Alfa, Bravo, Charlie, Delta, Echo: tudo isto continua a fazer sentido?

O incêndio em Pedrógão Grande aconteceu fora do período crítico de fogos, mas há quem questione se o dispositivo ainda deve obedecer a um calendário tão rígido.

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O Governo decidiu antecipar a fase mais crítica dos fogos florestais TIAGO PETINGA/LUSA

É mais uma pergunta entre as muitas que se colocaram na sequência da tragédia de Pedrógão Grande: ainda faz sentido a calendarização que vem sendo usada pelo Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Florestais (DECIF) para colocar meios no terreno? Duarte Caldeira, presidente do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil, é taxativo. “Não. Não faz sentido.”

O professor na Universidade Nova de Lisboa considera que o actual modelo, composto por cinco fases de prontidão, é “contraditório” com o perfil meteorológico que se tem verificado nos últimos anos, e lembra que este dispositivo foi criado há mais de duas décadas.

“Está mais que demonstrado que o perfil meteorológico se alterou, assim como toda a vida económica e social das comunidades”, nota Duarte Caldeira. Por isso, um modelo que era válido há 20 anos já não faz sentido actualmente, até pelas características dos incêndios florestais que têm ocorrido no país.

Quando o incêndio mais mortífero de sempre em Portugal começou, o DECIF estava ainda na fase Bravo, que começa a 15 de Maio e se prolonga até 30 de Junho e corresponde à segunda fase com mais meios mobilizados no terreno. Segue-se a fase Charlie, que em circunstâncias normais vai de 1 de Julho a 30 de Setembro mas que o Governo decidiu antecipar face aos acontecimentos dos últimos dias. “Por aquilo que se sabe, que se aprendeu nos últimos anos, não faz sentido esta fragmentação entre as fases Bravo e Charlie”, insiste o investigador, defendendo a fusão entre estes dois períodos mais críticos.

Duarte Caldeira, que liderou a Escola Nacional de Bombeiros, sustenta que, devido às alterações climáticas, o período de maior risco potencial já não está circunscrito aos meses de Julho, Agosto e Setembro. Como tal, é preciso ajustar o DECIF à realidade através da implementação de um sistema de duas fases. A mais crítica, e com mais meios mobilizados, seria de 15 de Maio a 30 de Setembro, e a outra, com menos operacionais e viaturas, nos restantes meses. Isto, ressalva, sem esquecer que o interior do país precisa de socorro 365 dias por ano.

Mais flexível em relação ao modelo está Domingos Xavier Viegas. O coordenador do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra acredita que o faseamento de meios no terreno “continua a fazer sentido”, mas admite que ele possa ser mais flexível. “O país não tem recursos [económicos] para manter sempre o mesmo dispositivo”, lembra, por isso é importante torná-los mais elásticos de acordo com o que temos aprendido nestes anos.

Também Luciano Lourenço, que coordenou o Plano Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios, defende a manutenção dos mesmos períodos de risco, porque, nota, as “fases são balançáveis”. O problema, considera, está a montante — e não na programação do dispositivo de combate.

“Existem muitos aspectos a montante que não foram cuidados, e toda a gente sabia que isto iria acontecer”, afirma, dizendo que esta não é a altura para debater esta questão. “Em Portugal planeia-se muito. Fala-se muito nestas alturas — a imprensa tem aí responsabilidades —, mas depois concretiza-se pouco”, critica o professor da Universidade de Coimbra, repetindo: “Estavam todos à espera que estas condições meteorológicas se proporcionassem para testar o modelo, e bastou que se verificassem para percebermos que o trabalho a montante não foi bem feito.”

Além da Bravo e Charlie, o DECIF contempla as fases Alfa (1 de Janeiro a 14 de Maio), Delta (de 1 a 31 de Outubro) e Echo (1 de Novembro a 31 de Dezembro).

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