Esquerda pode unir-se para provocar maratona de votações no Parlamento

Assunção Cristas quis a esquerda a votar contra o Programa de Estabilidade, mas acabou por funcionar como o factor de união da geringonça no debate quinzenal de quinta-feira e nas votações de hoje.

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A esquerda parlamentar tem-se mostrado unida contra a direita Rui Gaudêncio

À mesma hora em que António Costa falava, no Parlamento português, sobre as vantagens de haver uma geringonça que funciona, um dos partidos desta ‘aliança’ apresentava, em Bruxelas, uma declaração escrita sobre renegociação da dívida.

O texto, uma iniciativa dos deputados do PCP no Parlamento Europeu, foi publicitado às 16h15, mais ou menos a hora em que o primeiro-ministro dizia, em Lisboa, que os partidos à esquerda têm “conseguido resolver muitos problemas que à partida eram difíceis, tendo em conta o ponto de partida de uns e de outros”.

 António Costa começou ríspido: “Sim, sim, é geringonça, mas funciona. É uma grande vantagem, estão a ver? É geringonça mas funciona.” E continuou, depois das palmas da esquerda: “E até posso acrescentar mais: a nós não nos incomoda nada ser geringonça, mas a vocês incomoda-vos muito que funcione.”

Apesar de os comunistas em Bruxelas defenderem que as instâncias europeias devem iniciar “um processo de renegociação das dívidas públicas dos países mais endividados” com o objectivo de reduzir os “encargos anuais, fazendo-os regressar a níveis sustentáveis” - ideia que o PS de António Costa não defende -, em Portugal a geringonça une-se para fazer a vida difícil à direita.

Mais um sinal de união contra a direita

Isso mesmo será evidente esta sexta-feira, quando, no final do debate parlamentar, tiverem início as votações regimentais, que incluem a ida a votos dos projectos de resolução da direita sobre o Programa de Estabilidade e os projectos alternativos ao Programa Nacional de Reformas.

Essa votações ameaçam transformar-se numa verdadeira maratona: ao que o PÚBLICO apurou é muito provável que a esquerda peça a Eduardo Ferro Rodrigues para que os sete diplomas do PSD e um do CDS-PP sejam votados alínea a alínea. Caso seja levada à letra a votação de cada alínea dos oito projectos, no limite haverá quase 280 votações, o que pode levar a que os trabalhos entrem pela tarde adentro – a sessão, normalmente, termina antes da hora do almoço.

O PÚBLICO apurou que na quinta-feira à noite a questão estava a ser analisada à esquerda e que seria a forma de não haver contradição entre os princípios que o Governo inscreveu nos programas e medidas muito semelhantes que os sociais-democratas e centristas colocaram nos seus projectos mas que o PS acabaria por chumbar no plenário.

Porém, a menos que os centristas o desejassem, esta estratégia não se aplicaria ao projecto de resolução do CDS-PP que prevê a rejeição do Programa de Estabilidade, com que os centristas tentaram testar a união à esquerda e a coerência do apoio de Bloco, PCP e PEV ao Governo, já que estes têm criticado o documento mas não o querem votar nem viabilizar a proposta centrista.

Os projectos de resolução do PSD versam as temáticas que o Governo quis autonomizar para discutir em debates durante as últimas semanas no plenário da Assembleia da República, como a capitalização das empresas, qualificação dos portugueses, valorização do território, inovação na economia, justiça, coesão e igualdade social, e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.

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