Greve em França esteve longe de ser geral, como pediam sindicatos

Paralisação prossegue nas refinarias e depósitos de combustível, mas não teve o impacto esperado noutros sectores. Governo acusa “uma minoria” de “bloquear o país”.

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Na manifestação em Paris houve alguns desacatos com a polícia CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA

Cerca de 100 mil pessoas participaram esta terça-feira em manifestações em 150 cidades de França para reclamar contra o custo de vida e exigir aumentos salariais, anunciou o Ministério do Interior ao fim de um dia marcado por uma greve multissectorial que ficou muito aquém do objectivo de paralisar o país.

A mobilização fez-se sentir de diferentes formas consoante os sectores e as zonas do país. Houve perturbações na circulação dos comboios suburbanos e dos autocarros nas grandes cidades, enquanto os serviços ferroviários de longo curso e o metro parisiense funcionaram quase como habitualmente. Nas gares de Lyon e do Nord, em Paris, os ferroviários decidiram prolongar a greve para quarta-feira, mas a companhia de caminhos-de-ferro SNCF prevê “um regresso progressivo ao normal”.

Houve escolas secundárias encerradas por organizações estudantis e à volta de 6% dos professores do ensino público aderiram à greve, segundo o Ministério da Educação. Destes, 23% leccionam em escolas profissionais e reclamam especificamente contra uma proposta legislativa de Emmanuel Macron para este tipo de ensino.

Como habitualmente, as estruturas sindicais apresentam números muito diferentes dos do Governo. A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), que liderou a convocatória da greve, diz que 62% dos professores do ensino profissional aderiu à paralisação e que foram 300 mil as pessoas que estiveram nas ruas francesas.

A situação mais preocupante para o Governo de Macron continua a ser a greve na TotalEnergies. A primeira-ministra, Élisabeth Borne, disse no Parlamento durante a tarde que graças ao fim das greves na Exxonmobil, às requisições civis e ao aumento das importações de combustível, “menos de 25% estações de serviço estão em ruptura face a 30% durante o fim-de-semana”.

Ainda assim, a paralisação em seis refinarias e depósitos de combustível da Total continuam a dar origem a longas filas nos postos de abastecimento do país. A CGT, que é o sindicato mais representativo nestas infra-estruturas mas não no conjunto do grupo petrolífero, decidiu não assinar o acordo salarial alcançado entre a administração e outros dois sindicatos. Os trabalhadores reuniram-se ao final desta terça-feira para decidir se continuavam a greve ou não. “Não é aceitável que uma minoria continue a bloquear o país e é tempo de retomar o trabalho”, disse Borne.

Na segunda-feira à noite, Emmanuel Macron chamou ao Eliseu a primeira-ministra e quatro ministros para tentar encontrar uma saída para a crise. “Quero que isto seja resolvido o mais depressa possível”, disse o Presidente francês antes da reunião. “Estou ao lado dos nossos compatriotas que lutam e que estão fartos desta situação.”

Uma sondagem do instituto Elabe para a televisão BFM concluiu que 49% dos franceses estava contra a greve de terça-feira, havendo mais simpatia pela mobilização entre os eleitores de Jean-Luc Mélenchon e as pessoas entre os 25 e 34 anos.

“O Governo parece surpreendido por esta mobilização, mas tem de olhar a realidade de frente: há um problema de salários neste país, precisamos de uma revalorização geral”, declarou o secretário-geral da CGT ao L’Obs à cabeça da manifestação parisiense. Philippe Martinez prometeu que a greve desta terça-feira terá capítulos seguintes.

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