Projecção dá 79,7% a Lukashenko na Bielorrússia, muitas pessoas não conseguiram votar

A candidata da oposição, Svetlana Tikhanouskaia, que teve de se esconder na véspera das eleições, temendo ser presa, teria apenas 6,8%. Há enormes suspeitas de enchimento das urnas, e longas filas de pessoas em Minsk que não conseguiram votar.

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A candidata da oposição, no momento de votar, rodeada de jornalistas MARINA SEREBRYAKOVA/EPA
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LUSA/TATYANA ZENKOVICH
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Reuters/VASILY FEDOSENKO
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Aleksander Lukashenko Reuters/POOL

A Bielorrússia não viveu um dia normal de eleições como um país europeu. Ao encerrar das urnas, pelas 18h de Lisboa, foi anunciada uma projecção dos resultados, que dá uma retumbante vitória ao Presidente Aleksander Lukashenko, um líder autoritário que governa o país há 26 anos: 79,7%. Stevlana Tikhanouskaia, a candidata da oposição, que congregou o apoio de outros candidatos que foram presos e impedidos de se apresentarem a votos, terá tido apenas 6,8%. Isto depois de ter sido forçada a fugir de casa na noite anterior, para não ser também presa.

Quando as urnas fecharam, havia ainda longuíssimas filas nas ruas de Minsk, a capital, de eleitores que queriam exercer o seu voto – e não o puderam fazer. Mas as urnas estavam bem cheias. Pelas 17h de Lisboa, os números oficiais diziam que 73,4% dos eleitores tinham votado prevendo uma abstenção tão baixa que se faziam piadas, dizem os repórteres do jornal britânico The Guardian.

Quase sete milhões de bielorrussos foram chamados a votar neste domingo, embora 41,% dos eleitores tivesse podido exercer antecipadamente o seu direito de voto desde 4 de Agosto – segundo os números da Comissão Eleitoral, citados pela AFP. Foi um recorde absoluto.

O facto de haver tantos votos antecipados é motivo de preocupação, que faz suspeitar que tenha havido enchimento de urnas indevido por parte do regime.

Viktor Chonovoy,­ um monitor eleitoral da organização Gente Honesta, espreitava esta manhã por uma janela de uma sala na Universidade Estatal de Economia, em Minsk, onde foram instaladas duas mesas de voto. Estava empoleirado numa cadeira de plástico vermelha, quando o repórter do Guardian foi dar com ele: “Não me deixam monitorizar a votação”, explicou. “Só lá estão monitores eleitorais do Governo, que se substituem um ao outro”.

Chonovoy contou ainda que a contagem da votação antecipada já ia em 642 votos – mais do dobro do número de eleitores recenseados para ali votarem, um sinal suspeito de que estavam a ser postos na urna votos falsos.

Stevlana Tikhanouskaia, candidata da oposição, anunciou já na madrugada de sábado para domingo que tinha sido obrigada a sair de casa para ficar em segurança – depois de vários colaboradores da sua campanha terem sido presos. Antes de desaparecer do seu apartamento, Tikhanouskaia fez um vídeo, que disponibilizou no YouTube, em que apelava aos eleitores: “Precisamos de mudanças. Precisamos de um novo Presidente”.

Só reapareceu para votar, protegida por um batalhão de jornalistas. Sorriu para as câmaras, mas tinha uma sombra de preocupação no rosto. Durante o dia, mais membros da sua campanha foram detidos.

Tudo isto foi encarado como uma tentativa de intimidar a oposição. E a população também, visto que este domingo as praças em torno de edifícios governamentais foram cercadas pela polícia e tropas armadas surgiram nos acessos às auto-estradas que conduzem à capital, Minsk.

Na televisão passaram documentários sobre as chamadas “revoluções coloridas”, da Ucrânia e da Geórgia. O acesso à Internet foi fortemente reduzido, relatam vários jornalistas no Twitter, o que torna impossível aceder a outras redes sociais, ou aos sites da oposição.

Lukashenko, que está no poder desde 1994 e alterou a Constituição várias vezes para se poder reeleger sem limite de mandatos, procura um sexto mandato. Mas a péssima gestão da pandemia da covid-19 – nunca admitiu a escala da crise e os riscos de contágio, o que causou grande descontentamento popular – criou as condições para que surgisse uma oposição unida e persistente no objectivo de acabar com o regime.

Como pano de fundo está a degradação das condições de vida da população e a crescente noção de como o Estado age de forma repressora.

Antes, nenhuma corrente da oposição tinha conseguido afirmar-se. Muitos dos seus dirigentes políticos da oposição foram presos e, em 2019, nenhum opositor foi eleito para o Parlamento.

Os media estatais deram um destaque exclusivo ao Presidente durante a campanha, as autoridades eleitorais tentaram inviabilizar candidaturas da oposição, as equipas de observadores vêem o seu trabalho dificultado e não há pejo em encher urnas com votos favoráveis, se for necessário.

"Tudo sob controlo"

Lukashenko votou ao som de música de acordeão, relata a AFP, e garantiu que manterá a ordem – sugerindo, ao mesmo tempo, que a oposição estará a planear a desordem. “Ninguém vai deixar que as coisas se descontrolem. Tudo estará sob controlo, garanto-vos. Seja lá o que for que algumas pessoas tenham planeado”, afirmou o autocrata, em comentários que passaram na televisão.

Ao mesmo tempo, frisou que “não houve nenhuma repressão ilegal e não haverá”.

Os resultados das últimas quatro eleições presidenciais bielorrussas não foram reconhecidos como justos pelos observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE), que denunciaram fraudes e pressões sobre a oposição.

Pela primeira vez desde 2001, e por não ter recebido um convite oficial a tempo, a OSCE não estará presente na votação deste domingo para monitorizar as eleições.

Lukashenko tem sido fortemente criticado pela detenção dos dois principais candidatos da oposição e pela recusa registar um terceiro, que se exilou. Svetlana Tikhanouskaia é a mulher do youtuber Syarhey Tikhanouski, um dos que foi preso, que acabou por se candidatar e teve o apoio de outros candidatos que tinham sido impedidos de concorrer. Conseguiu um nível de mobilização sem paralelo nos seus comícios.

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