Berardo admite chamar Constâncio como testemunha contra os bancos

O investidor está a estudar a possibilidade de chamar Vítor Constâncio como testemunha a seu favor, contra os bancos que estão em tribunal a tentar recuperar as dívidas de mil milhões. O ex-governador tem vindo a sublinhar que os ex-gestores da Caixa “deviam ter tomado decisões” sobre as garantias, uma ideia que o próprio Berardo já defendeu.

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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

José Berardo admite chamar o ex-governador do Banco de Portugal como testemunha no processo que a banca lhe moveu para recuperar 962 milhões de euros, disse ao PÚBLICO fonte oficial da Fundação José Berardo.

Em causa está o facto de o ex-governador, que liderou o BdP entre 2000 e 2010, ter vindo defender que a Caixa “deveria ter tomado decisões antes de as acções terem começado a descer”, e “isso não aconteceu”. Sexta-feira passada, em entrevista ao programa 360º da RTP3, Constâncio, quando lhe perguntaram por que razão a Caixa não o fez, disse: “Não sei, não posso responder porque essas decisões são da exclusiva responsabilidade dos órgãos de gestão da Caixa, como é evidente.” 

Já na entrevista do fim-de-semana ao DN/TSF, o ex-governador reforçou a ideia: “Em qualquer momento, a Caixa podia travar o empréstimo, apropriar-se das acções que estavam em penhor e vendê-las”, voltando a repetir, quando questionado sobre as razões de os gestores do banco não o terem feito, que não podia responder, porque “essas decisões são da exclusiva responsabilidade dos órgãos de gestão da Caixa, como é evidente”.

A mesma tese foi apresentada em Maio, pelo próprio José Berardo, na CPI à recapitalização da Caixa quando, para se desresponsabilizar de não ter pago as dívidas, observou que se o banco público perdeu dinheiro, foi porque não executou as acções do BCP, quando começaram a cair. A declaração levou, na mesma CPI, Jorge Tomé, ex-administrador da Caixa, a contrapor: “O que Berardo aqui disse foi tudo conversa, o mutuário não queria vender acções nenhumas.”

Ao PÚBLICO, conforme notícia desta segunda-feira, Jorge Tomé comentou a opinião de Vítor Constâncio, a defender que a Caixa deveria ter executado os títulos BCP, deste modo: “Como é possível a um ex-governador do BdP vir dizer que o problema é do credor, e não é do mutuário?”. Este fim-de-semana, vários órgãos de comunicação fizeram eco da posição do ex-governador, de remeter responsabilidades para a Caixa.

José Berardo reagiu, em nota enviada ao PÚBLICO, às declarações recentes de Constâncio, admitindo “seriamente arrolar como testemunha o drº Vítor Constâncio, o ex-Governador do BdP”, no processo judicial que os credores lhe moveram. Não apenas Constâncio, mas também outras “personalidades com responsabilidades nos diversos eventos ocorridos em 2007”.

A 20 de Abril, a CGD, BCP e o Novo Banco, meterem uma acção contra Berardo a reclamar o pagamento de dívidas de 962 milhões de euros.

A Caixa chegou a deter 185 milhões de acções do BCP entregues por Berardo como colateral do empréstimo de 350 milhões de euros que recebeu em 2007 para financiar o aumento da posição qualificado no BCP de 3,88% para 7,7%.

Depois de em 26 Junho de 2007, a cotação do BCP ter atingido o pico máximo de 4,3 euros, no final de ano a carteira de títulos do BCP, na posse da CGD, iniciou um ciclo contínuo de desvalorização. A 16 de Janeiro de 2008, a cotação do BCP estava a 1,86 euros, abaixo de 1,87 euros, o patamar calculado pelos serviços para a cobertura de 100% da dívida (nível contratualizado de 1,94 euros).

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