Morreu Issey Miyake, o revolucionário da moda japonesa, aos 84 anos

Da gola alta preta de Steve Jobs ao uniforme das elites artísticas dos anos 1980, Miyake mudou a relação entre costura e corpo, aplicando a tradição e os materiais japoneses mas depois inovando tecnologicamente. Até perfumou o mundo. Morreu em 5 de Agosto de cancro do fígado.

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O designer japonês Issey Miyake morreu a 5 de Agosto de cancro de fígado Reuters/Kim Kyung Hoon
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O trabalho de Issey Miyake podia ser visto nas semanas de moda de Nova Iorque e também nas de Paris STEPHANE MAHE/Reuters
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Issey Miyake reformou-se em 1997, dedicando-se à investigação Kim Kyung Hoon/Reuters

O designer japonês Issey Miyake, revolucionário nome da moda mundial e pioneiro da afirmação do design japonês, morreu aos 84 anos, avançam os meios de comunicação nesta terça-feira. Morreu e 5 de Agosto de cancro do fígado, informa a agência de notícias japonesa Kyodo.

Em duas palavras, Pleats Please: o trabalho de Issey Miyake era multifacetado, mas com uma identidade consolidada que nunca derivou. O seu feito mais inovador foi o uso das pregas, aliás dos plissados, na confecção de vários tipos de peças que não só lhes conferiram o cariz rectilíneo de uma prega, mas também a vantagem de nunca se amarrotarem. A colecção chamava-se assim, Pleats Please, alicerçada no conhecimento do seu treino parisiense mas também na observação de mestres do início do século como Madeleine Vionnet, a rainha do viés, ou o menos conhecido Marcelo Fortuny. O resultado final era a transformação de quem vestia Miyake em algo escultural, fosse em seda ou fibras sintéticas.

A sua forma de trabalhar o plissado implicava envolver tecidos entre camadas de papel e colocá-los numa prensa térmica. Foi de tal forma importante que da colecção, Pleats Please passou a linha de vestuário. Passou também a ser uma espécie de uniforme: as elites intelectuais e artísticas usavam Miyake, e usavam os seus plissados em combinações sempre coloridas. Quando enveredou pela moda masculina, criou um novo culto que incluía David Bowie ou o editor do site especializado Business of Fashion Tim Blanks.

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Uma peça da colecção "Rhythm Pleats", de 1990 Cortesia V&A Museum

Anos mais tarde, o co-fundador da Apple Steve Jobs pediu-lhe para desenhar a sua aparentemente simples e icónica camisola de gola alta preta, que usava diariamente e em todas as suas aparições públicas. Segundo a BBC, ter-lhe-á feito cem exemplares, a 175 dólares cada.

O movimento japonês

A sua geração — nasceu em Hiroxima e não queria ser conhecido como “o designer que sobreviveu à bomba” atómica com que os EUA atacaram a cidade em 1945, quando tinha sete anos, como escreveu em 2009 no New York Times — encetou um movimento. Nos anos 1970, novas identidades nacionais entravam no sistema global de moda.

Issey Miyake estudou design gráfico em Tóquio mas foi em Paris, precisamente, que se formou em moda com os nomes mais importantes do momento: Guy Laroche e Hubert de Givenchy. Estudou na muito exclusiva École de la chambre syndicale de la couture parisienne. Myake, a par de Kenzo e Hanae Mori, chegavam ao centro mundial da moda para trabalhar.

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Vestido Myake numa exposição em Portugal André Rodrigues

Depois, esse movimento consolidar-se-ia nos anos 1980 com os seus conterrâneos Rei Kawakubo, da Comme des Garçons, e Yohji Yamamoto que na década de 1980 mostraram pela primeira vez as suas colecções em Paris. A seguir viriam os belgas, mas essa é outra história. Os três grandes designers japoneses da altura — Miyake, Kawakubo e Yamamoto — “revolucionaram a nossa concepção do corpo e do vestuário”, como postula Charlotte Seeling no livro Moda.

Depois de Paris, Miyake foi para Nova Iorque, outro centro mundial da moda mas com um cariz totalmente diferente. Era o reino do pronto-a-vestir e o espírito era muito mais prático, o tal de “casual americano”. Em 1971, apresentou a sua primeira colecção em Nova Iorque mas Paris não o deixa escapar. Faz apresentações bianuais na capital francesa, ao mesmo tempo que mantém como fornecedor o seu país e os seus materiais. “O corte do vestuário ocidental parte do corpo, o do japonês parte do tecido”, postulava.

Um exemplo de uma peça da A-POC e sua desconstrução Cortesia MoMA
Cortesia MoMA
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Um exemplo de uma peça da A-POC e sua desconstrução Cortesia MoMA

É daí que vem outro dos seus legados, o da investigação no têxtil e da ligação à inovação tecnológica. Em 1998 fundou a A-POC, uma linha de vestuário experimental que mais traduzia o seu interesse sobre a vida contemporânea e a forma como o têxtil podia e devia servi-la — está presente em vários museus e a sua essência é que uma máquina especial de tecelagem faz diferentes roupas a partir de um único rolo (contínuo) de tecido. Fundou o 21_21 Design Sight em Tóquio, um museu de arte moderna que espelhava também o seu olhar sobre a criação.

Mas a sua obra também fica marcada por um outro nome, L’Eau d’Issey, o seu perfume de assinatura e um bestseller perene, representando uma fase muito concreta do sistema da moda — a declinação da identidade dos designers em produtos secundários, neste caso a perfumaria, que em muito influem nas receitas das suas empresas.

O seu atelier, de cujas linhas da frente estava retirado há algum tempo mas que nunca abandonou, emitiu um comunicado em que resume o espírito Miyake. “Nunca pessoa de abraçar tendências, o espírito dinâmico de Miyake era movido por uma curiosidade impagável e por um desejo de transmitir alegria através do design. Eterno pioneiro, tanto acolhia as artes manuais tradicionais quanto procurava a próxima solução: a tecnologia mais recente, alimentada pela investigação e pelo desenvolvimento. Nunca se afastou do seu amor, o processo de fazer coisas. Continuou a trabalhar com as suas equipas, criando novos desenhos e supervisionando todas as colecções sob as várias etiquetas Issey Myake. O seu espírito de alegria, empoderamento e beleza será continuado pelas gerações seguintes.”

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Steve Jobs em 2008 reuters

De Hiroxima para o mundo

“Quando fecho os olhos, ainda vejo coisas que ninguém deveria experienciar”, escreveu Miyake no New York Times, em 2009. A mãe morreu três anos depois da bomba nuclear, e Issey sobreviveu-lhe, devorando as revistas de moda da irmã, sonhando com profissões ligadas ao corpo, como bailarino ou atleta. “Eu gravitava em direcção ao campo do design de roupas, em parte porque é um formato criativo moderno e optimista”, cita-o a agência Reuters a partir desse ensaio no diário nova-iorquino.

Acabaria por cumprir o sonho da dança, afinal, quando desenhou figurinos para o Ballet de Frankfurt, por exemplo, sob a direcção artística de William Forsythe. A escolha era a estética Pleats Please, mas Miyake não foi só plissados. Os seus bustiers tornaram-se referência, corpetes de plástico que não se preocupavam em ser coleantes. Os corpos balançavam apesar deles. O comunicado do seu atelier faz referência a uma das suas linhas, a Miyake Making Things. Eram roupas, mas sobretudo obras de arte exclusivas. Uma couture de conceito e irrepetível.

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Casaco Issey Miyake, parte da colecção do Mude Rui Gaudêncio

“Em Paris, chamamos costureiros às pessoas que fazem roupa — elas desenvolvem novos itens de vestuário - mas na verdade o acto de desenhar é fazer algo que funciona na vida real”, disse ao diário britânico The Guardian em 2016.

A sua carreira foi longa e cruzou fronteiras nas indústrias criativas, tendo o seu trabalho sido exposto em vários museus e integrando as colecções de instituições mundo fora. Da Fundação Cartier ao Museu do Design e da Moda de Lisboa (Mude), passando pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) e pelo Victoria & Albert de Londres, as peças de Issey Miyake eternizam a força da sua criação.

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