Os portugueses reciclam. Mas há espaço para separar mais e melhor

Novo estudo da Sociedade Ponto Verde faz raio-x aos comportamentos e práticas dos portugueses quanto à reciclagem. Proximidade e simplicidade são as palavras do futuro

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O assunto não é novo mas é importante. O novo estudo feito pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e Observatório de Ambiente, Território e Sociedade, para a Sociedade Ponto Verde (SPV) mostra-nos que os Resíduos Urbanos (RU) estão no topo das preocupações ambientais dos portugueses. O estudo coordenado pela socióloga Luísa Schmidt, uma das vozes mais incisivas do país relativamente à defesa do ambiente, dá a conhecer as práticas, representações e atitudes da população portuguesa face aos RU.

Resíduos Urbanos são uma preocupação, sim. Mas ganha a conveniência

Apesar de 30% dos portugueses inquiridos revelarem que não separam resíduos e 3% assumirem que deixaram de o fazer, actualmente a separação é uma prática comum em grande parte das casas dos portugueses (67%) que participaram neste estudo. Dessa comunidade de separadores, 95% declara que dá especial importância a resíduos como embalagens de plástico, garrafas e frascos de vidro. “Existe um claro destaque em relação aos hábitos de reciclagem de outros tipos de resíduos”, explica Ana Isabel Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, contudo, se por um lado esta boa prática é já uma realidade, “há ainda muito caminho a percorrer para melhorar todo o sistema de gestão de resíduos do país”, verifica.

A disposição que os separadores apresentam para executar boas práticas face aos resíduos urbanos varia consoante o perfil de comportamento em que encaixam. Essa caracterização, que identifica a população inquirida em cinco categorias (Não separadores, Ecopontual simples, Ecopontual plus, Separador Avançado e Super Avançado), altera-se na presença de factores como o nível de educação, o nível socioeconómico, a condição habitacional e os níveis de literacia sobre resíduos. Os dados do inquérito revelam ainda que as mulheres organizam mais a separação em casa e os homens vão mais ao ecoponto mas o estudo vai ainda mais longe nesta caracterização e demonstra que os filhos assumem um importante papel como influenciadores na decisão de começar a praticar a separação e reciclagem de embalagens em casa. Em todo o caso, um dos aspectos mais críticos para a adopção desta prática prende-se com a conveniência da localização dos ecopontos.

Recicla-se sim, mas especialmente quando dá jeito. Sobre esta temática, Ana Trigo Morais refere que além de ser “necessário incorporar cada vez mais tecnologia em todo o processo, permitindo optimizar recursos e apoiar a gestão e os processos de decisão, será necessário melhorar o serviço ao cidadão através de soluções de proximidade e de uma aposta em campanhas de sensibilização sobre todo o circuito da reciclagem”.

Simplicidade acima de tudo, dizem os portugueses

Quanto mais simples, melhor, é o que nos mostram os dados do inquérito. O estudo revela que é aconselhável uma simplificação da composição das embalagens, de forma a facilitar a identificação para uma correcta e fácil separação, caso contrário, a actual complexificação dos RU pode tornar a separação um processo confuso que pode ser desmobilizador para os cidadãos.

Sobre a possibilidade de, a partir de 2022, pagarem uma taxa sobre as embalagens adquiridas, sendo que o valor é devolvido no momento do retorno, através de um Sistema de Depósito e Reembolso (SDR), 65% dos portugueses viu com bons olhos esta medida e mostra intenção de devolver embalagens para receber o valor do depósito.

Conhece as máquinas de depósito com retorno (SDR) para embalagens de bebidas que foram instaladas em algumas zonas do país? O feedback do focus group assinala boa receptividade ao sistema: 51% dos inquiridos revela que aceitaria a ideia de colocar recipientes de bebidas nos depósitos, caso as máquinas fossem colocadas perto da sua zona de residência; 67% dos portugueses nunca ouviu falar de DRS; e só 4% dos cidadãos é que afirma já ter visto e utilizado em território nacional.

Estes dados mostram-nos uma conclusão essencial para delinear o futuro da reciclagem, como Ana Trigo Morais dá conta em entrevista ao Público: “ainda há quem não recicle e há quem já o faça, mas que ainda tem um forte potencial de separação. Ou seja, que ainda existe espaço para separar mais e melhor”.

Portugueses aceitam mudança mas pedem mais informação

Leu bem, os portugueses estão disponíveis para aderir a mudanças que o futuro poderá trazer ao sistema instituído de gestão de resíduos e para aceitar novas medidas a serem colocadas em prática brevemente, como o pagamento de uma taxa sobre embalagens compradas, que é ressarcida no momento em que os cidadãos colocam o resíduo na máquina de SDR (serão implementadas em 2022) - 65% dos inquiridos admitem devolver as embalagens para voltar a colocar esse valor nas suas carteiras -, e a eliminação dos plásticos descartáveis, mas pedem mais sensibilização sobre o tema. 67% dos inquiridos entende que necessita de mais informação para adoptar estas práticas e por conseguinte melhorar o funcionamento do sistema de gestão de resíduos.

Simplicidade de processos e proximidade aos ecopontos é a estratégia do futuro para conquistar quem não recicla: a CEO da SPV refere que é essencial pensar-se em estratégias de comunicação a nível local e a “evolução do sistema no sentido de se fazerem recolhas porta-a-porta, na casa dos consumidores e mais perto dos locais de consumo, poderá permitir inverter esta situação”.

Através dos dados apresentados, e como nos conta Ana Trigo Morais, ficamos a perceber que “a missão da SPV está longe de estar completa”. É preciso ir mais longe, diz-nos, “precisamos de continuar a sensibilizar e a comunicar com o cidadão não só para promover boas práticas no campo da reciclagem como também para promover hábitos de consumo sustentáveis e equilibrados. E o caminho passa também por promover a criação de melhores embalagens para reciclagem e também de melhores processos” e, continua, passa também “por explicar às pessoas que a separação que fazem em casa e a deposição das embalagens nos ecopontos ajudam a melhorar o planeta e a contribuir para aumentar o processo de reciclagem”.

“Ao longo dos últimos 25 anos, a SPV tem procurado que a reciclagem faça parte dos hábitos diários dos portugueses, desde o consumidor individual, às famílias, passando também pelas empresas e pelas instituições públicas e privadas”, afirma a CEO da entidade privada. Afinal, quem não se lembra do Gervásio?