Morte de George Floyd. Confrontos entre manifestantes e polícias continuam em várias cidades

Polícia de Mineápolis intensificou a resposta aos protestos. Cidades impõem recolher obrigatório. Jornalistas alvo de ataques de polícias e manifestantes.

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Protestos em Los Angeles, na Califórnia EPA/ETIENNE LAURENT

Os confrontos entre manifestantes e polícias continuaram no sábado e na madrugada deste domingo nas principais cidades dos Estados Unidos, onde a população ignorou os recolher obrigatórios e manteve os protestos na sequência da morte do afro-americano George Floyd em Mineápolis, sufocado pelo polícia Derek Chauvin.

Em Mineápolis, no estado do Minnesota, os protestos foram, em larga parte, pacíficos durante o dia, mas as forças policiais quiseram evitar a destruição e os confrontos das noites anteriores.

A quinta noite de protestos na cidade viu uma resposta mais intensa por parte das autoridades, impedindo motins ainda antes do começo da madrugada. A polícia e cerca de 4100 elementos da Guarda Nacional avançaram sobre os manifestantes, que quebraram o horário definido para o recolher obrigatório – 20h (2h de domingo em Portugal) –, com recurso a granadas de gás lacrimogéneo e de atordoamento, realizando várias detenções.

Na manhã deste domingo, a polícia de Minneapolis encontrou o corpo de um homem, com sinais de agressão, perto de um carro queimado durante os protestos. Segundo o porta-voz da polícia, John Elder, a polícia respondeu a um alerta sobre uma viatura a arder. Não se sabe ainda qual a causa de morte.

O governador do Minnesota, Tim Walz, tinha já anunciado no sábado a mobilização dos 13 mil soldados da Guarda Nacional, depois dos acontecimentos de sexta-feira à noite que comparou a um cenário de guerra. Walz denunciou elementos de fora da região, que apontou como possíveis anarquistas, mas também supremacistas brancos ou traficantes de droga, como responsáveis por criar conflitos e incitarem à violência.

Mineápolis, em Minnesota EPA/TANNEN MAURY
Mineápolis, em Minnesota EPA/TANNEN MAURY
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Mineápolis, em Minnesota EPA/TANNEN MAURY

O governador pediu ajuda ao Departamento de Defesa, que tinha prontas para intervir unidades da Polícia Militar do Exército caso fosse necessário, ao abrigo da Lei da Insurreição de 1807. A última vez que tal aconteceu foi durante os motins em Los Angeles, em 1992.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, tinha dito que ia “travar a violência colectiva”, após várias noites de distúrbios em Mineápolis, numa altura em que os confrontos se têm intensificado um pouco por todo o país. 

Trump atribuiu os confrontos a “grupos da extrema-esquerda radical” e ao movimento “antifa” (antifascista). “Não devemos deixar que um pequeno grupo de criminosos e vândalos destrua as nossas cidades”, disse.

O candidato democrata à Casa Branca Joe Biden também condenou a violência nos Estados Unidos, na sequência dos protestos contra a morte de George Floyd, mas afirmando que os americanos têm o direito de se manifestar contra a brutalidade policial.

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Protestos em Nova Iorque EPA/JUSTIN LANE

“Manifestar-se contra tal brutalidade é um direito e uma necessidade”, afirmou o candidato em comunicado. Contudo, advertiu que “incendiar cidades e provocar a sua destruição gratuita ou a violência que põe vidas em perigo já não é [um direito]”.

Confrontos intensificam-se noutras partes do país

O cenário foi diferente em outras cidades norte-americanas, incluindo Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, Filadélfia, Miami e Atlanta, em que houve confrontos com as forças policiais e actos de vandalismo. Pelo menos 16 estados instauraram recolher obrigatório em 25 cidades, de acordo com a CNN.

Associated Press diz que a polícia deteve cerca de 1400 pessoas em 17 cidades. À semelhança do Minnesota, outros dez estados e Washington D.C. chamaram a Guarda Nacional para controlar os protestos.

Em Nova Iorque, mais de 200 pessoas foram detidas, na sequência de confrontos com a polícia. Um vídeo dos protestos na cidade mostra dois veículos da polícia a forçar a passagem pelo meio da multidão, abalroando alguns manifestantes. O caso está a ser investigado, de acordo com o presidente da câmara da cidade, Bill de Blasio, que admite que os polícias podem não ter tido outra alternativa para conseguirem passar. 

Vários agentes ficaram feridos em Nova Iorque, enquanto em Atlanta e em Miami, numerosos veículos policiais foram incendiados. Um pouco por todo o país, há também relatos de uso excessivo de força por parte das forças de intervenção, investindo contra grupos pacíficos de manifestantes.

Los Angeles foi palco de marchas pacíficas com vários milhares de pessoas, mas registou também episódios de violência. Pelo menos cinco polícias ficaram feridos e centenas de pessoas foram detidas, na sequência de confrontos, pilhagens e incêndios, sobretudo em lojas de luxo de Beverly Hills. A escalada de violência levou o governador, Gavin Newsom, a declarar estado de emergência na cidade.

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Washington D.C. EPA/SHAWN THEW

Em Washington D.C., junto à Casa Branca, as granadas de gás lacrimogéneo e focos de incêndio marcaram a noite de sábado para domingo. Nos protestos junto à residência oficial do Presidente já tinham sido registados incidentes na noite de sexta-feira.

Depois da morte de um manifestante na sexta-feira em Detroit, houve mais duas, em Indianápolis, na noite de sábado para domingo. De acordo com a polícia local, outras duas pessoas ficaram feridas em tiroteios. O chefe do departamento da polícia, Randal Taylor, garantiu que o incidente não envolveu qualquer elemento policial. Acrescentou que, de monento, “não temos como as ligar a qualquer protesto”.

Centenas de manifestantes concentraram-se em protesto também em Dallas, Las Vegas, Seattle e Memphis, entre outras cidades.

Jornalistas alvos da polícia e dos manifestantes

Durante a onda de protestos e conflitos, têm-se multiplicado os relatos de jornalistas atingidos com balas de borracha ou gás lacrimogéneo, hostilizados por manifestantes e pela polícia.

Uma equipa de reportagem do canal Nine News Australia foi detida na madrugada deste domingo em Mineápolis, depois de na sexta-feira ter acontecido o mesmo a uma equipa de jornalistas da CNN que estava em directo.

Também em Mineápolis, um repórter de imagem da Reuters, Julio-César Chávez, diz ter sido atingido por balas de borracha no braço e no pescoço, acrescentando que houve mais jornalistas atingidos pelos disparos das forças policiais. “O meu segurança foi atingido na cara; a máscara de gás dele protegeu-o”, pode ler-se na publicação no Twitter.

Linda Tirano, uma fotógrafa freelancer, foi atingida no olho esquerdo com um projéctil. Foi operada e não sabe se vai perder a visão. Mas horas depois da cirurgia, Tirano voltou às ruas para continuar a fotografar.

A jornalista do Los Angeles Times Molly Hennessy-Fiske também recorreu ao Twitter para denunciar ataques da polícia de Mineápolis contra jornalistas.

“Quando a Polícia de Minnesota avançou, identificamo-nos como jornalistas e disparam gás lacrimogéneo contra nós”, diz a repórter no vídeo gravado enquanto se abrigou, juntamente com outras pessoas.

A violência também partiu dos manifestantes. Em Washington D.C., um repórter da Fox News, o canal preferido de Donald Trump, foi atacado e perseguido quando entrou em directo junto à Casa Branca, e em Atlanta a onda de vandalismo atingiu o edifício da CNN. Com Lusa

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