A partir de agora, o aeroporto de Faro chama-se Gago Coutinho

Marcam-se os 200 anos da independência do Brasil, celebra-se o Dia do Município de Faro e homenageia-se o almirante, com raízes familiares no Algarve, que realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul: foi há cem anos, entre Lisboa e o Rio. Curiosidade: um baptismo de conexões luso-brasileiras para um aeroporto sem voos directos com o Brasil.

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O primeiro-ministro António Costa oficializa o novo nome do aeroporto de Faro LUSA/Ricardo Nascimento

Aeroporto Internacional Gago Coutinho. A partir desta quarta-feira, 7 de Setembro, é esta a denominação oficial do aeroporto de Faro. O momento foi marcado institucionalmente numa cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro António Costa e de representantes de várias autoridades e entidades.

A escolha de 7 de Setembro para a cerimónia oficial de redenominação prende-se com a celebração do bicentenário de independência do Brasil, mas, coincidentemente é também o Dia do Município de Faro, o que originou algum desacerto de programas entre Governo e autarquia local, com direito a polémica e lamentos.​

Celebra-se também o almirante Gago Coutinho (Lisboa, 1869-1959, com pais e família do Algarve)​, que há um século, com Sacadura Cabral, cumpriu o feito da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, numa viagem entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em hidroavião. O marco histórico da aviação teve início no Tejo, em Lisboa, a 30 de Março de 1922, e aterrou na meta, na Baía de Guanabara, dois meses e meio depois, a 17 de Junho.

“Um dos factores decisivos para o sucesso desta viagem foi a invenção, por Gago Coutinho, de um aparelho de navegação aérea – um novo tipo de sextante”, sublinha a ANA - Aeroportos de Portugal na apresentação da redenominação. “Por se ter revelado eficaz na navegação entre o rio Tejo e a Baía de Guanabara, acabou depois a ser utilizado nas décadas seguintes na indústria aeronáutica”, assinala-se. Gago Coutinho foi o navegador dessa “aventura de 4500 milhas náuticas (8300 quilómetros)”, o comandante Sacadura Cabral o piloto.

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Aeroporto Gago Coutinho, Faro Ricardo Nascimento/Lusa

Segundo dados da ANA, gerida pelo grupo Vinci, o agora Aeroporto Gago Coutinho, inaugurado em 1965, registou em 2019 um “recorde no número de passageiros": “um total de 9.1 milhões”. Em Faro, operam este Verão “27 companhias regulares que viajam para 63 destinos, através da operação de 75 rotas”. “É o principal aeroporto turístico em Portugal”, refere a ANA, desempenhando “um papel determinante no desenvolvimento económico do país ao servir os principais pólos de turismo do sul de Portugal e Espanha”.

A mais recente inovação do aeroporto: uma central fotovoltaica, com “uma capacidade instalada de 2,9 MWp”, que “irá permitir produzir 30% das necessidades energéticas do aeroporto”, garante a gestora, “gerando uma poupança anual equivalente a mais de 1.500 toneladas de CO2”. Um projecto que, realça-se, será “o primeiro em ambiente aeroportuário em Portugal”.

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Sacadura Cabral e Gago Coutinho na aeronave Lusitânia MUSEU DE MARINHA

A nova denominação oficial do aeroporto foi aprovada pelo Governo em Conselho de Ministros em Junho, após uma iniciativa de um grupo de cidadãos.

Detalhe curioso: apesar de um baptismo repleto de referências luso-brasileiras, o que Faro não tem é realmente ligações aéreas directas com o Brasil.

Uma coincidência “feliz”, um desacerto “lamentável"

A cerimónia oficial ficou marcada por alguma polémica e desencontro entre o programa do Governo e da autarquia de Faro. O presidente da Câmara de Faro, Rogério Bacalhau, disse à Lusa considerar “lamentável” o primeiro-ministro ter ignorado a autarquia na preparação da cerimónia. O Dia do Município de Faro inclui um vasto programa de comemorações com individualidades que depois foram convocadas para estar à mesma hora no evento com a presença de Costa.

“Acho lamentável que o senhor primeiro-ministro promova as cerimónias da Independência do Brasil e dos seus 200 anos em Faro e que não haja ninguém do seu gabinete que entre em contacto com o presidente da Câmara [...] para lhe comunicar, para lhe dar a conhecer e, neste caso, tendo em conta que é o Dia da cidade [...], para articular tudo isso”, disse Bacalhau à agência. “Um incómodo para toda a gente”, resumiu.

Já o primeiro-ministro acabaria por lamentar que não tenha sido possível conciliar as cerimónias. “Tenho pena que não tenha sido possível conciliar os horários”, disse Costa à margem do evento, citado pela Lusa. Por outro lado, considerou que “a coincidência é feliz, o Dia do Bicentenário do Brasil ser também o Dia do Município de Faro” e felicitou “todos os farenses e o seu município”.

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