Lewis Hamilton, o activista que igualou o recorde do rival do ídolo

Com a vitória na Turquia, Lewis Hamilton sagrou-se heptacampeão do Mundo de Fórmula 1, proeza apenas conseguida por Michael Schumacher

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LUSA/Kenan Asyali / Pool

A 1 de Maio de 1994, dia em que Ayrton Senna morreu após perder o controlo do seu Williams na curva Tamburello do Grande Prémio de Imola, Lewis Hamilton tinha nove anos. O jovem inglês, na altura piloto de karting, soube da morte do brasileiro ao lado do pai, enquanto reparavam um automóvel. Mais tarde, recordou o dia em que perdeu “o herói”: “Lembro-me de me distanciar e procurar um lugar afastado. O meu pai não me deixava chorar.” A fatídica corrida em Imola ditou o fim abrupto de uma rivalidade que se previa intensa entre Senna e Michael Schumacher, e o início de uma nova era na Fórmula 1: nesse ano, o alemão venceu o primeiro de sete títulos mundiais. Vinte e seis anos depois da morte de Senna, Hamilton igualou o recorde de Schumacher e garantiu que continuará a tentar ser um “exemplo para a próxima geração”.

A história da F1 está repleta de pilotos icónicos. Para muitos, o melhor de sempre foi Juan Manuel Fangio, que na década de 50 conquistou por cinco vezes o título mundial. Nos anos seguintes, passaram pela prova rainha do automobilismo pilotos que viraram lendas, como Jim Clark, Jackie Stewart, Niki Lauda ou Alain Prost, mas o mítico recorde do argentino parecia destinado a cair nas mãos de Ayrton Senna.

E foi a ver o brasileiro pilotar de forma vertiginosa nos circuitos de F1 que Hamilton se inspirou em criança: “Eu era atraído pelo Senna porque o seu estilo de pilotar parecia ser diferente de qualquer outra pessoa. Comparado com todos os outros, parecia nunca ter medo, o que para mim era uma vantagem.”

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A morte de Senna fez perdurar por mais alguns anos o recorde de Fangio, mas deu início a uma nova era na F1. Sem o brasileiro e sem os grandes nomes que marcaram a década de 80 (Prost, Piquet ou Mansell), Schumacher impôs-se com alguma facilidade, tornando o “circo” aborrecido. Entre 1994 e 2004, o alemão coleccionou recordes, que apenas não atingiram números mais expressivos devido a más opções de Schumacher na gestão da sua carreira.

No final de 2006, depois de ter perdido dois campeonatos consecutivos para Fernando Alonso, Schumacher saiu de pista e o espanhol, que até aí não tinha em Giancarlo Fisichella um rival à altura na própria equipa, passou a ter um concorrente directo dentro da McLaren.

Com apenas 22 anos, Hamilton viu a escuderia onde Senna conquistou três títulos mundiais abrir-lhe as portas da F1 e o impacto do jovem piloto foi imediato: em 2007, no ano de estreia, o britânico foi vice-campeão, perdendo por pouco o título para Räikkönen; em 2008, sagrou-se campeão pela primeira vez.

Os anos seguintes foram, no entanto, negativos. Com um McLaren pouco competitivo e alguns problemas dentro e fora das pistas, Hamilton perdeu protagonismo para outro piloto da nova geração (Sebastian Vettel).

Curiosamente, o ponto de viragem na carreira do novo heptacampeão mundial acabou por estar directamente ligado a Schumacher. Em 2009, o alemão tinha regresso à F1 para ajudar a desenvolver os monolugares da nova Mercedes GP – desde 1955 que a ligação do construtor de Estugarda à F1 se resumia à cedência de motores -, e, quatro anos mais tarde, Schumacher retirou-se definitivamente da competição, cedendo o seu lugar na equipa a Hamilton.

O que se segue, é história. Com um casamento perfeito com a marca alemã, o piloto de Stevenage passou a dominar a F1 de forma quase absoluta e, em sete anos, apenas não se sagrou campeão mundial uma vez: em 2016, perdeu o título para Rosberg, o seu colega na Mercedes, por cinco pontos.

Ontem, depois de Hamilton conquistar o sétimo título mundial ao vencer na Turquia a 14.ª prova da época, chegando assim aos 94 triunfos em Grandes Prémios, um novo máximo da modalidade, Vettel, o piloto que a par de Senna, Schumacher e Hamilton mais impacto teve nas últimas três décadas na modalidade, não teve dúvidas em dizer que o inglês é “o melhor da nossa era”.

Hamilton, no entanto, procura deixar a sua marca de uma maneira pouco habitual no desporto. Tendo sempre Senna como referência, o inglês recusa comparações com o ídolo - “Jamais sugeriria que sou melhor do que o Ayrton. Ele é o rei, e sempre será” -, e procura deixar um legado nos mais jovens, tal como o brasileiro deixou em si.

Reconhecido activista de causas como o veganismo, a preservação do ambiente, os direitos dos animais, a luta contra o racismo - apoiou fortemente o movimento Black Lives Matter - ou os direitos das mulheres, Hamilton, aos 35 anos, tornou-se num ícone a nível mundial. E não esconde que quer aproveitar o “palco” que a F1 lhe dá para passar a sua mensagem à próxima geração. 

Logo após vencer na Turquia, o britânico partilhou uma mensagem nas redes sociais onde reconhece que “igualar o recorde de Michael Schumacher coloca” sobre si “um holofote” que não terá “para sempre”: “Por isso, enquanto estão aqui, prestando atenção, gostaria de pedir-vos que façam a vossa parte para ajudar a criar um mundo mais igualitário.”

Recordando um “ano imprevisível”, Hamilton confessou que o “longo tempo de inactividade” devido à pandemia deu-lhe tempo para “realmente pensar” que “sete campeonatos mundiais significam muito”, mas “há outra corrida que ainda não vencemos”. “Prometo que não vou parar de lutar por mudanças. Temos um longo caminho a percorrer, mas vou continuar a lutar pela igualdade no desporto e no mundo em que vivemos. Vamos fazer com que as oportunidades não dependam do estado social ou da cor da pele. Muitos disseram-me que o meu sonho era impossível, mas aqui estou eu. Quero que saibas que também podes conseguir. Nunca desistas de continuar a lutar.”

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