Maradona e Fidel para sempre tatuados na pantorrilha esquerda do 25 de Novembro

Diego Maradona morreu no mesmo dia em que o seu ídolo Fidel Castro, a quem chamou de “segundo pai”. Fiel à Revolução cubana, morreu de esquerda como sempre viveu.

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Diego Maradona com Fidel Castro, numa das visitas do futebolista ao seu "segundo pai" e ídolo político Reuters/STRINGER

Se Diego Armando Maradona tivesse que escolher a data da morte, 25 de Novembro deveria estar, com certeza, no topo da sua lista. Ao morrer neste dia, a estrela emergida de um bairro da lata de Buenos Aires fica para sempre ligada àquele que foi o seu grande guia político, a quem chamou “segundo pai”: o líder cubano Fidel Castro, morto em 2016.

Além do Che Guevara no braço direito, El Pibe exibia orgulhoso a imagem do “mais sábio de todos” na pantorrilha esquerda, a sua perna sábia, aquela com que desafiava os poderosos e atacava os mais vilões, como cantavam Los Piojos na canção que lhe dedicaram nos anos 1990.

Se a carreira como jogador ficou marcada pelas contrariedades e contradições das suas próprias sombras e o seu currículo como treinador nada mais foi que uma sucessão de equívocos, o compromisso político, esse, foi sempre muito claro: ao lado dos mais pobres, contra o imperialismo americano e em apoio incondicional à Revolução cubana.

Em 2005, juntou-se ao então Presidente da Bolívia, Evo Morales, no baptizado Expresso del Alba (que quer dizer aurora, mas também Alternativa Bolivariana das Américas, a organização multilateral criada por Hugo Chávez), um comboio que viajou de Buenos Aires a Mar del Plata para ir protestar contra George W. Bush, o chefe de Estado norte-americano, à porta da 4ª Cimeira das Américas.

Populista, terceiro-mundista, socialista, guevarista ou, sobretudo, fidelista, Maradona foi um ser político em toda a sua dimensão, como aliás sublinha um livro acabado de publicar em ebook, uma colecção de dez ensaios escritos por mulheres chamado Todo Diego es Político.

“Ninguém é indiferente a Diego e essa não indiferença revela todo o indizível, o tabu, o estrutural, justamente aí onde se invertem as ordens impostas”, diz o livro. “O facto de falar de Diego já gera muitos incómodos”, explicava Barbara Pistoia, a editora, citada pela AM 750. Maradona gerava amores e ódios e esse “ódio estava muito carregado de racismo e classismo”.

O homem que deu orgulho ao sul de Itália (com o Nápoles), face ao racismo do Norte que sempre olhou para o fundo da bota como terra de mafiosos e preguiçosos, nunca fugiu a ser assertivo, polémico, político, nunca deixou que o encaixassem no molde esperado da estrela do futebol mediático.

E até quando assumiu “a mão de Deus” como definição para a trapaça do primeiro golo da Argentina contra a Inglaterra no Mundial 86, justificava-se como a revolta dos argentinos que vingavam por uns segundos a guerra das Malvinas, o afundamento do Belgrano e os 650 soldados e marinheiros mortos.

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