Ajudar a prevenir o cancro é possível - a OMS diz como

A mudança de comportamentos não resolve tudo, mas é uma das principais chaves para travar as estatísticas do cancro. A prevenção, em muitos casos, é possível e a Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de publicar dois relatórios onde indica o que cada um pode fazer para ajudar a evitá-lo.

Foto
Getty

Deixar de fumar, praticar exercício físico, manter uma alimentação saudável e evitar a obesidade. Todos sabemos de cor – porque ouvimos constantemente – o enorme impacto que estes e outros comportamentos podem ter na nossa saúde, contribuindo para prevenir uma multiplicidade de doenças, entre as quais o cancro. Isto é verdade e a evidência científica tem vindo a comprová-lo sistematicamente nos últimos anos. Ainda assim, os números associados a este flagelo não param de aumentar. De acordo com os dados de um relatório recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre cancro - WHO Report on Cancer - uma em cada seis pessoas morrem em consequência de uma doença oncológica, o que constitui a segunda causa de mortalidade no mundo inteiro. Só em 2018, registaram-se cerca de 18,1 milhões de novos casos globalmente e acredita-se que este valor possa chegar aos 29,4 milhões em 2040, se tudo se mantiver como até aqui.

Mas ainda que as previsões indiquem que esta realidade venha a ser cada vez mais frequente - à medida que a esperança de vida aumenta e o envelhecimento da população se acentua - também é verdade que muito há a fazer para o evitar. E essas são as boas notícias. A prevenção do cancro é precisamente o tema dominante de um outro relatório da OMS -World Cancer Report - Cancer Research for Cancer Prevention – onde, ao longo de 613 páginas, a Agência Internacional para a Pesquisa sobre Cancro (IARC - International Agency for Research on Cancer, no original) apresenta uma visão muito abrangente sobre a pesquisa mais relevante feita até ao momento sobre a prevenção da doença oncológica. Ambos os documentos foram tornados públicos a 4 de Fevereiro, por ocasião do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, vindo dar resposta àquela que é a pergunta de todos: afinal, o que é que cada um pode fazer para evitar a escalada global do cancro?

Metade dos cancros são evitáveis

Além do muito que pode e deve ser feito pelos governos de cada país para contribuir para a prevenção do cancro – não só em termos legislativos, fiscais e educativos, mas também com vista a tornar acessíveis à população os meios básicos de detecção precoce e tratamento do cancro - há uma margem de actuação onde cada um de nós pode desempenhar um papel crucial: o da adopção de comportamentos conscientes e saudáveis. Se tudo isto for posto em prática no mundo inteiro numa acção colectiva concertada, a OMS acredita que, juntos, podemos evitar a morte de sete milhões de pessoas até 2030. O número é grandioso e merece a nossa atenção, já que significa que muitas mortes por cancro são evitáveis. E são-no, com a OMS a estimar que entre metade e um terço de todos os cancros podem ser prevenidos através da eliminação ou diminuição da exposição a determinados factores de risco. Quais? Vamos voltar ao início deste artigo e apresentá-los um a um:​

Tabaco – o principal culpado

O tabaco é responsável por cerca de 2,4 milhões de mortes por cancro todos os anos, constituindo um factor de risco para, pelo menos, 20 tipos de cancro diferentes e outras patologias, como doenças respiratórias crónicas e cardiovasculares. Em 2017, registou-se um total de 8 milhões de mortes por doenças associadas ao tabaco, onde o fumo passivo também marca presença. De acordo com a OMS, esta é a principal causa prevenível de cancro, razão por que, quem fuma, deve começar aqui a sua estratégia de prevenção (ver caixa). A vantagem imediata é que a esperança média de vida aumenta logo cerca de dez anos, independentemente da idade em que a decisão é tomada.​

Álcool, obesidade, sedentarismo e alimentação

Num país como o nosso, em que a permissividade em torno do consumo de álcool é grande, este dado é particularmente relevante: em 2016, a ingestão de bebidas alcoólicas constituiu um dos principais factores de risco para o desenvolvimento de cancro, causando a morte de 376 200 pessoas no mundo. Ou seja, só o álcool foi a causa de 4,2% de todas as mortes por cancro, pelo que a OMS recomenda fortemente a redução ou eliminação do seu consumo. Junte-se a isto a robusta evidência disponível, - oriunda de dezenas de estudos conduzidos ao longo de anos - que relaciona a obesidade com diversos tipos de cancro e facilmente se percebe a necessidade de se introduzir mudanças no estilo de vida, a começar no que bebemos e comemos (ver caixa) e sem esquecer a prática de exercício físico. É que mesmo quem não tem excesso de peso deve combater o sedentarismo, já que os dados disponíveis são claros ao relacionar a inactividade física com um risco aumentado de cancro da mama, cólon, endométrio e pulmão.​

Atenção ao sol e aos solários

A exposição à radiação ultravioleta (UV) é um dos principais factores de risco para o desenvolvimento do cancro da pele. Ao longo da vida, a pele vai somando todos os excessos de sol, como se possuísse memória. Ou seja, uma queimadura solar, por si só, não vai desencadear imediatamente um cancro cutâneo, mas fica gravada e soma-se a outras ao longo dos anos. Estima-se que, por volta dos 18 anos de idade, se atinja cerca de 80% da radiação total tolerada pela pele. Ainda que a exposição solar tenha o efeito benéfico de permitir a síntese de vitamina D, recomenda-se moderação e protecção, especialmente no caso de crianças e de pessoas de pele e olhos claros, com muitos sinais ou sardas, por serem mais susceptíveis a queimaduras. Devem ainda recusar-se o uso de solários e dispositivos de bronzeamento artificial, também associados ao aumento do risco de cancro cutâneo.​

Vacinar para prevenir

Alguns cancros são causados por agentes infecciosos, como é o caso do carcinoma hepatocelular (o tipo de cancro mais comum do fígado) que, em 2018, atingiu 360 mil pessoas no mundo, em consequência de infecções crónicas com o vírus da hepatite B. Da mesma maneira, o vírus do papiloma humano (HPV, na sigla em inglês) é responsável por um elevado número de infecções, algumas das quais podem evoluir para diversos tipos de cancro, sendo o mais comum o cancro do colo do útero. Para ambos os casos há vacinas, estando integradas no Programa Nacional de Vacinação (PNV): a da hepatite B para recém-nascidos e a do HPV para raparigas aos 10 anos (em Outubro de 2020 entrará em vigor o PNV actualizado, do qual constará o alargamento da vacina contra o HPV aos rapazes com 10 anos).​

Amamentação, sim. THS não

De acordo com a OMS, a amamentação reduz o risco de cancro da mama, pelo que esta é uma prática recomendada a todas as mulheres que têm possibilidade de o fazer. O mecanismo responsável pelo efeito protector ainda não está totalmente esclarecido, mas acredita-se que possa estar relacionado com alterações na estrutura da mama e da duração da exposição hormonal da mãe.​

Já no que diz respeito à terapia hormonal de substituição (THS), os dados científicos disponíveis são claros na relação estabelecida com o aumento do risco de desenvolvimento de determinados cancros, pelo que, sempre que possível, a recomendação é a de se evitar ou limitar o recurso a esta terapêutica.

Rastreios – detectar cedo para tratar melhor

Sabe-se que os tratamentos de cancros detectados em fases precoces tendem a ser menos agressivos, menos dispendiosos e mais eficazes, contribuindo para taxas de sobrevivência de longo prazo mais elevadas e melhor qualidade de vida. Em Portugal, estão disponíveis programas de rastreio que devem ser seguidos pela população, através do SNS ou de prestadores privados de cuidados de saúde, de acordo com a idade e a história clínica:

  • Cancro colorrectal (homens e mulheres);
  • Cancro da mama e cancro do colo do útero (mulheres);
  • Cancro da próstata (homens).

Iniquidades a combater

Numa altura em que a população mundial tem cada vez mais acesso a informação, a OMS espera que todos, em conjunto, possam contribuir para a redução do fardo (emocional, físico, psicológico e económico) que as doenças oncológicas têm na vida dos cidadãos e na economia dos países. Um dos entraves a que esse objectivo seja alcançado está também identificado nos dois relatórios agora publicados e passa pelas desigualdades que subsistem a nível mundial, de acordo com o nível de desenvolvimento e de rendimento dos países, o que contribui para iniquidades no acesso à prevenção, detecção precoce e tratamento do cancro. Algo que a OMS espera que venha também a esbater-se com as estratégias propostas com vista a tornar acessíveis a todos os meios necessários para desacelerar a progressão das doenças oncológicas no mundo.​