Empresa a que Miguel Alves adiantou 300 mil euros só tem um accionista

O então presidente da Câmara de Caminha atestou a credibilidade da empresa com a experiência dos “accionistas”. Afinal, o único accionista é o próprio administrador da empresa.

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Miguel Alves, secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, tomou posse em Setembro Rui Gaudencio

Existe apenas um accionista da empresa à qual o novo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro, Miguel Alves, adiantou 300 mil euros de rendas quando era presidente da Câmara Municipal de Caminha, em 2021, para a construção e o arrendamento, não se sabe ainda onde, de um pavilhão multiusos: o próprio administrador da sociedade, Ricardo Moutinho.

De acordo com os estatutos da empresa, a que o PÚBLICO teve agora acesso, o capital da Green Endogenous S.A., no valor de 50 mil euros, é detido na totalidade pela Greenfield SGPS, Unipessoal Lda., uma empresa com o capital de cinco mil euros que, por sua vez, é detida exclusivamente por Ricardo Moutinho, administrador único de ambas.

Uma terceira empresa relacionada com os prometidos investimentos de dezenas de milhões de euros em Caminha é a Greenfield, Sociedade de Capital de Risco S.A., com um capital de 125 mil euros, pertencente na quase totalidade a Ricardo Moutinho e, residualmente, aos seus pais e a outro sócio.

Tanto a Green Endogenous como a Greenfield foram criadas “na hora”, a 14 de Fevereiro de 2020, noticiou o Expresso.

Isto ​oito meses antes da assinatura do contrato-promessa entre a autarquia e a empresa que prevê o arrendamento do pavilhão (cuja construção está orçada em oito milhões de euros) durante 25 anos por cerca de 25 mil euros mensais, como noticiou o PÚBLICO esta semana. E cerca de um mês antes do primeiro contacto, alegadamente, entre Miguel Alves e Ricardo Moutinho, em Abril de 2020.

Em Setembro de 2020, o então presidente de câmara sustentou a idoneidade da empresa com a qual negociou a construção e o arrendamento do pavilhão, intitulado Centro de Exposições Transfronteiriço, em vários documentos e em declarações na câmara e na assembleia municipal de Caminha com a experiência com “equipamentos semelhantes” e em “parcerias estratégicas” dos “accionistas” da Green Endogenous S.A.

Supostamente, estes teriam investimentos de mais de mil milhões de euros em “mais de 20 aeroportos”, oleodutos e outros grandes empreendimentos, nomeadamente na área hoteleira, em numerosos países.

Questionado pelo PÚBLICO, o administrador da empresa afirmou que a “empresa-mãe” da Green Endogenous seria uma empresa registada no Dubai, a Greenfield FZCO. Mas também referiu que, quando falou nos investimentos e activos da Green Endogenous na reunião em que a câmara aprovou o contrato, queria referir-se à Greenfield, sugerindo assim que esta seria a accionista da empresa.

Neste sábado, durante a conferência de imprensa conjunta com a primeira-ministra de França, Élisabeth Borne, no Palácio Foz, em Lisboa, o primeiro-ministro, António Costa, citado pela Lusa, não respondeu a uma pergunta sobre se mantinha a confiança política no seu secretário de Estado Miguel Alves. com Ana Bacelar Begonha

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