O que se passa com as crianças que parecem ter um polícia dentro delas?

Escusado será dizer que o resultado é que à primeira frustração tornavam a vida num inferno. A deles, e de toda a gente que está à volta, sobretudo a das pobres mães que apanham sempre por tabela, acrescento eu.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Ana,

O que andam a dar às crianças para elas ficarem tão histéricas quando erram? Desde quando é que um miúdo de cinco ou seis anos fica desesperado porque a flor que acabou de desenhar não está tão perfeita como a imaginou, e numa fúria rasga e deita fora o papel? Não estou a inventar, já vi acontecer várias vezes, com estes olhinhos.

Seria fácil acusar os pais de exigência a mais, ou de quererem transformar os filhos em cavalinhos de corrida, na ânsia de os tornar nos melhores alunos da aula ou da escola, mas parece-me que é mais do que isso. Estes miúdos parecem ter dentro de si um polícia, um polícia muito mais rigoroso do que os pais, os professores e, claro, os avós.

Lembro-me de ter conversado sobre isto com o Eduardo Sá, e de ele me ter dito que os pais deviam zangar-se com os filhos quando eles manifestam estas crises de perfeição, para que percebam que tudo deve ter uma dimensão de bom senso. Dizia que a intolerância ao erro não é um defeito de fabrico, mas um defeito que vai sendo reforçado e que acaba por funcionar como colete-de-forças. E que os levava a ter uma atitude um bocadinho aristocrática em relação àquilo que fazem, num registo do género “Cada um é para o que nasce e eu estou muito virado para esta ou aquela tarefa, mas para as outras baixo os braços e não sujo as mãos”. Escusado será dizer que o resultado é que à primeira frustração tornavam a vida num inferno. A deles, e de toda a gente que está à volta, sobretudo a das pobres mães que apanham sempre por tabela, acrescento eu.

O que fazer? Olha, eu se fossem meus filhos — gostas desta frase?! —, obrigava-os a tirar o desenho do lixo, a colar os bocadinhos e a pendurá-lo na porta do frigorífico.

A sério, o futuro destes miúdos aflige-me, porque não há saúde mental que aguente esta ambição de perfeição. Se não conseguem relativizar o erro, espera-os um longo e penoso caminho de constante frustração. O que te parece?


Querida Mãe,

Em primeiro lugar tenho de lhe dizer que não me lembro de alguma vez ter visto um desenho recolado na porta do frigorífico e, se a memória não me falha, a mãe tinha em casa uma miúda muito, mas muito, avessa ao erro! (Deve ler estas linhas ao som da minha gargalhada trocista.)

Agora mais a sério, como mãe, questionei-me como é que me podiam ter calhado filhas tão perfeccionistas, como é que podia ter uma criança absolutamente desesperada por não ter acertado nisto ou naquilo ou com medo de ir para a escola sem confirmar antes comigo se os trabalhos de casa estavam bem. Como? Se eu, Ana, sempre fui tão descontraída com as notas, se mesmo de verdade não sinto nada que as minhas filhas tenham de ser óptimas nisto ou naquilo, se acho tão natural errarem, se acredito profundamente que é necessário e saudável errar.

A resposta surgiu quando estava a praticar uma peça de piano para uma audição: ouvi-me constantemente a dizer “Ai, que estúpida!”, “Ugh, como é que não consigo tocar estas notas?”, “Agh, óbvio... que burra!” , e coisas do género. Não, como a mãe bem sabe, não tive uma mãe que me chamava burra de cada vez que me enganava, nem que tinha a expectativa de que eu fosse a melhor pianista do mundo, mas, agora que estou mais atenta, oiço este discurso constantemente na sua boca, referindo-se a si mesma. Quando se esquece de alguma coisa, quando bateu com o carro num pilar de um parque de estacionamento, quando imagina que não está a trabalhar tanto quanto achava que devia... E também a oiço em milhares de professores que interpretam o erro da criança como uma falta de atenção, ou de interesse: “Mas não estás atento?”, “Quantas vezes vou ter de repetir?”, “Como é que falhaste, se acabei de te explicar?”. A intolerância ao erro está por todo o lado!

Mas talvez a mãe tenha razão, e o mundo esteja mais cheio de comparação, com as redes sociais onde, mesmo sem querer, nos medimos constantemente em relação aos outros, com livros e blogues de auto-ajuda a promoverem a ideia de que só não consegue ser extraordinário quem não quer.

Quanto ao que podemos fazer contra tudo isto, sinceramente não discordo da ideia de que os pais se podem mostrar “zangados” com a ideia de que a perfeição é uma meta a atingir. Ou que se “zanguem” com a voz da ansiedade que lhes está a dizer que se falharem as consequências vão ser catastróficas. Mas se queremos ser eficazes no combate ao perfeccionismo e ao medo de falhar, comecemos por onde se deve começar sempre: por nós próprios.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.

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