Câmara de Lisboa rejeita que houve transfobia em Tudo sobre a Minha Mãe

A autarquia aprovou um “voto de solidariedade” no qual refuta “qualquer gesto discriminatório” na encenação que provocou um protesto na passada quinta-feira, no São Luiz.

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Tudo Sobre a Minha Mãe Frederico Martins/ Portuguese Soul

A Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou esta quarta-feira um "voto de solidariedade" para com "todos os profissionais do teatro" no qual se recusa a acusação de transfobia e discriminação no espectáculo Tudo sobre a Minha Mãe​.

A peça encenada por Daniel Gorjão, a partir do filme homónimo de Pedro Almodóvar, foi interrompida, na passada quinta-feira no Teatro Municipal São Luiz, pela artista trans, performer e trabalhadora do sexo Keyla Brasil, que invadiu o palco e reivindicou que a história da personagem Lola, uma trabalhadora do sexo trans, fosse contada e representada por uma actriz transgénero, e não por um actor cisgénero (quando a identidade de género de uma pessoa coincide com o sexo e género que lhe foram atribuídos à nascença).

O voto foi apresentado pelo vereador da Cultura, Diogo Moura (CDS-PP), em reunião pública da câmara, considerando que "a acusação de transfobia ou discriminação é profundamente injusta". Segundo noticiou a agência Lusa, a CML diz reconhecer a todos os cidadãos o direito de manifestação, "entendendo, no entanto, que essa liberdade não pode pôr em causa a liberdade de criação artística, a liberdade de escolha e de acesso à profissão, o direito ao trabalho e o direito à fruição cultural".

Este voto foi aprovado pela coligação Novos Tempos - PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança, à frente da CML, com a oposição do Bloco de Esquerda, do Livre e da vereadora Paula Marques (do Cidadãos Por Lisboa, eleita pela coligação PS/Livre) e com sete abstenções – quatro do PS, duas do PCP e uma da independente Floresbela Pinto (Cidadãos Por Lisboa).

Na sequência do protesto de Keyla Brasil – que tem vindo a gerar uma série de debates acesos no meio artístico e na comunicação social , o actor André Patrício foi substituído pela actriz trans Maria João Vaz. Apesar de já não interpretar o papel de Lola, Patrício continua no elenco do espectáculo, que entre esta sexta-feira e domingo passa pelo Teatro Municipal Campo Alegre, no Porto. Na sua página de Instagram, o actor afirmou ter-se sentido "violentado e castrado" na sua "arte", no seu "trabalho", considerando que "a forma escolhida de protesto não foi a adequada" porque o "desrespeita", bem como ao seu "empenho enquanto profissional".

Keyla Brasil respondeu, também no Instagram. "Eu quero dizer para você, com muito amor no meu coração, que você não foi violentado. Você tem ideia do que é uma violência, você sabe qual é a violência pela qual nós passamos? Você sabe onde eu estou agora? Eu estou no meio do mato, numa floresta, porque recebi uma ameaça de morte. Um homem mandou uma mensagem para mim a dizer: 'O Estado português jamais poderá ser afrontado por uma travesti brasileira; eu sei que você trabalha no Parque Eduardo VII e vou buscar você lá.' Isso é uma violência."

No final do protesto que ocorreu no dia 19, Gaya de Medeiros, actriz transgénero que interpreta a personagem trans Agrado, sublinhou que o acto de Keyla Brasil "não é contra o actor, nem o director", mas "contra uma denúncia histórica de algo que vem acontecendo há muitos anos": ou seja, "o apagamento da identidade travesti", nas palavras de Keyla, que pediu às estruturas e direcções artísticas do teatro português para contratarem pessoas trans "para, pelo menos, contarem as suas próprias histórias e narrativas". "Sabe por que é que eu trabalho como prostituta? Porque nós não temos espaço para estar aqui nesse palco", afirmou.

Com este voto, a CML manifestou a sua "solidariedade para com todos os profissionais do teatro, nomeadamente os responsáveis pela produção, encenação e os mais directamente ligados à arte da representação" e refutou "em absoluto a acusação de que a peça Tudo Sobre a Minha Mãe, com o seu elenco inicial, constitui qualquer gesto discriminatório", lamentando ainda "o acto intempestivo de interrupção da representação".

Já Beatriz Gomes Dias, vereadora do Bloco, demonstrou o seu apoio às pessoas trans "que sofrem de exclusão, violência e falta de oportunidades no mercado de trabalho", e Paula Marques disse entender o protesto pela representatividade na ocupação do espaço público.

Do lado de quem se absteve do voto, Cátia Rosas, vereadora do PS, considerou este assunto "um pouco complexo" e diz ser "difícil tirar conclusões tão simples", enquanto Ana Jara, do PCP, referiu que "este episódio colocou no debate público um problema que não pode ser ignorado: a falta de investimento na cultura e a falta de acesso ao trabalho de todas e todos os trabalhadores artísticos".

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