Criminalidade baixa pelo quarto ano consecutivo mas aumenta no interior

Relatório Anual de Segurança Interna destaca "transferência da criminalidade do litoral para o interior do país", onde os crimes mais graves e violentos chegaram a aumentar 43% no ano passado

A criminalidade geral participada à Polícia Judiciária (PJ), à PSP e à GNR baixou 2,3% em 2012 face ao ano anterior e a criminalidade violenta e grave desceu ainda mais, com menos 7,8% de participações às polícias. Contudo, nem tudo são boas notícias. O próprio Relatório Anual de Segurança Interna relativo a 2012, divulgado ontem pelo Governo, dá conta de uma "transferência da criminalidade do litoral para o interior do país", mais notória quando se analisam os chamados crimes graves.

Exemplo disso é o distrito da Guarda, com um aumento de 43,8% na criminalidade mais grave e violenta. Castelo Branco e Leiria registam também aumentos neste tipo de crime, com subidas de 32,4% e 18,2%, respectivamente. Neste último distrito a subida é muito significativa, já que se trata do terceiro ano consecutivo em que dispara o número de crimes violentos e graves. Em 2009 foram contabilizados 467 ilícitos criminais deste tipo, valor que subiu para 503 no ano seguinte e para 521 um ano depois. Em 2012 o número chegou aos 616, mais 32% que há quatro anos. Santarém, que viu a criminalidade violenta e grave crescer 3,2%, apresenta uma evolução semelhante, tendo vindo a registar um aumento no número de crimes violentos e graves desde pelo menos 2009.

Maior mobilidade

Na Guarda, o campeão da subida dos crimes graves e violentos, a evolução tem sofrido algumas oscilações nos últimos quatro anos. No entanto, a tendência de subida é óbvia: em 2009 contabilizava 69 ilícitos deste tipo, em 2010 subiu para 77, em 2011 desceu para 73 e em 2012 voltou a aumentar, desta vez, para 105 crimes graves.

O secretário-geral do Sistema de Segurança Interna, o juiz Antero Luís, explica o aumento da criminalidade grave e violenta no interior do país pela maior "facilidade de mobilidade e de deslocação" para estas regiões face ao que acontecia há alguns anos atrás.

O facto de haver um maior número de "pessoas mais frágeis", como idosos isolados, a residir nestes locais também pode ter contribuído para este aumento, adianta Antero Luís. A melhor forma de prevenir este aumento, defende o secretário-geral, é com programas de prevenção. "É impensável ter uma esquadra da GNR em cada aldeia", acrescenta.

Para o porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, Felipe Pathé Duarte, este aspecto "é inesperado" e pode ter várias explicações. "Esse aumento poderá estar associado ao tráfico de droga", admite.

Por outro lado, enfatiza que um dos reflexos da crise é o aumento do sentimento de insegurança, que pode levar as populações e as polícias a estar mais alerta e a participar mais crimes graves e violentos. "Até pode estar a registar-se um maior empenho no combate a este tipo específico de criminalidade no interior", completa Pathé Duarte.

Se nos distritos que concentram as principais cidades do país a criminalidade geral desceu o ano passado - Lisboa registou menos 3,9% de participações num total de 101.844, o Porto menos 2% e Setúbal reduziu 1,3% -, em nove distritos a evolução foi a inversa: em sete subiu até 5%, em Évora cresceu 6,4% e em Beja 10,1%. Em Leiria, a situação é curiosa. O distrito sobe mais de 18% na chamada criminalidade violenta e grave, mas desce 4,8% no número de crimes participados face a 2011.

O mesmo sucede com Coimbra, que diverge dos distritos onde se concentram as principais cidades do país. Em 2012 aumentou aqui de forma significativa a criminalidade violenta e grave participada (15,7%), apesar de ter descido ligeiramente o total de crimes registados (2,2%).

Apesar da diminuição da criminalidade geral e grave, são vários os ilícitos cuja participação aumentou, por vezes de forma relevante. Registou-se um aumento de 262 casos de roubos a residências (num universo total de 995 casos) e houve mais 34 assaltos a bancos, num total de 123 participações. Contabilizaram-se também mais 32 homicídios que em 2011, num total de 149. Destes, 37 foram homicídios conjugais, tendo ainda assim os crimes de violência doméstica registado um decréscimo de 10% em todo o território nacional.

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