Putin diz que o liberalismo é “obsoleto” e critica política migratória da UE

Presidente russo deu uma entrevista ao Financial Times a propósito da cimeira do G20, onde esta sexta-feira manteve um encontro com Donald Trump.

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Putin foi muito crítico das políticas europeias para as migrações e de inclusão das minorias sexuais Reuters/SPUTNIK

O Presidente russo, Vladimir Putin, defendeu que o liberalismo “ultrapassou o seu desígnio” e é hoje uma ideologia “obsoleta”, numa entrevista concedida ao Financial Times na véspera do início da cimeira do G20, em Osaka, no Japão.

Para Putin, a decisão da chanceler alemã Angela Merkel de abrir as fronteiras aos refugiados sírios no Verão de 2015 – num dos picos críticos da crise europeia dos refugiados – foi um “erro fundamental” que terá ajudado à descredibilização do liberalismo como a ideologia dominante na Europa Ocidental desde o fim da II Guerra Mundial.

“Esta ideia liberal pressupõe que nada precisa de ser feito, que os migrantes podem matar, pilhar e violar com impunidade porque os seus direitos como migrantes devem ser protegidos”, declarou o líder russo.

Muitas das ideias defendidas por Putin durante a entrevista eram conhecidas. Há anos que o líder russo – no poder de forma ininterrupta há duas décadas – é um crítico do sistema democrático liberal e, mais recentemente, não se tem coibido de apoiar políticos da extrema-direita eurocéptica e anti-imigração.

Mas as suas palavras foram ditas, desta vez, na véspera do encontro das vinte maiores potências económicas – reunidos em cimeira em Osaka, no Japão, esta sexta-feira e sábado –, onde na sua maioria o liberalismo se mantém hegemónico, apesar de forças populistas que põem em causa esses valores terem vindo a ganhar terreno nos últimos anos.

Os liberais “já não podem ditar nada a ninguém, tal como fizeram nas últimas décadas”, afirmou Putin.

As declarações de Putin mereceram uma resposta do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que disse “discordar firmemente” do líder russo. “O que acho mesmo obsoleto é o autoritarismo, os cultos de personalidade e o controlo dos oligarcas”, disse Tusk.

O líder russo também criticou as políticas de inclusão das minorias sexuais, embora assegurando que não há qualquer “problema com as pessoas LGBT” na Rússia. Nos últimos anos, o Governo de Moscovo tem apertado o cerco àquilo que diz ser “propaganda homossexual”, proibindo, por exemplo, que seja dada às crianças qualquer informação sobre a homossexualidade ou os direitos LGBT.

“Não estou a tentar insultar ninguém porque fomos condenados pela nossa alegada homofobia, mas não temos problemas com as pessoas LGBT”, afirmou. “Mas algumas coisas parecem-nos excessivas. Agora dizem que as crianças podem ter cinco ou seis papéis de género”, acrescentou o Presidente russo.

Putin reservou elogios para o Presidente dos EUA, Donald Trump, que caracterizou como uma “pessoa talentosa” com capacidade para se relacionar com os eleitores. Mas não deixou de criticar o unilateralismo norte-americano que responsabilizou pela situação “explosiva” no Golfo Pérsico com o Irão.

Para o líder russo há uma falta de regras para regular a conduta das potências mundiais no momento actual, que o torna mais perigoso quando comparado com a Guerra Fria. “Pelo menos havia algumas regras a que todos os participantes nas comunicações internacionais aderiam em maior ou menor extensão, ou pelo menos tentavam seguir. Agora parece que não há regras nenhumas”, disse.

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