45

Uma calma aparente

Cais do Sodré Alfredo Cunha

07h00

Rendições

Os oficiais da Polícia Militar que se encontram no Terreiro do Paço põem-se às ordens do capitão Salgueiro Maia. O comandante da 1.ª Divisão da PSP, o tristemente célebre capitão Maltez, também se colocou às ordens de Maia, recebendo instruções para orientar e desviar o trânsito para o Rossio e montar o dispositivo de alteração de tráfego em toda a Baixa lisboeta.

07h30

Mais adversários

Chega à Ribeira das Naus uma força de Reconhecimento Panhard, do Regimento de Cavalaria 7, comandada pelo tenente-coronel Ferrand de Almeida.

08h00

Mais rendições

Rendição do tenente-coronel Ferrand de Almeida, que não se consegue fazer obedecer pelos seus subordinados. Após breves conversações, é preso e desarmado por Salgueiro Maia.

08h15

GNR tenta

Uma força da GNR (do Quartel do Carmo) toma posição no Campo das Cebolas. A tentativa é envolver as forças da EPC a partir daquele ponto. Saíram do Carmo 12 Land Rover que desceram até à Praça da Figueira e atingiram o seu objectivo através da Rua da Madalena.

08h20

GNR desiste

Os GNR tentam uma penetração até ao Terreiro do Paço, pela Rua da Alfândega, mas, após um breve diálogo com Salgueiro Maia, o comandante da força é convencido a abandonar o local, pois a disparidade de meios não lhe dá qualquer hipótese.

08h30

PSP

Uma força da PSP chega ao Terreiro do Paço, vinda de Santa Apolónia. Também não tenta sequer entrar em confronto com as tropas de Salgueiro Maia.

Graduado da PSP coloca-se às ordens do capitão Salgueiro Maia Alfredo Cunha

09h00

Fragata ameaça

A fragata Gago Coutinho é deslocada para o local por ordem do Governo, e inicia manobras em frente ao Terreiro do Paço. O vaso de guerra terá chegado a receber ordem do vice-chefe do Estado-Maior da Armada "para se preparar para abrir fogo". A ordem de disparar nunca chegou.

"A fragata está disposta a fazer fogo"
Fragata F-743 em frente ao Terreiro do Paço Alfredo Cunha

09h15

Reforço

Uma força da EPC, com uma AML e uma ETI/Panhard, comandadas pelo alferes Sequeira Marcelino e pelo aspirante Pedro Ricciardi, vão reforçar o cerco ao Quartel-General da Região Militar de Lisboa, em São Sebastião da Pedreira.

09h35

Chegam M47

Chegam à zona do Terreiro do Paço quatro carros de combate M47, sob o comando do brigadeiro Junqueira dos Reis. A partir do Largo do Corpo Santo, dois M47 entram pela Ribeira das Naus e outros dois pela Rua do Arsenal.

09h40

Ministros fogem

Os ministros da Defesa, da Informação e Turismo, do Exército, da Marinha, o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o governador militar de Lisboa, o subsecretário de Estado do Exército e o almirante Henrique Tenreiro fogem pelas traseiras do Ministério do Exército, mandando abrir um buraco na parede, que dá para a biblioteca do ministério da Marinha. Entram numa viatura protegidos por um dos M47. A carrinha leva-os para o Regimento de Lanceiros 2, onde instalam o Posto de Comando das tropas leais ao Governo.

O buraco por onde fugiram os ministros

09h45

Precauções

Salgueiro Maia, com a chegada dos carros de combate de Cavalaria 7, ordena ao tenente miliciano Sousa Silva que mande colocar todas as viaturas de transporte da EPC viradas para Santa Apolónia, para precaver a hipótese de uma eventual retirada para Santarém.

10h00

Desobediência

Na Ribeira das Naus, o alferes miliciano Fernando Sottomayor desobedece às ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis e não faz fogo contra as tropas da EPC, nem sobre Salgueiro Maia, que se encontrava entre a esquina do Ministério do Exército e o muro para o rio Tejo, pedindo que alguém viesse até meio caminho para falar. Sottomayor recebe ordem de prisão do brigadeiro.

10h05

Mais desobediência

Junqueira dos Reis ordena ao cabo apontador José Alves Costa que abra fogo. Este diz: "Vou ver se consigo, mas eu não sei..." O brigadeiro responde: "Ou dá fogo, ou meto-lhe um tiro na cabeça!" O cabo fecha-se dentro do carro de combate e não volta a sair. Junqueira dos Reis dirige-se para a Rua do Arsenal. Ordena aos cabos que abram fogo, mas estes também recusam fazê-lo.

M47 leais ao regime vs. blindados da EPC, na Rua do Arsenal Alfredo Cunha

10h10

Coordenador

Chega ao Terreiro do Paço o tenente-coronel Correia de Campos, enviado do Posto de Comando da Pontinha, com a missão de coordenar as operações.

10h15

Revista

Um grupo de comandos, que integrava Correia de Campos e o major Jaime Neves, passa revista ao Ministério do Exército e confirma a fuga dos ministros que tinha por missão prender. Dão voz de prisão ao chefe de gabinete do ministro do Exército e ao chefe de gabinete do subsecretário de Estado.

10h20

Negociação

O capitão Tavares de Almeida, o major Jaime Neves e os alferes milicianos Maia Loureiro e David e Silva negoceiam a rendição do major Pato Anselmo, na Ribeira das Naus.

10h30

Mais rendição

Rendição do major Pato Anselmo, do Regimento de Cavalaria 7. Os dois carros de combate ficam sob o controlo das forças de Salgueiro Maia, permanecendo no local.

"Ou eles, ou eu"
Rendição do major Pato Anselmo Alfredo Cunha

10h30

Mais negociação

Na Rua do Arsenal, entretanto, os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva, da EPC, e o furriel J. Nunes, do RC7, tentam negociar com o brigadeiro Junqueira dos Reis e com o coronel Romeiras Júnior, comandante do Regimento de Cavalaria 7.

10h40

Ordem de fogo

O brigadeiro Junqueira dos Reis, como já havia feito na Ribeira das Naus, manda abrir fogo sobre o tenente Alfredo Assunção. Volta a não ser obedecido pelos militares, devido a interferência directa do coronel Romeiras Júnior.

10h50

Três murros

O brigadeiro Junqueira dos Reis, já em desespero, dá três murros no tenente Alfredo Assunção, que se perfila, faz continência e regressa para junto das suas tropas.

11h00

Desistência

O brigadeiro Junqueira dos Reis, incapaz de se fazer obedecer, mantém os carros de combate no local, não tomando, naquela altura, mais nenhuma iniciativa.

"Eu preciso aqui de alguém para tomar conta disto"

11h30

Para o Carmo

O capitão Salgueiro Maia recebe ordens do Posto de Comando da Pontinha para avançar para o Quartel do Carmo, onde se encontram o presidente do Conselho de Ministros, Marcelo Caetano, o ministro dos Negócios Estrangeiros e o ministro da Informação e Turismo. Junqueira dos Reis e Romeiras Júnior ficam sozinhos na Rua do Arsenal.

Adelino Gomes
"É como uma pedra que sai de cima das pessoas"

11h45

No meio do povo

A coluna da Escola Prática de Cavalaria avança para o Largo do Carmo, pela Rua Augusta, Rossio e Rua do Carmo. Forças do Regimento de Cavalaria 7, Regimento de Lanceiros 2 e do Regimento de Infantaria 1, que, entretanto, tinham aderido ao Movimento, avançam para o Quartel-General da Legião Portuguesa, na Penha de França.

Adelino Gomes
"Ouvi pela primeira vez as pessoa a falar a sério"

11h50

Prisioneiros

Os oficiais feitos prisioneiros no Terreiro do Paço (Ferrand d'Almeida, Pato Anselmo. Álvaro Fontoura. etc.) são conduzidos em viaturas civis para a Pontinha.

12h00

Mais desistências

No Rossio, uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 da Amadora tenta barrar o caminho para o Quartel do Carmo à coluna da EPC. Salgueiro Maia dialoga com o comandante destas tropas, que se põem ao lado dos militares da EPC.

12h15

Festa

Envolvida por uma enorme multidão, a coluna militar da EPC sobe o Chiado, pela Rua do Carmo.

Adelino Gomes
"Porreiro, diz aquele jovem ali"

12h30

Cerco

O capitão Salgueiro Maia e os seus homens cercam o Quartel do Carmo.

Adelino Gomes
Salgueiro Maia: "não há força como a nossa!"
EPC monta dispositivo de segurança em torno do quartel-general da GNR, Largo do Carmo Alfredo Cunha

12h30

Pressa

O Posto de Comando da Pontinha solicita a Salgueiro Maia que derrube a porta de armas com um dos seus blindados ou que abra fogo de metralhadora para o abrir. O objectivo era o de apressar a rendição de Marcelo Caetano.

12h45

Víveres

A população distribui comida, leite e cigarros pelos militares presentes no Largo do Carmo.

13h00

De novo ao ataque

O brigadeiro Junqueira dos Reis volta ao ataque. Agora, não só com um dos carros de combate da Rua do Arsenal, mas também com efectivos da GNR, Polícia de Choque e uma companhia do Regimento de Infantaria 1, tentando o envolvimento às forças do capitão Salgueiro Maia, no Carmo.

Junqueira dos Reis, leal ao regime, faz um ponto da situação

13h30

Ameaça

Um helicanhão sobrevoa o Largo do Carmo, causando grande ansiedade entre militares e civis.

13h45

Primeiro ultimato

É dado o primeiro ultimato aos ocupantes do Quartel do Carmo pelo capitão Salgueiro Maia através de megafone, que têm até às 14h00 para se renderem.

"Está tudo atravancado"

14h00

Mais desistências

Uma segunda companhia do Regimento de Infantaria 1, das forças do brigadeiro Junqueira dos Reis, passa para o lado de Salgueiro Maia, pondo as armas em bandoleira.

14h30

Mais cerco

Um esquadrão do Regimento de Cavalaria de Estremoz, comandado pelo capitão Andrade de Moura, coadjuvado pelo capitão Alberto Ferreira, cerca as tropas às ordens do brigadeiro Junqueira dos Reis.

15h00

Ordem

O capitão Rosado da Luz entrega a Salgueiro Maia uma ordem por escrito do PC do MFA, na Pontinha, assinada pelo major Otelo Saraiva de Carvalho: através de megafone, deveria fazer um ultimato aos ocupantes do Quartel do Carmo para se renderem e rebentar, a seguir, os portões com uma autometralhadora "para verem que é a sério!".

À espera de ordens para disparar sobre o portão do quartel da GNR Alfredo Cunha

15h15

Dez minutos

O capitão Salgueiro Maia informa os ocupantes do Quartel do Carmo, através de megafone, que têm dez minutos para se renderem. Caso contrário mandará abrir fogo.

15h30

Rajada

Salgueiro Maia dá ordens ao tenente Santos Silva para ser feita uma rajada da torre da autometralhadora Chaimite "Bula".

15h45

Mais negociações

Abre-se o portão do Quartel do Carmo e sai lá dentro o major Belico Velasco para falar com o capitão Salgueiro Maia.

16h00

Diálogo

O coronel Abrantes da Silva, a pedido de Salgueiro Maia, entra no Quartel do Carmo para dialogar com os sitiados.

16h15

Mais rajadas

Salgueiro Maia dá ordens ao alferes miliciano Carlos Beato para instalar os seus homens no cimo das varandas do edifício da Companhia de Seguros Império e fazer fogo sobre a frontaria do Carmo. Agora com armas automáticas G-3.

16h25

PIDE mata

Elementos da PIDE/DGS abrem fogo sobre a multidão, de dentro da sua sede, na Rua António Maria Cardoso, fazendo quatro mortos e vários feridos. As vítimas seguem para o Hospital Militar da Estrela.

"Os filhos da puta responderam a tiro"

16h25

Voz de tiro

O comandante da força da EPC, na ausência de resposta por parte dos sitiados no Quartel do Carmo, ordena a colocação de um blindado em posição de tiro. "Um. Dois..." É interrompido pelo tenente Alfredo Assunção, que conduz dois civis até junto dele: Pedro Feytor Pinto, director dos Serviços de Informação da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, e Nuno Távora, secretário do secretário de Estado da Informação e Turismo, que se dizem portadores de uma mensagem do general Spínola para Marcelo Caetano.

Salgueiro Maia conta até dois...

16h30

Mensageiros

Salgueiro Maia autoriza a entrada no Quartel do Carmo de dois mensageiros do general António de Spinola, Nuno Távora e Feytor Pinto, para dialogarem com Marcelo Caetano.

Os mensageiros de Spínola

16h45

Desencontro

Os dois mensageiros saem do Quartel do Carmo e, acompanhados do tenente Alfredo Assunção, deslocam-se no jipe do capitão Salgueiro Maia para casa do general António de Spinola. Nunca ali chegaram por, entretanto, Spínola já ir a caminho do Carmo.

Feytor Pinto e Nuno Brito partem de jipe para a residência de Spínola com mensagem de Marcelo Caetano Alfredo Cunha

17h00

Com Marcelo

O capitão Salgueiro Maia entra no Quartel do Carmo. Após uma curta conversa com o general Adriano Pires (comandante-general da GNR), é conduzido por Coutinho Lanhoso até Marcelo Caetano. Após algumas perguntas sobre quem está por detrás do golpe e qual o destino que os revolucionários pretendem dar às colónias, Marcelo informa-o de que aceita abandonar o poder e pede que a respectiva transmissão seja feita a um oficial-general – a Spínola.

Salgueiro Maia vai falar com Marcelo Caetano

17h15

Hino

A multidão presente no Largo do Carmo canta o hino nacional, enquanto o capitão Salgueiro Maia abandona o interior do Quartel do Carmo. Sensivelmente a essa hora, António de Spínola era mandatado pelo Movimento a ir ao Carmo receber o poder de Marcelo Caetano.

17h45

Spínola chega

O general António de Spínola chega ao Largo do Carmo, acompanhado pelo tenente-coronel Dias de Lima. Após longos minutos envolvido pela multidão, o Peugeot de Spínola consegue, finalmente, chegar junto da porta de armas do quartel.

18h00

Spínola dialoga

António Spínola, acompanhado por Salgueiro Maia (que o informa sobre o modo como os membros do Governo serão retirados das instalações), entra no Quartel do Carmo para dialogar com Marcelo Caetano.

18h15

Spínola informa

Spínola encontra-se a sós com Marcelo e informa-o dos procedimentos que serão adoptados para a sua retirada do local e da sua evacuação posterior para a Madeira. Salgueiro Maia pede, através de um megafone, que a população abandone o Largo do Carmo de forma a promover a saída em segurança do presidente do Conselho de Ministros e dos seus ministros. O apelo é completamente ignorado.

18h20

Apelos à calma

Salgueiro Maia solicita, de novo, a Francisco Sousa Tavares que apele ao povo para que deixe a praça. Sousa Tavares sobe para cima da guarita da GNR e usando o megafone de Maia, discursa à multidão.

"Povo português: vivemos um momento histórico!"

18h25

Cordão

O comandante da força militar ordena que os seus soldados façam um cordão para que seja possível retirar Marcelo do interior do quartel.

18h30

"Bula" manobra

A autometralhadora Chaimite, de nome "Bula", entra, de marcha atrás, no Quartel do Carmo, para transportar os membros do Governo para o Posto de Comando do MFA, na Pontinha.

19h00

Marcelo na Chaimite

Marcelo Caetano e os outros membros do Governo (César Moreira Baptista e Rui Patrício) entram na Chaimite "Bula", que os transportará à Pontinha.

Adelino Gomes
Gritos de vitória no Carmo

19h30

Cerco levantado

Salgueiro Maia levanta o cerco ao Quartel do Carmo e segue com o general Spínola para o Posto de Comando da Pontinha. No local ficam apenas as forças do Regimento de Infantaria 1, a que se junta depois um esquadrão de blindados.

20h00

Para a Pontinha

A coluna da EPC, transportando Marcelo Caetano, sobe a Avenida da Liberdade, no meio de uma enorme multidão, que dificulta o andamento.

20h30

A caminho

A coluna de Salgueiro Maia atinge o Campo Grande, sempre no meio de contínuas manifestações populares.

21h00

No PC

A Chaimite "Bula" e a coluna da Escola Prática de Cavalaria que transporta os membros do Governo chegam ao Regimento de Engenharia, na Pontinha, onde está instalado o Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.

21h30

Jantar

A coluna militar da EPC instala-se no Colégio Militar, onde é servida uma refeição quente – almôndegas com massa.

22h30

Novo objectivo

O major Monge, o capitão Salgueiro Maia e os tenentes Alfredo Assunção e Santos Silva dirigem-se, com as viaturas blindadas, para a Calçada da Ajuda, para obterem a rendição dos regimentos de Cavalaria 7 e Lanceiros 2.

23h30

Rendição do RC7

Chegada aos regimentos de Cavalaria 7 e de Lanceiros 2. Os coronéis comandantes das duas unidades não oferecem qualquer resistência, rendendo-se aos seus adversários da manhã. Salgueiro Maia e os seus homens (esquadrão de Reconhecimento) ocupam a Cavalaria 7.

00h30

Escolta

Partida das forças da EPC para a RTP, escoltando a Junta de Salvação Nacional.

01h00

Mais prisões

Prisão dos comandantes do Regimento de Cavalaria 7, coronel Romeiras Júnior, e de Lanceiros 2, coronel Pinto Bessa.

01h20

Comunicado

Comunicado da proclamação da Junta de Salvação Nacional na RTP (Lumiar).

01h30

Instalação

As forças que acompanham o capitão Salgueiro Maia à Calçada da Ajuda instalam-se no Regimento de Cavalaria 7, para pernoitar.

02h00

Regresso da RTP

As forças da EPC que fizeram a escolta à RTP regressam ao Colégio Militar.

03h00

Segurança

O esquadrão de Atiradores da EPC, sob o comando do capitão Tavares de Almeida, monta segurança ao Posto de Comando do MFA, na Pontinha.

05h00

Cerco à PIDE

Viaturas blindadas do esquadrão de Reconhecimento da EPC, sob o comando do tenente Santos Silva, avançam para o cerco à PIDE/DGS.

Sede da PIDE/DGS. Retrato apeado de Marcelo Caetano no gabinete de Silva Pais Alfredo Cunha

07h00

Problema resolvido

As forças do tenente Santos Silva regressam do cerco à PIDE/DGS.

07h30

Ordem de regresso

O capitão Tavares de Almeida recebe ordens para regressar a Santarém, com o esquadrão de Atiradores.

08h00

Para casa

O capitão Tavares de Almeida, comandando o esquadrão de Atiradores de Cavalaria, inicia o regresso à Escola Prática de Cavalaria, em Santarém.

10h30

Apoteose

Chegada a Santarém do esquadrão de Tavares de Almeida, que é recebido apoteoticamente pela população.

11h30

De volta

Os homens do capitão Tavares de Almeida dão entrada na EPC.

12h00

Felicitações

O esquadrão do capitão Tavares de Almeida é recebido e felicitado pelo comando interino da EPC – major Costa Ferreira, capitão Garcia Correia e capitão Correia Bernardo.

13h00

Escolta

O tenente Santos Silva, ainda em Lisboa, recebe ordens para escoltar até Santarém o comandante da Região Militar de Tomar, coronel Francisco Morais, utilizando para o efeito duas viaturas blindadas.

14h00

Patrulha

Tropas da EPC, sob o comando do capitão Salgueiro Maia, patrulham as ruas de Lisboa.

15h00

Recolha dos arquivos

As forças de Salgueiro Maia fazem escolta à recolha dos arquivos da PIDE/DGS.

20h00

Maia regressa

O capitão Salgueiro Maia, comandando três EBR-Panhard e uma ETT-Panhard, inicia com os seus militares o regresso a Santarém.

22h00

Ruas desertas

Chegada das tropas a Santarém, onde as ruas estão desertas, por desconhecimento do regresso dos militares.

22h15

Operação acabada

O portão Chaimite volta a abrir-se, desta vez para o regresso do capitão Salgueiro Maia à Escola Prática de Cavalaria.

Ficha Técnica

Suplemento "25 de Abril – Os 240 Que Prenderam Caetano" (Publicado em 25 de Abril de 1999)

Director
José Manuel Fernandes
Directores-adjuntos
Adelino Gomes, Nuno Pacheco e José Queirós
Consultor
Carlos Beato
Editor
João Fragoso Mendes
Infografia
Célia Rodrigues, Cristina Sampaio (editora) e João Lázaro

Cronologia

Jornalista
Adelino Gomes
Infografia
Célia Rodrigues e José Alves (esquematização)
Webdesign
Dinis Correia
Fotografia
Alfredo Cunha
Edição
Sérgio B. Gomes e Vera Moutinho
Coordenação
Joaquim Guerreiro
Digitalização
Bruno Esteves
Registos sonoros e vídeográficos
Arquivo RTP, Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, Associação 25 de Abril. Excertos do disco "Diário da Revolução/1974": reportagem de Pedro Laranjeira e Adelino Gomes; Paulo Coelho (repórter de apoio); Barbara Skolimowska (logística no terreno); Sassetti (edição em disco, Maio 1974).