O coleccionador de papéis que se fez guardião das memórias da terra

Acumula documentos há mais de 50 anos como se enchesse uma bóia para salvar a sua terra mineira de São Pedro da Cova do esquecimento. Serafim Gesta Mazola fintou o destino de trabalhador no subsolo, mas dedicou uma vida a dar-lhe luz.

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Guarda o seu reino em papel num pequeno anexo construído no pátio da sua moradia, compartimento de caos assumido com séculos de história dentro. Nas estantes ou empilhados no chão, vivem caixotes de cartão envelhecido, pilhas de papel desalinhado ou atado com fio, recortes de jornais, correspondência, livros. São 11 da manhã e faz horas, uma mão cheia delas, que Serafim Gesta Mazola se levantou, ainda que a sua frescura pareça de um dia ainda agora começado. Separa rapidamente uma pilha de documentos — aqueles que melhor contam a sua própria história — e começa a falar. Sem conceder tempo a um guião que não seja o dele. Sem pausas para perguntas. Tem na voz a pressa de quem acumula muito para ensinar. Genica a trocar as voltas às certezas inscritas no bilhete de identidade onde se atesta 24 de Janeiro de 1936 como a data do seu nascimento.

Muito do que preserva no seu anexo-escritório poderia ter sido condenado ao lixo, não fosse a sua “obsessão em juntar papel” há mais de 50 anos. Serafim Gesta nunca viu documento que julgasse inútil. E os que possam não ter valor terão, pelo menos, simbologia, como o anúncio de uma revista brasileira a um azeite de nome “Mazola”. Ali, abriga a vida dos antigos mineiros de São Pedro da Cova para os salvar do esquecimento: fichas de trabalhadores, correspondência trocada na mina, relatórios médicos que são provas de “crimes” cometidos no subsolo, fotografias. E também cartas para ele enviadas por alunos curiosos com o seu arquivo, por escolas que o convidavam para palestras, por universidades que o queriam ouvir e até um escrito da Faculdade de Letras de São Petersburgo, interessada em publicar uma obra dele. Serafim Gesta Mazola fez-se guardião das memórias da sua terra mineira ao perceber que "podia fazer ainda mais", depois de já ter feito o que não estava escrito nas biografias de destino traçado dos filhos de São Pedro da Cova. Mas, de certa forma, talvez não estivesse ali sem um passado vivido naquela geografia.

Nasceu numa rua não muito longe daquela onde vive agora, casa humilde do bisavô. No átrio da igreja, rapazinho franzino, foi desde cedo cobiçado pelos seus dotes de jogador da bola de trapos. O talento valeu-lhe o apelido que adoptou como pseudónimo e pelo qual todos o tratam — mulher, filho e neta incluídos. Tornou-se Mazola, como Valentino Mazzola, jogador do Grande Torino, clube dominador do futebol italiano nos anos 40 e símbolo de uma esperança de sucesso num país arrasado depois da II Guerra Mundial. Mesmo depois da morte trágica do craque de Itália e de toda a sua equipa, num desastre de avião na viagem de regresso a casa depois de um jogo com o Benfica, em 1949, nunca abandonou o apelido. Os pais eram trabalhadores nas minas de São Pedro da Cova, em Gondomar, onde o carvão de pedra (antracite) foi descoberto em 1795. Quando o primeiro filho deles nasceu, anos 30 do século passado, era das minas onde laboravam que saía 70% da produção nacional de carvão. Mas a riqueza ali produzida, como escreveria Mazola num poema muitos anos mais tarde, não lhes entrava em casa.

Sou de São Pedro da Cova,
Terra de imensa fortuna,
Mas quem a arrancou do solo,
Não tem riqueza nenhuma.

Na escola das minas, em Vila Verde, rapidamente se apaixonou pelas letras. A professora via-lhe potencial, dava-lhe jornais para ler. Mas ao completar a 4.ª classe, o fim anunciado aconteceu. Por saberem da dureza das minas, os pais tudo fizeram para fintar esse destino para Mazola e a irmã, um ano mais nova do que ele. Mas não puderam evitar a vida de gente crescida antes do tempo. Aos dez, a criança-adulto começou a trabalhar numa tosca oficina de ourives, em Tadariz. Depois foi marceneiro e serralheiro, mais tarde empregou-se na Fábrica de Tecidos A Invencível, no Porto.

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“A gente lá se entendia”

Foi a tropa que lhe trocou as voltas. Na viagem de comboio a caminho do destino onde cumpriria serviço, começou a escrever um diário, continuado durante os anos em que lá esteve. No Entroncamento, em Tancos e em Santa Margarida, assumiu a função de escriturário e foi percebendo “outros mundos” para lá do pequeno que era o dele — “De tal maneira que quando saí foi como um pássaro a deixar a gaiola, já não queria voltar à fábrica.”

Mazola cruzou-se com uma vaga de emprego para delegado de propaganda médica. Homem alto, bem falante, voz colocada como se estivesse nos palcos de teatro que tantas vezes pisou, foi conquistando espaço. Apenas com o ensino primário, via-se no papel de receber delegados internacionais, sem saber inglês, francês ou espanhol. “A gente lá se entendia”, recorda de sorriso aberto.

Apaixonado por palavras, começa a escrever em jornais da terra. Primeiro n’ A Sopa dos Pobres, depois n’ A Voz de Ermesinde, a seguir no Correio do Douro e no Comércio de Gondomar. Estava ainda a ditadura a velocidade cruzeiro, em 1961, quando com Germano Silva, recentemente feito doutor honoris causa pela Universidade do Porto, funda A Voz Padroense. Sozinho, um ano depois da revolução de Abril, havia ainda de criar O Diálogo, jornal quinzenal indispensável para conhecer a história de São Pedro da Cova.

Quanto mais sabia mais queria saber. Foi ganhando espaço em redacções de jornais de destaque, como o Jornal de Notícias ou o Comércio do Porto. Foi escrevendo cada vez mais poesia. E foi acreditando que podia aprender ainda mais. A dada altura, as viagens para o Arquivo Distrital do Porto, para a Casa do Infante e até para a Torre do Tombo tornaram-se rotina. Pesquisava, juntava documentos, escrevia. Estava a nascer um historiador.

Como é que do menino com a 4.ª classe nasce um historiador com dezenas de obras publicadas?
Com muitos livros por companhia. Sempre gostei de ler e foi isso que me formou. Tinha obras de todos os temas, da filosofia à teologia passando pelo teatro ou pela política. Ia ao Porto, à Livraria Aviz, num tempo em que comprar livros era perigoso. Muitas vezes pedia livros proibidos. O senhor da livraria desconfiava no início. Depois criámos uma senha. Falávamos sobre livros escolares e quando ele me dizia que estavam para chegar “esta semana” já sabia que a encomenda estava pronta. Saía de lá com os livros escondidos na barriga, debaixo da roupa. Nunca os punha na pasta de delegado de propaganda médica, podia ser parado pela PIDE e era problema na certa. Além dos livros, tive os meus mestres.    

Quem eram esses mestres?
Homens da universidade com quem me encontrava nos arquivos e que me ajudavam. Ainda hoje mantenho contacto com alguns. Falava também com homens da igreja, com o bispo do Porto, Domingos de Pinho Brandão. Aprendi tudo com eles.

Foi difícil essa aprendizagem?
Fazer história não é fácil e meter buchas não é comigo. Mas há uma estrelinha de sorte na minha vida. Uma vez fui ao Arquivo Distrital do Porto, pedi um livro e quando me pus a olhar não percebia nada. Era uma linguagem antiga. Desanimado, fechei o livro e entreguei-o à senhora que lá estava. Mas ela não me deixou vir embora. Disse-me “se não percebe, eu ensino-lhe”. E assim me pus a aprender paleografia. 

Fez esse percurso sem nunca abandonar o seu trabalho de delegado de propaganda médica...
Nunca. Era isso que me dava o dinheiro ao fim do mês. Às vezes perdia meios dias a investigar, metido nos arquivos. Sem o patrão saber, claro!

Foi ao acumular documentos e sabedoria que Mazola, o auto-didacta, se foi apercebendo que aquilo que descobria não era importante apenas para ele. Vasculhar arquivos era também uma homenagem aos da sua terra, aos do seu sangue. Ele e a irmã foram a primeira geração da família a escapar à vida de humanos-toupeiras. Mas das minas, guarda ainda assim as memórias mais tristes. Por causa delas, morreu-lhe o avô, de nome Serafim também, com uma medalha de mérito ao peito concedida pelo Presidente da República Óscar Carmona, mas pobre, cansado, miserável, tuberculoso. Por causa das minas, viu morrer o pai, tísico, depois de uma vida inteira no subsolo. Por causa das minas, viu a mãe encher os lençóis de sangue: silicose, 100% de pó.

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Desfiar memórias

No lugar do complexo mineiro onde chegaram a trabalhar mais de 1800 pessoas vivem agora ruínas. Mazola garante já não sentir qualquer emoção ao chegar ali. A poucos metros do cavalete do Poço de São Vicente, monumento de interesse público desde 2010 mas ainda sem plano de recuperação, vai desfiando memórias, mexe-se de um lado para o outro como se revivesse aqueles dias agitados. “O meu pai trabalhava aqui, no cabo aéreo. Quando era catraio trazia-lhe um café e sopas. Era exactamente aqui. Sentia um orgulho imenso por o meu pai ser o comandante do cabo aéreo.” Mazola sorri, a reconhecer a inocência de menino. E logo retoma: “Mais adiante estava a minha mãe. Trabalhava nas mesas a separar o carvão. Foi para lá com oito anos.”

Uns passos abaixo no terreno, está o que resta do antigo escritório do complexo. “Isto era uma coisa enorme”, vai dizendo para logo de seguida recordar um dos momentos mais importantes da história da freguesia, quando a 22 de Maio de 1975 a população ocupou aquele edifício. “Chegaram aqui e disseram: ‘acabou, agora mandamos nós’.” Constitui-se, então, o Centro Revolucionário Mineiro (CRM), típica organização do PREC. Por esses anos, por aqueles lados, Mazola escreveria textos para o filme de Rui Simões, São Pedro da Cova, onde também participaria como actor. Ali se decidiu, por exemplo, que as rendas das casas dos bairros mineiros passariam a ser pagas ao próprio CRM, que constituiria um fundo financeiro para ajudar a população. Assim se fizeram obras nas casas, se reconstruíram ruas, se ergueram parque infantil, teatro, posto médico. Assim se descobriram as fichas dos trabalhadores e se comprovaram os índices de silicose que os corroíam aos poucos.  

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adriano miranda

Costuma dizer que o 22 de Maio de 75 foi o verdadeiro 25 de Abril em São Pedro da Cova...
Foi um movimento popular de gente negra de vingança. Tomaram conta da mina e do que estava escondido, os documentos. Foi assim que ficamos a saber que isto era uma coisa realmente monstruosa.

Qual era o papel do regime na mina até ao seu encerramento definitivo, em 1972?
Tentava controlar os trabalhadores. Colocavam nas chefias os presidentes das juntas, os regedores, os cabos de ordens. Essa oligarquia sustentava o empório mineiro. Depois, as minas aliavam-se a vários movimentos, a Legião [Portuguesa], a União Nacional. A própria PIDE tinha aqui um coio de informadores e de vez em quando mandava trabalhadores para a prisão.

Mas ainda assim havia resistência, houve greves, como a de 1946.
Houve. Todos quantos trabalharam nas minas foram miseravelmente explorados. E ao contrário do que se dizia, as minas não mataram a fome a ninguém. Andavam a trabalhar a morrer de fome. Isso também os fez ganhar coragem para protestar.

Essa dureza do trabalho era muito falada. E, ainda assim, quase todos os filhos da terra trabalhavam nas minas. Porquê?
Em São Pedro da Cova passou-se da agricultura para o carvão. O problema dos escravos da terra era o salário. Na lavoura trabalhava-se ao ar livre mas não havia salário. Nas minas havia um ordenado certo. Era esse jardim do éden que produzia todas as felicidades que os atraía. Não podiam estar mais enganados.

Vinha até gente de fora...
Os malteses chegavam de todo o país, muitas vezes sem saber ler nem escrever. Davam-lhes duas tábuas compridas e dois bancos para as pôr em cima e era lá que eles dormiam. Lá ou em carqueja. E mal chegavam perdiam a identidade. Se vinha do Covelo era o Chico do Covelo, se andava mais mal arranjado era o Zé badalhoco. Isto, parecendo uma insignificância, diz muito sobre a forma como eram tratados os trabalhadores.

Quando falam desse tempo, alguns homens e mulheres mostram, apesar de tudo, algum saudosismo. Como se explica esse sentimento?
Na mina havia uma fraternidade completa, um sentimento de irmandade. Chamavam “manos” uns aos outros. É uma palavra maravilhosa, mano. Conviviam e casavam nas minas, quase tinham os filhos lá dentro. A pobreza não é necessariamente triste.

E há ainda a história do homem que sai da mina abraçado a Santa Bárbara, a chorar...
Foi no último dia da mina. Um homem agarra-se à santa protectora dos mineiros como se de um filho se tratasse. Chora. Sabia que a mina era má mas que depois dela era pó, cinza e nada.

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Mazola perdeu a conta ao número de livros que escreveu. São umas dezenas publicados e muitos mais por publicar. Um deles, Um Grito Rompe o Silêncio, obra com dezenas de depoimentos de quem trabalhou nas minas, foi reeditado em 2015 pela junta de freguesia local. Mas muitos outros existem: O Culto dos Mortos em São Pedro da Cova, As Minas e o Fado Operário, o Folclore de São Pedro da Cova, Os Alemães em São Pedro da Cova, Vozes do Subsolo. “As minas têm uma imensidão de histórias associadas”, diz. Parte delas estão também contadas nas biografias de muitas sampedrenses. “É uma encomenda que muita gente me faz. E adoro esse trabalho. Pesquisar e depois romancear a história.” Na sua bibliografia guarda ainda obras que passam as fronteiras da sua terra, quase todas centradas no concelho. Inventário da Igreja de Gondomar, Gondomar: os confrontos sociais no Alto do Concelho ou uma biografia sobre Joaquina Pereira de França, De Gondomar, a Primeira Mulher de Camilo.

Nas gavetas, tem prontos a imprimir trabalhos sobre a origem dos sinos em Rio Tinto, as corridas de touros nessa mesma freguesia, o jogo da bola em Fânzeres em 1845, a influência do Concílio de Trento nos registos paroquiais de São Pedro da Cova, um divertido e revelador compêndio dos falares do povo da sua terra, recolhidos durante anos de ouvido à escuta. “Um sem fim de investigações.” Por escrever, está ainda muita coisa também. Como uma “monografia das minas.”

Para que isso possa acontecer um dia, Mazola já decidiu doar todo o seu espólio ao Museu Mineiro, criado em 1989 com a missão de valorizar e divulgar o património local. “Quero transferir tudo para lá, desde que me garantam que o material vai ser estudado de forma séria por quem sabe do assunto”, comunica.

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Na freguesia de quase 17 mil habitantes quase todos sabem quem ele é. O homem-herança da história da vila que tem dois séculos de mina gravados, representante do povo no histórico programa de televisão Prata da Casa, em 1989. Ao seu esforço de preservação da memória, surgem alguns reconhecimentos, como um álbum de nome Mazola, com letras de poesias dele, que Vasco Balio, músico apaixonado pela sua vila que teve no poeta a sua primeira referência literária, está a preparar. Ou uma biografia em construção assinada por Daniel Vieira, o actual presidente da junta de freguesia historicamente comunista (está nas mãos do PCP desde 1982, apenas com um intervalo entre 97 e 2001).

Mazola envaidece sem perder os pés no chão. “Estou velho, começam a fazer essas coisas por mim”, brinca. Nunca trabalhou para os palcos — e a única mágoa que guarda é a de ver pouco conhecimento sobre a história da sua terra, pouco interesse pelo saber. O canudo, garante, não lhe faz falta. “Não sou doutor e não tenho qualquer complexo por isso. Podem chamar-me amador, já me deram nomes piores”, graceja para logo de seguida abrir o peito para recitar uma poesia:

O muito pouco que sei
Cabe numa mão fechada
Mas mais vale saber alguma coisa      
Do que viver sem saber nada.

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