Estudo diz que Portugal detectava apenas 15% dos casos de infecção no final de Março

Equipa de investigadores na Alemanha apresentou estimativas da taxa de detecção em vários países. No período de duas semanas, Portugal subiu de 3,7% para 15%.

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Nelson Garrido

Um estudo realizado por dois investigadores da Universidade de Göttingen, na Alemanha, apresentou as estimativas da taxa de detecção de infecção em 40 países, entre os quais encontramos Portugal. O trabalho foi divulgado pela primeira vez no final de Março e actualizado esta semana com os novos números de casos confirmados e mortes. A média da estimativa em todos os países subiu de 6 para 9%, mas Portugal registou um “aumento considerável” passando de uma taxa de detecção de 3,7% para 15%.

O trabalho foi feito a partir de um estudo publicado na revista The Lancet Infectious Diseases, no final do mês de Março, que também apresentava uma estimativa da gravidade da doença covid-19. No primeiro exercício, Christian Bommer e Sebastian Vollmer anunciavam que, em média, nos 40 países com mais casos de infecção apenas se estariam a detectar 6% das pessoas infectadas. A referência a Portugal estava lá com o resultado de uma estimativa da taxa de detecção que ficava bem abaixo dessa média, com 3,7%. Os dados usados para o cálculo consideravam as 160 mortes confirmadas a 31 de Março e os 448 casos de infecção registados duas semanas antes, a 17 de Março.

Passaram outras duas semanas e muita coisa mudou. Em resposta ao PÚBLICO, Christian Bommer enviou os resultados dos novos cálculos, com os novos dados. Assim, considerando as 535 mortes confirmadas esta segunda-feira e os 6408 casos de infecção confirmados até 30 de Março, Portugal alcança agora uma taxa de detecção de 15% das infecções. “Se usarmos as 535 mortes de segunda-feira e assumirmos que a morte ocorre após duas semanas, deve ter havido 40.537 infecções a 30 de Março (estimamos que cerca de 1,3% dos infectados morrem em Portugal)”, explica o investigador. Christian Bommer confirma que Portugal surge com “um aumento bastante considerável em relação à nossa estimativa anterior de 3,7%”.

E quais as possíveis explicações para a melhoria da taxa de detecção em Portugal? Os investigadores não falam na hipótese de se ter aumentado o número de testes realizados, que pode ter contribuído para esta melhoria no desempenho, mesmo depois de no primeiro trabalho terem considerado (e criticado) que as baixas taxas de detecção se deviam sobretudo aos poucos testes realizados. No caso de Portugal, Christian Bommer prefere valorizar o efeito das “medidas de distanciamento social implementadas”. Mas o mais provável é que os dois factores tenham ajudado a melhorar o valor registado: já que diminuindo, por um lado, o número de infectados com as medidas de contenção e aumentando o número de testes, é possível fazer crescer consideravelmente a taxa de detecção.

O novo artigo

Há duas semanas, os autores do estudo usaram as estimativas para taxas de mortalidade por infecção por covid-19 específicas por grupo etário publicadas na revista The Lancet Infectious Diseases para calcular as taxas de detecção de infecções por SARS-CoV-2 para os 40 países mais afectados (com base no número de mortes por covid-19). Os investigadores assumem que não incluíram nos cálculos as diferenças nos sistemas de saúde ou no estado de saúde das populações analisadas, porque não existem dados suficientemente credíveis e sólidos para o fazer sem ter de recorrer também a suposições. “Estimamos o número de infecções por SARS-CoV-2 em 17 de Março, dividindo o número de mortes por covid-19 em 31 de Março pela taxa de mortalidade esperada. Em seguida, comparamos as infecções estimadas por SARS-CoV-2 em 17 de Março com os casos oficialmente notificados no mesmo dia para calcular a parcela de infecções detectadas em 17 de Março”, explicam.

A lógica, argumentam, é simples: no artigo original publicado na The Lancet Infectious Diseases estima-se que passem em média 18 dias desde os primeiros sintomas até as mortes por covid-19. “Considerámos que passavam quatro dias a partir dos primeiros sintomas antes de um paciente aparecer como um caso confirmado nas estatísticas, gerando um atraso de duas semanas entre os casos confirmados e as mortes”, referem. Na actualização agora divulgada no site da Universidade de Göttingen, os autores alertam que as estimativas apresentadas “devem ser entendidas como um exercício mental em vez de uma previsão, porque existem várias razões para que as taxas de detecção aumentem ou diminuam com o tempo”.

As taxas de detecção podem diminuir durante a progressão de uma epidemia, “porque fica cada vez mais difícil descobrir todas as infecções à medida que o número de casos aumenta exponencialmente”. E, por outro lado, a taxa de detecção também pode aumentar quando ocorrem poucas novas infecções, por exemplo, como consequência do distanciamento social.

Entre os vários casos analisados, os dois cientistas mencionam a Turquia e os Estados Unidos como exemplos de países que inicialmente não detectaram muitos casos, mas aumentaram a capacidade de testes em resposta aos números de mortes por covid-19. Usando a mesma metodologia, constata-se agora com os novos dados que a taxa média de detecção aumentou para 8% a 23 de Março e 9% em 30 de Março. “Evitamos estimar os números actuais de infecção com base nessas taxas de detecção actualizadas, pois os resultados mostram que a suposição de taxas de detecção constantes não é válida”, justificam no novo artigo, onde referem também que “o cálculo da taxa de detecção baseia-se na suposição de que o relato de óbito tem bastante precisão”.

Mesmo admitindo que a notificação de óbitos não é perfeita nem perfeitamente comparável entre países, os autores consideram que nos dados sobre as mortes existe menos incerteza do que na notificação de casos confirmados. É inevitável concluir o que já quase todos sabem: a proporção de casos não detectados é alta. Também sabemos que para ter valores mais precisos e correctos das taxas de mortalidade por infecção em cada país e também das taxas de detecção é preciso deixar passar mais tempo e fazer mais estudos representativos da população.

Há, no entanto, razões de sobra para continuarmos inquietos. Christian Bommer e Sebastian Vollmer concluem: “Embora, na média, as taxas de detecção tenham melhorado alguns pontos percentuais em duas semanas, em grande parte devido ao distanciamento social, o nível geral a 30 de Março ainda era muito baixo. É necessário muito mais esforço para identificar infecções, conter a disseminação do SARSCoV-2 e, finalmente, salvar vidas.”

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