Na vida adulta, a solidão é vivida de maneira diferente conforme a idade

Cientistas dos Países Baixos estudaram os factores associados à solidão em mais de 26 mil adultos. Concluiu-se que existem factores ligados à solidão que variam conforme as faixas etárias.

Foto
A saúde emocional e o facto de se viver sozinho são factores associados à solidão em qualquer faixa etária na vida adulta Paulo Ricca/Arquivo

Uma equipa de cientistas da Universidade de Maastricht (nos Países Baixos) decidiu analisar os factores associados à solidão nos adultos. Para isso, recolheu dados de mais de 26 mil pessoas (a maioria era holandesa) entre os 19 e os 65 anos. Começou por verificar que há certos factores comuns a todas as faixas etárias. Mas, existem outros factores que apenas estão ligados a grupos etários específicos – ou seja, a solidão pode ser experienciada de forma diferente conforme a idade. Como tal, a equipa sugere que as intervenções para a solidão devem ser adequadas aos diferentes grupos etários, não devendo existir uma abordagem única. 

Thanée Franssen começa por explicar que a maioria dos estudos sobre a solidão se centra em faixas etárias específicas, como os idosos, os adolescentes e os indivíduos com certas doenças. Mas sua equipa estava interessada em analisar como os factores associados à solidão mudam ao longo das diferentes faixas etárias à medida que as pessoas envelhecem. “O nosso estudo é um dos poucos que se foca exclusivamente nos adultos ao analisar se os factores associados à solidão diferem ao longo das faixas etárias”, salienta ao PÚBLICO a primeira autora do estudo publicado esta quinta-feira na revista BMC Public Health e investigadora da Universidade de Maastricht.

Para isso, entre Setembro e Dezembro de 2016, recolheram-se dados de 26.342 pessoas dos 19 aos 65 anos: 6143 tinham entre 19 e 34 anos (foram considerados jovens adultos); 8418 dos 35 aos 49 anos (adultos no início da meia-idade); e 11.758 dos 50 aos 65 anos (adultos no final da meia-idade). Nestas pessoas foi analisada a relação entre factores sociais, demográficos e de saúde.

Ao todo, 10.309 participantes (44,3%) disseram já ter experienciado solidão. Nos jovens adultos, isso aconteceu em 2042 deles. Nos adultos no início da meia-idade 3108 pessoas disseram que já se sentiram sozinhas. Isso também aconteceu em 5159 dos adultos no final da meia-idade.

Foram encontrados factores relacionados com a solidão comuns em todas as faixas etárias. O factor mais forte foi o facto de a pessoa se sentir excluída da sociedade. Há ainda factores como a frequência do contacto com os vizinhos, a angústia, a saúde emocional e o facto de se viver sozinho.

Depois, encontraram-se alguns factores que estão presentes apenas em grupos etários específicos. Nos jovens adultos há uma forte associação entre a frequência do contacto com os amigos e a solidão. Também só nesta faixa etária foi detectada uma relação entre o nível educacional e a solidão. Passando para o grupo etário seguinte, apenas nos adultos no início da meia-idade se observou uma ligação entre a situação laboral e a solidão. Por fim, nos adultos no fim da idade adulta há uma associação entre a saúde e a solidão.

Num comunicado sobre o trabalho, os autores acrescentam ainda que as pessoas se podem sentir sozinhas se aquilo que é percepcionado como uma norma para a sua idade não estiver a ser realizado, como não completar os seus estudos num determinado momento da sua vida, não ter um parceiro e filhos, e estar desempregado.

A solidão na pandemia

E em que idade o impacto da solidão pode ser maior? Thanée Franssen responde que não se estudaram as diferenças no impacto da solidão ao longo das faixas etárias. “Apenas no focámos nos factores associados à solidão”, nota. Quanto aos impactos deixados pela solidão, a cientista refere que também não investigaram as consequências da solidão na saúde. Mesmo assim, relembra que em estudos anteriores já se mostrou que a solidão pode ter muitas consequências na saúde e contribuir para sintomas depressivos, a doença arterial coronária, o AVC ou até mesmo para a morte.

Mas falemos dos contributos deste estudo. “A identificação de factores associados à solidão é necessária para podermos desenvolver intervenções mais apropriadas”, indica Thanée Franssen. A cientista argumenta que muitas das intervenções actuais têm efeitos limitados, possivelmente, porque são demasiado universais. “Os resultados deste estudo mostram que as intervenções devem ser desenvolvidas para grupos etários específicos.”

Thanée Franssen faz questão de avisar que há ainda muito a estudar e aponta mesmo uma limitação neste estudo: não foram incluídos alguns factores como a qualidade das relações. Embora ainda não o esteja a planear, a investigadora adianta que seria interessante usar um estudo deste género noutros países para que se possam analisar variações entre diferentes populações. 

Outra possível investigação que destaca está relacionada com a actual pandemia. “Seria interessante verificar se e como a pandemia de covid-19 teve impacto nos sentimentos e nos factores associados à solidão”, conta, acrescentando que já está a explorar a possibilidade de fazer um estudo sobre este tópico. “Os nossos resultados [no estudo publicado na BMC Public Health] sugerem que durante a pandemia os sentimentos de solidão entre os adultos podem ter tido impacto de diferentes formas [de acordo com a faixa etária].” Thanée Franssen exemplifica que terá em consideração que os jovens adultos interagiram menos com os seus amigos e que há forte associação entre a frequência do contacto com os amigos e a solidão.

Sugerir correcção