Não fumam, bebem pouco, andam tristes e deprimidos: estudo traça retrato dos alunos da Universidade de Lisboa

Mais de mil alunos do primeiro ano das faculdades da Universidade de Lisboa responderam a perguntas sobre saúde e bem estar físico e emocional.

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Um quinto dos alunos que respondeu ao inquérito era do Instituto Superior Técnico Nuno Ferreira Santos

Mais de metade dos jovens que participaram num estudo feito na Universidade de Lisboa sentem-se tristes, deprimidos, irritados e nervosos pelo menos uma vez por mês. Ao mesmo tempo, estes estudantes apresentam baixos consumos de álcool (48,8%) e a grande maioria diz não fumar tabaco (84,4%).

A psicóloga Margarida Gaspar de Matos, uma das autoras do estudo Saúde e estilos de vida dos estudantes universitários à entrada da universidade”, publicado esta terça-feira, destaca a importância da investigação que, mais uma vez, revela a existência de problemas de saúde mental, privação de sono, preocupações, má alimentação, sedentarismo ou o uso excessivo de ecrãs.

O inquérito online foi feito a 1143 estudantes do 1.º ano de 17 faculdades e institutos da Universidade de Lisboa, sendo que 21% (a maior fatia) são alunos do Instituto Superior Técnico (IST). Em Outubro, o IST já havia feito um inquérito interno a 1897 estudantes que revelava que 17% dos inquiridos mostravam um nível alto de risco na saúde mental, tal como noticiou o PÚBLICO.

Apesar de os futuros engenheiros não serem reconhecidos globalmente por terem mais sintomas de mal-estar psicológico, é muito natural que haja estes sentimentos de irritação, nervosismo, preocupação e tristeza. Foram (e ainda são) tempos difíceis, onde, contrariamente à elevada expectativa de entrar na faculdade e gerir melhor o seu futuro e autonomia, eles encontraram uma cidade fechada, uma faculdade fechada”, desenvolve Maria Gaspar de Matos.

Dizem que quase todos os dias “estão nervosos” 20,4%; 12,9% sentem-se tristes e deprimidos diariamente; 11,8% ficam irritados e cerca de 6,8% dizem sentir-se com medo. Mais de metade dos jovens numa escala de zero a dez (média de 6,62), dizem estar satisfeitos com a vida. Quando se coloca a mesma questão numa base mensal as percentagens disparam para os 65,9% da tristeza e depressão; para 73,2% na irritação e 67,7% no nervosismo. São, ao mesmo tempo, muito preocupados, sendo que cerca de 24,5% refere ter uma preocupação intensa que não os larga e não os deixa ter calma para pensar em mais nada”.

Mas se por um lado sentem todas estas preocupações, irritações e tristezas, não é no psicólogo que tentam superar o problema. 79,3% destes jovens nunca foi ou raramente vai ao psicólogo. Ao médico de família apenas quando estão doentes (46,6%). “Tirando o dentista, o oftalmologista e o médico de família, os jovens quando estão doentes vão pouco a todos os profissionais de saúde. Devido também a condições económicas. Há um número reduzido de psicólogos e nutricionistas nos cuidados de saúde primários, e os cuidados no sistema de saúde privado são dispendiosos”, justifica Maria Gaspar de Matos.

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Poderão ser vários os motivos que levam a estes números preocupantes, como por exemplo a falta de horas de descanso. Mais de metade dos jovens diz ter perturbações na qualidade do sono (69,4%). Em média dormem menos de oito horas por dia (59,3%). O estudo mostra ainda que 87,6% tem um comportamento sedentário e que grande parte dos jovens usa excessivamente ecrãs (89,9%). Cerca de 39% joga online, tendo sido registado um aumento significativo em tempo de pandemia.

Os dados não surpreenderam os investigadores: “Vários estudos indicam-nos que a surpresa e a tentativa de organização no primeiro confinamento foi sendo substituída por uma enorme fadiga e sinais de mal-estar psicológico variado”, afirma a psicóloga.

Hábitos mais saudáveis?

Comem mal e são muito sendentários, mas sabem que o são. Pelo menos a avaliar pelo grau de literacia nutricional que apresentam: 83,8% tem uma literacia nutricional considerada adequada.

Para além disso, a maioria refere não fumar (84,4%); menos de metade dos jovens consumiu álcool uma ou mais vezes nos últimos 30 dias (48,8%); 93,1% não consumiu qualquer droga ilegal no mês anterior ao inquérito e 43,6% pratica actividade física uma a três vezes por semana.

Embora o resultado obtido em relação ao consumo de drogas e álcool tenha diminuído para valores inferiores ao que era habitual, estima-se que exista uma probabilidade de os números dispararem depois da pandemia.

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Margarida Gaspar de Matos salienta que a grande maioria dos jovens pratica actividade física menos de três vezes por semana, o ideal seria a sua prática diária. Na universidade a prática desportiva individual mais frequente é a ida ao ginásio, que tem um custo associado. Nem todos os estudantes têm condições económicas para despender desse valor porque têm que gerir muito bem a sua mesada e isso não é uma prioridade. Além disso, exemplifica que “sedentário e desportista não são dois pólos contínuos”. “Um jovem pode ter um comportamento sedentário, como por exemplo estar cinco horas por dia a ver séries, e depois passar uma hora todos os dias a correr ou a praticar desporto. Vemos isto em dois eixos ortogonais: activo e não-activo e sedentário e não-sedentário”.

Que medidas tomar?

Perante mais um estudo que chega à mesma conclusão de que os alunos estão a passar por momentos complexos no que respeita à sua saúde mental, Margarida Gaspar de Matos mostra-se confiante que a reitoria “vai tomar em boa consideração os resultados e adoptar medidas em complementaridade com outros estudos em curso nesta e noutra universidade”. “Estamos num daqueles momentos históricos onde temos de juntar esforços”, declara.

Adoptar medidas de apoio a um estilo de vida saudável, nomeadamente através da promoção de um amplo debate sobre este tema nas faculdades, identificar as escolas onde existam núcleos mais problemáticos e trabalhar mais intensamente junto das associações de estudantes e dos órgãos de gestão, são algumas das medidas propostas.

Outro dos caminhos apontados pela equipa que assina o estudo é a organização de dois serviços médicos, um de apoio nutricional e um outro de apoio psicológico de “‘fim de linha’ para consultas de rastreio e mesmo de seguimento de casos mais ligeiros ou de articulação com outros serviços de saúde, dimensionado para o tamanho da escola ou universidade”. “Esta é uma necessidade já com muitos anos. A pandemia veio evidenciá-la e torná-la uma prioridade”, remata Margarida Gaspar de Matos.

Texto editado por Rita Ferreira

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